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O Filho Voltou Pelo Rancho, Mas A Escritura Virou O Jogo-silas

O vento descia das montanhas naquela manhã com uma frieza paciente, como se soubesse que eu ainda não estava pronto para chamar aquele lugar de lar.

A madeira da varanda rangia sob minhas botas.

O café na minha mão soltava vapor, escuro e amargo, enquanto eu olhava para o celeiro vermelho do outro lado da entrada de cascalho.

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Mais adiante, o gado se mexia devagar perto da cerca.

O riacho cortava o pasto do sul, estreito e escuro sob o céu cinza de Montana.

Raymond Keech dizia que aquele riacho era a veia do rancho.

Ele dizia isso do jeito que dizia quase tudo: sem poesia, mas com verdade suficiente para ficar grudado na cabeça de um homem.

Oito dias antes, eu ainda morava num quarto alugado em cima de uma loja de ferramentas no Kentucky.

Era um quarto estreito, com parede fina, encanamento barulhento e uma janela que dava para o estacionamento dos fundos.

Eu tinha uma cama, duas mudas de roupa, uma cafeteira velha e uma caixa com fotografias da minha esposa.

Não era uma vida, exatamente.

Era o que sobrou dela.

Então o advogado de Raymond ligou.

A voz dele veio limpa e profissional, mas a notícia chegou como pedra no peito.

Raymond tinha morrido.

Meu mentor.

Meu amigo.

O homem que tinha sido mais meu irmão do que muitos irmãos de sangue conseguem ser.

Nós nos conhecemos quase quarenta anos antes, numa equipe de oleoduto perto de Billings.

Éramos jovens, duros, teimosos e pobres demais para admitir medo.

Naquela época, a gente achava que trabalho pesado transformava homens comuns em homens ricos antes dos quarenta.

Não transformou.

Mas transformou nós dois em outra coisa.

Companheiros de frio.

Companheiros de dívida.

Companheiros de silêncio.

Raymond era o tipo de homem que não dizia “eu me importo” se pudesse aparecer com um pneu reserva, uma lanterna e um sanduíche embrulhado em papel alumínio.

Quando eu não tinha dinheiro para voltar para casa depois de uma demissão, foi Raymond quem me emprestou a caminhonete.

Quando ele quebrou duas costelas num inverno ruim, fui eu quem dormiu três noites numa cadeira dura perto da cama dele.

A amizade dele nunca foi barulhenta.

Foi confiável.

Isso vale mais do que ternura quando a vida começa a tirar as coisas uma por uma.

Raymond nunca se casou.

Construiu aquele rancho pedaço por pedaço, cerca por cerca, inverno por inverno.

Eu voltei para o leste quando minha esposa adoeceu.

Ele ficou sob aquele céu enorme e fez de uma terra vazia uma coisa firme.

Minha esposa morreu seis anos antes de Raymond.

Quando ela se foi, eu perdi mais do que a mulher que eu amava.

Perdi a casa.

Perdi as economias.

Perdi o último lugar onde eu ainda me sentia necessário.

Meu filho Kyle sabia disso.

Ele sabia que a doença da mãe tinha drenado tudo que havíamos guardado.

Sabia que eu vendi ferramentas, móveis, lembranças, e até o relógio do meu pai para pagar contas que continuavam chegando depois do enterro.

Sabia que, quando coloquei minhas roupas em duas malas e dirigi até Denver, eu não estava pedindo conforto.

Eu estava pedindo um canto.

Fiquei três semanas na casa dele e de Melissa.

Tentei ocupar pouco espaço.

Consertei a dobradiça de um armário que batia toda vez que alguém abria a porta.

Lavava a louça antes que alguém pedisse.

Tirava o lixo.

Saía para caminhar quando a casa ficava silenciosa demais.

Eu dobrava meu luto com cuidado, como se a minha dor fosse uma toalha velha que não podia incomodar ninguém.

Kyle dizia que eu não precisava fazer tudo aquilo.

Mas dizia olhando para o celular.

Melissa era educada.

Educada demais.

Falava comigo com uma suavidade que não tinha calor.

Perguntava se eu queria café, mas nunca se sentava comigo para tomar.

Dizia que eu podia usar a sala, mas sempre deixava alguma coisa dela sobre o sofá, como se aquele espaço já tivesse dono.

