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No Jantar Em Que Foi Humilhada, Uma Escritura Mudou Tudo-naomi

Meu nome é Elisa Nogueira, tenho quarenta e seis anos, e durante muito tempo acreditei que a pior coisa que Otávio Barreto poderia fazer comigo era esquecer tudo o que eu havia feito por ele.

Eu estava errada.

Esquecer teria sido menos doloroso do que aquilo que aconteceu naquela noite, diante de um salão cheio de pessoas que o admiravam, quando ele decidiu transformar oito anos da minha vida em motivo de piada.

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Conheci Otávio numa sala abafada de uma penitenciária federal, quando eu participava de um projeto voluntário de leitura para detentos.

Naquele tempo, ele não era o empresário fotografado em eventos, nem o homem de terno impecável que anos depois apareceria em entrevistas falando sobre recomeço.

Era um preso que recebia livros do outro lado de uma mesa.

Eu trabalhava em biblioteca e estava acostumada a observar as pessoas pela maneira como tratavam os livros.

Otávio nunca pedia romances ou histórias para passar o tempo.

Queria administração, contabilidade, direito empresarial e mercado imobiliário.

Anotava tudo.

Fazia perguntas.

Preenchia margens com números e observações e dizia que tinha perdido tudo porque confiara nas pessoas erradas.

No começo, nossa relação era simples.

Eu entregava os livros, corrigia alguns exercícios que ele preparava e procurava o próximo material que pudesse ajudá-lo.

Com o passar dos meses, porém, Otávio começou a prestar atenção em detalhes da minha vida.

Perguntava pela saúde da minha mãe, lembrava quando eu comentava que estava gripada e sabia que eu precisava pegar dois ônibus para chegar ao trabalho.

Não parecia curiosidade vazia.

Parecia gratidão.

Um dia, ele me entregou uma folha escrita à mão.

Eu ainda me lembro da frase.

“Quando a senhora fala comigo como se eu ainda fosse gente, eu lembro que talvez eu possa voltar a ser.”

Guardei aquelas palavras durante anos.

Talvez porque eu acreditasse nelas mais do que deveria.

A família de Otávio praticamente desapareceu da vida dele.

A ex-mulher enviou os documentos do divórcio por intermédio de um advogado.

Os irmãos não atendiam.

Os antigos sócios agiam como se o nome dele tivesse sido apagado da história que haviam construído juntos.

Eu não ocupava nenhum daqueles lugares.

Não era esposa, irmã, sócia ou parente.

Ainda assim, fui ficando.

Durante oito anos, levei livros, remédio para a gastrite, óculos quando os dele quebraram, dinheiro para a cantina e ajuda para despesas relacionadas ao processo.

Não fiz tudo de uma vez.

Foi acontecendo aos poucos, como acontecem as decisões que parecem pequenas quando vistas separadamente.

Uma quantia naquele mês.

Um remédio no outro.

Uma passagem que eu deixava de comprar para mim porque ele dizia precisar de alguma coisa.

Eu nunca contabilizei aquelas escolhas como investimento.

Na minha cabeça, estava ajudando uma pessoa que ninguém mais parecia disposto a enxergar.

Havia apenas outro visitante frequente além de mim.

Doutor Américo Duarte era um advogado já idoso, quase sempre acompanhado de uma pasta marrom.

Ele falava pouco e me tratava com um respeito que, naquele ambiente, eu não esquecia.

Nunca tentou explicar todos os negócios de Otávio para mim, nem me fez promessas.

Mas observava.

E sabia que eu estava ali.

No sexto ano da prisão, Otávio me contou que havia uma possibilidade real de reduzir a pena.

Disse que precisava pagar especialistas, custas e pareceres.

Na época, minha mãe já tinha morrido e havia deixado para mim uma casa simples de dois quartos.

Era pequena, sem luxo, mas era minha única segurança.

Eu poderia ter envelhecido ali.

Poderia ter alugado um dos quartos.

Poderia ter guardado aquele imóvel como a última coisa concreta que restara da minha mãe.

Em vez disso, vendi a casa.

Entreguei o dinheiro porque acreditava que aquela oportunidade poderia mudar o futuro de Otávio.

O recurso não deu em nada.

Quando voltei à penitenciária depois da notícia, imaginei que ele estaria destruído.

Otávio ficou alguns segundos olhando para mim antes de segurar minha mão sobre a mesa.

— Elisa, no dia em que eu sair daqui, você nunca mais vai precisar pedir nada a ninguém.

Não pedi que ele prometesse aquilo.

Também não perguntei o que exatamente queria dizer.

Talvez esse tenha sido um dos meus maiores erros.

No dia em que finalmente recuperou a liberdade, fui esperá-lo no portão.

Comprei num bazar um vestido azul-marinho que parecia adequado para uma ocasião importante e preparei uma pequena marmita com bolo de fubá.

Não esperava joias.

Não esperava dinheiro.

Nem imaginava que ele sairia de lá e resolveria minha vida de uma hora para outra.