Na terceira semana, ela me chamou para a mesa da cozinha.

Kyle não estava em casa.

Ela colocou uma caneca na minha frente, não se sentou, e disse que talvez fosse mais saudável eu encontrar meu próprio canto.

A palavra saudável ficou entre nós como uma desculpa limpa.

Naquela noite, Kyle me ligou.

Não passou lá em cima para falar comigo.

Ligou do próprio carro.

Disse que concordava com Melissa.

Disse que eu precisava reconstruir minha independência.

Disse que eu sempre tinha sido forte.

Homens usam elogios como portas quando querem empurrar alguém para fora sem parecer cruel.

No dia seguinte, eu fui embora.

Depois disso, seis anos passaram.

Sem ligação no meu aniversário.

Sem cartão de Natal.

Sem uma mensagem perguntando se eu tinha adoecido, se eu ainda trabalhava, se eu ainda conseguia subir escadas sem parar no meio.

Só silêncio.

Família, às vezes, não abandona batendo a porta.

Abandona com educação, com frases limpas, com a covardia vestida de bom senso.

Por isso, quando o carro de Kyle apareceu na estrada de cascalho de Raymond, eu soube que ele não tinha vindo por saudade.

Eu estava na varanda.

Tinha passado a manhã tentando entender o peso daquela casa.

A casa principal era simples, mas firme.

Tinha uma cozinha antiga, armários marcados por anos de mãos, uma mesa onde Raymond provavelmente havia tomado café sozinho por décadas e uma janela que enquadrava o pasto como se fosse um quadro vivo.

Não havia luxo.

Havia permanência.

E permanência assusta um homem que passou anos sendo tratado como temporário.

O carro de Kyle vinha primeiro, levantando poeira.

Atrás dele, vinha um SUV branco.

Um homem de camisa social desceu segurando uma pasta de couro.

Eu não precisei de apresentação para sentir o cheiro de negócio.

Kyle saiu do carro e ajeitou a jaqueta antes de olhar para mim.

Parecia mais velho.

Não parecia mais bondoso.

Usava uma jaqueta de lona bege, limpa demais para aquela estrada, nova demais para aquele vento.

Era o tipo de roupa que um homem compra quando quer parecer dono de um lugar antes de merecer a poeira dele.

Melissa desceu do SUV.

Botas altas.

Colete de fleece.

Cabelo impecável mesmo depois da estrada.

Ela não olhou para mim primeiro.

Olhou para a casa.

Depois para o celeiro.

Depois para o pasto.

Seus olhos se moviam como móveis sendo arrastados mentalmente de um cômodo para outro.

“Pai”, Kyle disse, abrindo um pouco os braços. “Você está bem.”

Eu não saí da varanda.

A distância entre nós era pequena.

Os seis anos é que eram grandes.

“Por que você está aqui?” perguntei.

Melissa sorriu. “Viemos ajudar.”

A palavra entrou no meu estômago como café frio.

O homem da pasta deu um passo à frente e me entregou um cartão.

“Dennis Hale. Intermountain Property Partners. Seu filho entrou em contato conosco sobre o potencial de desenvolvimento da propriedade.”

Potencial de desenvolvimento.

Raymond teria cuspido no chão se ouvisse isso.

Ele dizia que terra não era potencial.

Terra era responsabilidade.

Olhei para Kyle.

“Você chamou uma empresa imobiliária?”

Ele não teve a decência de parecer envergonhado.

Os olhos dele passaram por mim e pousaram no celeiro.

“A gente estava estudando opções. Esse lugar é grande demais para uma pessoa só.”

“Ainda mais para alguém na sua fase da vida”, Melissa acrescentou, com uma delicadeza que fazia a frase ficar mais feia.

Minha fase da vida.

Eu já tinha ouvido palavras educadas sendo usadas como facas macias.

Aquela entrou sem fazer barulho.

Kyle pigarreou.

“Nós conversamos. Melissa e eu podemos ficar com a casa principal. Administrar a propriedade. Manter tudo funcionando. Você pode morar na casa do capataz.”

Ele apontou vagamente para baixo da estrada.

“Tem aquecimento, entrada própria, tudo que você precisa.”

Tudo que eu precisava.

Não tudo que era meu.

A casa do capataz ficava mais abaixo, perto do galpão de equipamentos.