Eu só queria estar presente naquele momento.

O portão abriu.

Otávio apareceu carregando uma sacola plástica.

Quando me viu, parou.

Por um instante, achei que ele atravessaria a distância entre nós.

Então um carro preto encostou.

Dois homens de terno desceram, e um deles abriu a porta traseira.

— Doutor Otávio, o pessoal já está esperando.

Ele olhou para mim.

Depois desviou os olhos.

Entrou no carro.

Foi embora sem dizer uma única palavra.

Voltei de ônibus com o bolo de fubá no colo.

Durante muito tempo, tentei encontrar uma justificativa para aquilo.

Talvez estivesse nervoso.

Talvez precisasse resolver alguma urgência.

Talvez tivesse vergonha de ser visto saindo da prisão.

Talvez entrasse em contato comigo no dia seguinte.

O dia seguinte passou.

Depois vieram outros.

E eu precisei aceitar o que seus gestos diziam com muito mais clareza do que qualquer explicação teria dito.

Otávio estava reconstruindo a vida dele sem mim.

Cinco anos se passaram.

Nesse período, o nome de Otávio Barreto começou a aparecer em lugares onde jamais imaginei vê-lo.

Ele fundou uma incorporadora, comprou hotéis antigos, reformou prédios e passou a ser entrevistado como exemplo de recomeço.

Falava sobre disciplina.

Falava sobre segunda chance.

Falava sobre a importância de não permitir que o passado definisse uma pessoa para sempre.

Eu assisti a algumas daquelas entrevistas.

Depois parei.

Continuei trabalhando na biblioteca, ganhando pouco e morando num quarto nos fundos da casa de uma professora aposentada.

A casa de dois quartos que minha mãe havia me deixado já não existia na minha vida.

O dinheiro que eu tinha colocado na tentativa de reduzir a pena de Otávio também não voltara.

Mas durante muito tempo tentei não transformar isso em amargura.

Eu havia tomado aquelas decisões.

Ele não me obrigara a vender a casa.

O que eu não conseguia justificar era a promessa.

“Você nunca mais vai precisar pedir nada a ninguém.”

Foi então que chegou o envelope.

Era creme, com meu nome escrito em letras douradas.

Dentro havia um convite para um jantar fechado na mansão de Otávio, na capital paulista.

Segundo o texto, ele faria uma homenagem pública às pessoas que haviam permanecido ao lado dele durante os anos mais difíceis.

Li o convite diversas vezes.

Parte de mim achou que deveria jogá-lo fora.

Outra parte, muito mais antiga, ainda lembrava o homem sentado diante de mim naquela penitenciária, agradecendo porque eu o tratava como gente.

Fui por causa dessa parte.

Não queria reconhecimento público.

Não precisava que me entregassem um prêmio.

Queria apenas escutar uma frase.

Eu não esqueci de você.

Na entrada da mansão, a recepcionista examinou meu vestido simples por tempo suficiente para eu perceber.

Depois informou que minha mesa ficava ao lado do corredor de serviço.

Não discuti.

Sentei onde haviam determinado e observei a chegada de pessoas que pareciam conhecer aquela vida muito melhor do que eu.

Quando Otávio entrou, todos aplaudiram.

Ele parecia perfeitamente confortável naquele ambiente.

Subiu ao palco e começou a falar sobre superação, disciplina e gratidão.

Disse que ninguém vence sozinho.

Por alguns minutos, acreditei que finalmente entenderia por que tinha recebido o convite.

Então ele olhou diretamente para mim.

— Hoje quero apresentar uma pessoa curiosa. Uma mulher que esteve presente no meu período mais difícil.

Meu coração acelerou.

Levantei-me.

Otávio continuou.

— Elisa Nogueira. A bibliotecária que confundiu caridade com intimidade.

As primeiras risadas surgiram ao redor das mesas.

Fiquei parada porque ainda não conseguia compreender o que ele estava fazendo.

Ele explicou ao salão que eu havia levado livros, café e “remedinhos”.

Falou a palavra de um jeito que diminuía tudo aquilo, como se oito anos pudessem ser resumidos a pequenos favores de uma mulher inconveniente.

Depois afirmou que, pelo visto, eu imaginava que essas coisas compravam um lugar na família dele, uma cadeira à mesa ou talvez até um sobrenome.

As risadas aumentaram.

Eu poderia ter respondido.

Poderia ter contado sobre os óculos.

Sobre o dinheiro da cantina.

Sobre as despesas do processo.

Poderia ter perguntado diante de todos quanto valia a casa de dois quartos que eu tinha vendido para tentar ajudá-lo.

Mas compreendi que aquela noite havia sido preparada para outra finalidade.

Otávio não tinha me convidado para agradecer.

Tinha me convidado para estabelecer publicamente a versão dele sobre nós dois.

Então ergueu a taça.

— Às pessoas simples, que nos ajudam a lembrar de onde nunca mais queremos voltar.

O salão riu novamente.