Era uma construção decente.

Raymond a mantinha limpa para trabalhadores temporários.

Mas esse nunca foi o ponto.

Meu filho tinha atravessado três estados depois de seis anos de silêncio para me colocar num anexo em uma terra sobre a qual ele não tinha lido uma única página.

Melissa deu mais um passo na varanda.

“Você ficaria confortável, Walter. E não teria que se preocupar.”

Era assim que ela fazia.

Tirava a dignidade de alguém e chamava aquilo de cuidado.

Dennis Hale observava o telhado, a varanda e a estrada de acesso com interesse demais para alguém que não possuía nada ali.

Melissa segurava o celular na mão, a tela acesa.

Talvez já estivesse pronta para mandar uma mensagem dizendo que estava tudo encaminhado.

A varanda inteira pareceu estreitar.

O gado se mexeu perto da cerca.

O vento virou a beirada do meu casaco.

Ninguém ali falava alto, mas a humilhação não precisa de grito para ser pública.

Basta haver testemunhas.

Dentro da cozinha de Raymond, em cima da mesa, estava o pacote da escritura.

Debaixo dele, estava o envelope lacrado que o advogado tinha me entregado dois dias antes, às 9h17 da manhã, no pequeno escritório da rua principal.

Meu nome estava escrito na frente naquela letra quadrada de Raymond.

Walter, todo o resto está com Donna. Ela já está esperando você.

Eu tinha lido aquilo três vezes.

Depois fui ao escritório de Donna Partello.

Donna era o tipo de advogada que não desperdiçava frases nem gestos.

Ela colocou diante de mim os documentos que Raymond havia preparado anos antes daquele dia.

Não era apenas uma escritura.

Não era apenas um testamento.

Era um plano.

Um plano paciente, datado, registrado, com cópias separadas, cláusulas marcadas e assinaturas conferidas linha por linha.

Havia a escritura.

Havia a carta de Raymond.

Havia anexos sobre a casa principal, a casa do capataz, a estrada de acesso, o arrendamento do pasto e a única pessoa autorizada a decidir qualquer venda.

Donna passou por cada folha devagar.

Disse onde Raymond tinha assinado.

Disse quando os registros tinham sido conferidos.

Disse quais cópias ficavam arquivadas.

Disse quem podia contestar.

Disse quem não podia tocar em nada sem minha autorização.

Raymond não tinha me dado um presente.

Tinha me dado uma defesa.

Na varanda, Kyle respirou fundo como um homem tentando parecer razoável.

“Pai”, ele disse, mais baixo, “não complique isso.”

Aquilo quase me fez sorrir.

Ele achava que difícil era eu parado na porta.

Não fazia ideia de como difícil estava prestes a parecer.

Entrei na cozinha sem pressa.

O cheiro de café velho e madeira encerada me recebeu.

Peguei o pacote de documentos da mesa.

Por um segundo, minha mão ficou sobre o envelope de Raymond.

Eu pensei em todas as vezes em que aquele homem tinha ficado do meu lado sem pedir palco.

Pensei nele erguendo cercas sob neve.

Pensei nele dizendo que algumas pessoas só respeitam linhas quando elas estão escritas em papel.

Então voltei para a varanda.

Melissa parou de sorrir por tempo suficiente para notar o envelope.

Dennis Hale apertou a alça da pasta contra o corpo.

Kyle deu um passo à frente.

“Que documentos são esses?”

Coloquei a escritura sobre a mesa velha da varanda.

A madeira era áspera sob meus dedos.

Empurrei a primeira página na direção dele.

“Você disse que queria administrar a propriedade”, falei. “Então comece lendo quem Raymond colocou como dono.”

Kyle soltou uma risada curta, sem humor.

“Pai, isso é desnecessário.”

“Leia.”

A palavra saiu baixa.

Mesmo assim, o cascalho, o vento e até o gado pareceram parar para ouvir.

Melissa inclinou a cabeça.

“Walter, nós só estamos tentando evitar que você tome uma decisão emocional.”

“Não foi emocional”, eu disse. “Foi registrado.”

Dennis Hale olhou para Kyle de lado.

Pela primeira vez desde que tinham chegado, meu filho não parecia irritado.

Parecia incerto.

Ele pegou a página.

Seus olhos desceram até a linha principal da escritura.