Eu não chorei.

Segurei minha bolsa com força e tentei controlar a respiração.

Naquele instante, finalmente entendi que o homem que saíra da penitenciária e entrara no carro preto não tinha simplesmente se esquecido de mim.

Ele havia feito uma escolha.

E aquela noite era a confirmação pública dessa escolha.

Eu estava pronta para ir embora quando a porta principal se abriu.

Doutor Américo Duarte entrou apoiado numa bengala.

Reconheci primeiro o rosto, depois a pasta marrom que tantas vezes havia visto durante os anos de prisão de Otávio.

Ao lado dele vinha um homem de terno cinza.

Atrás, uma mulher com crachá de cartório carregava uma caixa de documentos.

O comportamento de Otávio mudou imediatamente.

— Américo, esta é uma festa privada.

O advogado não levantou a voz.

— Eu sei. Fui convidado pela única pessoa que tinha direito de me chamar aqui.

O homem de terno cinza se apresentou como tabelião substituto.

Em seguida, anunciou que faria a leitura pública de uma escritura registrada havia cinco anos e três meses, contendo uma cláusula de revelação condicionada.

Eu não sabia do que ele estava falando.

Otávio sabia.

Ele tentou interromper.

— Isso é absurdo. Eu mandei cancelar esse documento.

Américo respondeu antes que qualquer outra pessoa pudesse falar.

— Tentou. Três vezes. Mas não podia cancelar sozinho.

Foi naquele momento que percebi que a noite havia mudado de direção.

Até poucos minutos antes, eu era a mulher sentada perto do corredor de serviço, convocada para servir de piada numa celebração construída em torno do sucesso de Otávio.

Agora ele era o único naquela sala que parecia desesperado para impedir a leitura de um documento.

O tabelião abriu a escritura.

As primeiras linhas não fizeram sentido para mim de imediato.

Havia referências à constituição inicial de negócios, recuperação societária, aquisição de participações e retomada de ativos relacionados ao grupo Barreto.

Eu nunca havia participado de reunião empresarial alguma.

Nunca havia administrado hotel.

Nunca havia comprado participação em empresa.

Minha vida continuara sendo biblioteca, ônibus e contas pequenas calculadas até o fim do mês.

Então ouvi meu próprio nome.

O texto reconhecia formalmente que os valores utilizados na constituição inicial, na recuperação societária, na aquisição de participações e na retomada de ativos ligados ao grupo Barreto haviam sido fornecidos por mim.

Por Elisa Nogueira.

Minha primeira reação foi achar que havia algum erro.

Eu nunca tinha entregado dinheiro para comprar hotéis ou prédios.

Eu havia ajudado Otávio quando ele estava preso.

Tinha pagado pequenas despesas durante anos.

E, acima de tudo, tinha vendido a única casa que possuía quando ele afirmou precisar de recursos para aquela tentativa de reduzir a pena.

Olhei para Américo.

Ele não parecia surpreso.

Olhei para Otávio.

Ele já não estava preocupado comigo.

Estava olhando para a escritura.

Foi então que entendi que o documento não estava descrevendo um gesto de caridade ocorrido naquela noite.

Estava ligando o dinheiro que eu havia colocado nas mãos de Otávio, durante o período em que todos os outros tinham desaparecido, ao início da reconstrução patrimonial que depois seria apresentada ao público como obra exclusiva dele.

E o tabelião ainda não havia terminado.

Ele continuou a leitura.

A cláusula seguinte tratava da holding criada para administrar aqueles bens.

Eu sabia pouco sobre holdings.

Otávio sabia muito.

Durante oito anos, eu mesma tinha levado para ele livros de administração, contabilidade, direito empresarial e mercado imobiliário.

Livros que ele estudava página por página enquanto me dizia que, se tivesse outra oportunidade, faria tudo de maneira diferente.

O tabelião chegou ao trecho que aparentemente Otávio tentara cancelar três vezes.

Minha mão, ainda apertada ao redor da bolsa, começou a relaxar.

Cinquenta e um por cento das quotas da holding criada para administrar aqueles bens pertenciam, de forma irrevogável, a Elisa Nogueira.

A mim.

Durante alguns segundos, não consegui relacionar aquela porcentagem à minha própria vida.

Cinquenta e um por cento não era uma lembrança simbólica.

Não era uma homenagem tardia.

Não era uma fotografia colocada numa parede para agradecer à mulher que havia levado livros a um preso.

Era controle.

Era propriedade.

E, pelo modo como Otávio havia tentado impedir aquela leitura, era algo que ele conhecia havia muito tempo.

Voltei a olhar para o homem que poucos minutos antes levantara uma taça para me chamar de mulher simples diante de seus convidados.

Pela primeira vez naquela noite, não precisei imaginar se ele se lembrava de mim.

Otávio nunca tinha esquecido.

A verdadeira pergunta era outra.

Por que ele passara cinco anos tentando esconder de mim aquilo que, segundo a própria escritura, já era meu?

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