Depois voltaram para o topo.

Depois desceram de novo, mais devagar.

Melissa se aproximou.

“Kyle?”

A mão dele apertou o papel com força suficiente para amassar um canto.

Eu vi o momento exato em que ele entendeu que aquela casa principal nunca tinha sido uma peça disponível no tabuleiro dele.

Eu também vi quando ele percebeu que a casa do capataz talvez não fosse minha alternativa.

Talvez fosse a dele.

Empurrei o segundo envelope pela mesa.

Melissa finalmente abaixou o celular.

Dennis Hale parou de olhar para a propriedade e passou a olhar para a assinatura de Raymond.

Kyle levantou os olhos para mim como se eu tivesse acabado de virar alguém que ele não sabia como manipular.

“Agora leia a carta que Raymond deixou sobre pessoas que aparecem tarde demais”, eu disse.

Kyle não pegou o envelope de imediato.

Ficou olhando para ele como se papel pudesse morder.

Melissa esticou a mão, talvez para abrir, talvez para tirar dali, mas eu coloquei dois dedos sobre a borda antes que ela tocasse nele.

Não apertei.

Não levantei a voz.

Só deixei claro que, naquele rancho, a pressa deles tinha acabado.

“Ele não tinha o direito de escrever sobre nós”, Kyle disse.

“Você ainda nem leu.”

O vento passou pela varanda e fez a escritura tremer contra a mesa.

Dennis Hale tirou um lenço do bolso e passou na testa, embora o frio estivesse cortando.

Ele já tinha visto contratos suficientes na vida para reconhecer quando um negócio morria antes de nascer.

Foi então que a porta da cozinha se abriu atrás de mim.

Donna Partello apareceu segurando uma pasta azul.

Eu não tinha trazido aquela pasta para fora.

Ela não parecia surpresa.

Parecia pontual.

“Raymond pediu que eu estivesse presente se Kyle aparecesse com terceiros”, ela disse.

A cor saiu do rosto de Melissa tão depressa que o sorriso dela pareceu uma máscara vazia.

Kyle olhou para Donna, depois para mim.

“Você armou isso?”

Donna colocou a pasta ao lado da escritura.

Na etiqueta, havia uma data de seis anos atrás.

A mesma semana em que Kyle me disse que era melhor eu encontrar meu próprio canto.

Melissa deu um passo para trás.

“Kyle… que semana é essa?”

Ele não respondeu.

Donna abriu a pasta, tirou uma página dobrada e ajeitou os óculos.

“Raymond deixou instruções específicas sobre a casa principal”, ela disse. “E sobre qualquer parente que surgisse depois da transferência.”

Kyle balançou a cabeça.

“Isso não pode ser legal.”

Donna olhou para ele como se já tivesse ouvido frases melhores de homens piores.

“É legal o suficiente para ter sobrevivido a três revisões independentes.”

Dennis Hale fechou a pasta de couro devagar.

Foi o primeiro gesto inteligente dele naquele dia.

Donna começou a ler.

A carta de Raymond não tinha floreio.

Era direta, como ele.

Dizia que eu tinha trabalhado ao lado dele quando nenhum banco queria esperar e nenhum inverno queria ceder.

Dizia que eu tinha voltado para cuidar da minha esposa, não para fugir da vida dura.

Dizia que um homem que perde tudo e ainda lava a própria xícara sem reclamar não merece ser tratado como sobra.

Minha garganta fechou.

Eu olhei para o pasto porque não queria dar a Kyle a satisfação de ver meus olhos encherem.

Então Donna chegou à parte que mudou o ar da varanda.

“Caso Walter seja pressionado, coagido, removido da casa principal ou convencido a abrir mão da residência por qualquer pessoa que tenha ficado ausente de sua vida por período prolongado, a casa do capataz não deverá ser usada para acomodar Walter.”

Kyle ficou imóvel.

Donna continuou.

“Ela deverá permanecer disponível apenas para empregados contratados por Walter, visitantes autorizados por Walter ou qualquer parte que Walter, por vontade própria, decida hospedar fora da residência principal.”

Melissa piscou rápido.

“Isso não diz que nós temos que ficar lá.”

“Não”, Donna respondeu. “Diz que vocês não têm direito automático a lugar nenhum.”

O silêncio depois disso foi diferente.

Não era vazio.

Era um silêncio cheio de coisas caindo por dentro.

Kyle olhou para mim.

“Pai, você não vai fazer isso comigo.”

Eu esperei.

A frase tinha vindo tarde demais e do jeito errado.

Não era pedido.

Era acusação.

“Fazer o quê, Kyle?” perguntei. “Ler o que já estava escrito?”

Ele abriu a boca, mas Melissa falou antes.

“Nós somos sua família.”

A palavra família, na boca dela, soou como uma chave tentando abrir uma fechadura que não pertencia a ela.

Donna virou mais uma página.

“Raymond também deixou uma observação sobre isso.”

Kyle fechou os olhos.

Pela primeira vez, pareceu cansado.

Talvez porque soubesse o que vinha.

Talvez porque, em algum canto fundo dele, lembrasse exatamente quem tinha fechado a porta seis anos antes.

Donna leu:

“Família não é quem aparece quando a terra muda de nome. Família é quem aparece quando o homem está sem chão.”

Aquilo me atingiu com mais força do que eu esperava.

Porque era Raymond.

Era a voz dele sem precisar de voz.

Era o homem que nunca me abraçou fácil me defendendo depois de morto.

Melissa olhou para Kyle.

“Você disse que ele tinha se afastado.”

Kyle não respondeu.

Dennis Hale deu mais um passo para trás.

O negócio estava acabado.

A pose também.

Mas Kyle ainda não tinha desistido.

Homens que confundem herança com direito raramente caem no primeiro golpe.

Ele colocou a escritura na mesa com cuidado exagerado.

“Tudo bem”, disse. “O rancho está no seu nome. Eu entendi. Mas você não sabe administrar uma operação desse tamanho. Raymond sabia disso. Você vai precisar de mim.”

Olhei para a cerca.

Depois para o celeiro.

Depois para a mão dele ainda perto do papel.

“Raymond também pensou nisso.”

Donna fechou a carta e abriu a pasta azul.

De dentro, tirou outro documento.

Esse tinha várias páginas.

Anotações.

Nomes.

Datas.

Processos de manutenção.

Contratos de arrendamento.

Lista de fornecedores.

Orientações sobre a estrada de acesso, o pasto do sul, a conta da água e o calendário de reparo das cercas.

Raymond tinha deixado tudo.

Não para Kyle.

Para mim.

Donna explicou que Raymond havia contratado, ainda em vida, a continuidade temporária de dois trabalhadores locais para os primeiros meses.

Explicou que o arrendamento do pasto cobriria parte das despesas.

Explicou que eu não precisava vender, não precisava entregar a casa, não precisava assinar nada naquele dia.

Cada frase dela tirava mais um tijolo da certeza de Kyle.

Melissa ficou olhando para o celular apagado.

A tela escura refletia o rosto dela sem filtro.

“Você não contou isso”, ela disse para Kyle.

Ele virou para ela.

“Eu não sabia.”

“Mas você falou com a imobiliária.”

“Eu achei que dava para resolver.”

A palavra resolver quase me fez rir.

Eles não tinham vindo me visitar.

Tinham vindo me resolver.

Donna recolocou os papéis na mesa.

“Kyle”, ela disse, “se houver interesse em discutir uma venda futura, isso deve partir de Walter. Qualquer pressão registrada hoje pode ser documentada.”

Dennis Hale levantou as duas mãos de leve.

“Eu não vim pressionar ninguém. Fui informado de que havia consenso familiar.”

“Não havia”, eu disse.

Ele assentiu rápido demais.

“Então vou me retirar.”

Kyle olhou para ele como se tivesse sido traído.

Mas Dennis já estava descendo os degraus.

A pasta de couro balançava contra a perna dele.

O SUV branco parecia menos imponente quando ele entrou nele.

O motor ligou.

A poeira subiu.

E, em poucos segundos, o homem que tinha vindo calcular o valor da terra desapareceu pela estrada.

Restaram nós quatro.

Eu.

Kyle.

Melissa.

Donna, com a pasta azul fechada contra o peito.

O vento parecia mais frio agora, mas eu já não sentia do mesmo jeito.

Kyle esfregou o rosto com as duas mãos.

Quando falou de novo, sua voz tinha perdido a camada de executivo.

“Pai, eu errei. Está bem? Eu devia ter ligado.”

Seis anos inteiros cabem dentro de uma frase pequena quando alguém quer sair dela depressa.

“Devia”, respondi.

Ele engoliu seco.

“Eu estava tentando fazer o melhor para todos.”

“Não”, eu disse. “Você estava tentando chegar cedo ao bastante para parecer necessário.”

Melissa fechou os olhos.

A frase acertou os dois, mas era para ele.

Kyle olhou para a casa principal.

Por um instante, eu vi nele o menino que corria para dentro depois da escola, com os joelhos sujos e a mochila torta.

Eu procurei aquele menino durante anos.

Às vezes, pais passam décadas procurando uma versão do filho que talvez só exista porque amaram demais.

Mas o homem diante de mim não era um menino perdido.

Era um adulto que fez escolhas.

“Você vai nos mandar embora?” ele perguntou.

A pergunta saiu baixa.

Não humilde.

Assustada.

Eu olhei para Donna.

Ela não interferiu.

Raymond tinha me deixado papéis.

Mas aquela parte era minha.

“Hoje, sim”, eu disse.

Kyle recuou como se eu tivesse levantado a mão contra ele.

Melissa levou os dedos à boca.

“Walter…”

“Hoje vocês vão embora”, repeti. “Não porque eu quero machucar vocês. Porque vocês chegaram aqui já decididos a me diminuir. E eu passei tempo demais aceitando pouco espaço em casas onde meu nome não estava em porta nenhuma.”

Minha voz tremeu no fim.

Eu deixei tremer.

Dignidade não é nunca quebrar.

É não entregar os pedaços para quem quebrou.

Kyle ficou parado mais alguns segundos.

Depois pegou a própria chave.

Melissa já estava descendo os degraus quando ele se virou uma última vez.

“E se eu ligar?” perguntou.

A pergunta era simples.

A resposta, não.

Eu pensei em seis aniversários.

Seis Natais.

Seis anos de silêncio tão limpo que quase parecia normal.

“Então eu vou atender”, eu disse. “Mas não hoje como se nada tivesse acontecido.”

Ele assentiu, sem olhar diretamente para mim.

Entrou no carro.

Melissa entrou no SUV.

Os dois veículos desceram a estrada de cascalho, menores a cada segundo, até o vento levar a poeira de volta ao chão.

Donna ficou ao meu lado na varanda.

Por um tempo, nenhum de nós falou.

Então ela colocou a mão sobre a pasta azul.

“Raymond queria que você soubesse de uma coisa”, ela disse.

“Mais alguma cláusula?”

“Não. Só uma frase.”

Ela me entregou a última página da carta.

A letra dele estava ali, quadrada e firme.

Walter, você passou a vida achando que precisava ser útil para merecer um teto. Esta casa é sua antes de qualquer favor. More nela como homem, não como hóspede.

Li uma vez.

Depois li de novo.

O café na mesa já estava frio.

O vento ainda descia das montanhas.

O celeiro vermelho ainda ficava depois da entrada de cascalho.

O gado ainda se movia devagar perto da cerca.

Nada parecia diferente.

Mas tudo tinha mudado.

Naquela tarde, entrei na casa principal sem pedir licença ao meu próprio medo.

Coloquei a carta de Raymond sobre a mesa da cozinha.

Lavei a xícara.

Abri a janela.

E, pela primeira vez em seis anos, o silêncio ao meu redor não parecia abandono.

Parecia espaço.

Meses depois, Kyle ligou.

Eu atendi.

Não houve reconciliação bonita, dessas que cabem numa frase fácil.

Houve pausas longas.

Houve vergonha.

Houve um homem adulto tentando aprender a falar com o pai sem pedir nada em troca.

Eu não sei se todo filho volta de verdade.

Também não sei se todo pai deve abrir a porta do mesmo jeito.

Só sei que Raymond me deixou mais do que um rancho em Montana.

Ele me deixou uma linha no chão.

E, quando meu filho apareceu na varanda para me empurrar para a casa do capataz, eu finalmente entendi que família não é quem aparece quando a terra muda de nome.

Família é quem aparece quando o homem está sem chão.

Foi por isso que a varanda inteira ficou em silêncio.

Não por causa da escritura.

Mas porque, pela primeira vez, todos ali perceberam que eu não estava mais pedindo um canto.

Eu estava em casa.

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