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Minha Família Quis Tomar Minha Herança Antes de Eu Sair do Luto-milee

Cabelos prateados, óculos de armação fina, suéter cinza sob um blazer azul-marinho. O Dr. Raymond Voss tinha exatamente o tipo de rosto que parecia feito para ganhar a confiança de alguém assustado.

— Fay, sinto muito pela sua perda — disse ele.

Minha mãe se sentou perto demais de mim enquanto Voss abria uma pasta de couro.

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— Seus pais estão preocupados com você.

As primeiras perguntas pareciam inofensivas. Eu estava dormindo? Comendo? Sentia dormência emocional?

Depois ficaram mais específicas.

Eu tinha dificuldade para tomar decisões? Às vezes me sentia desconectada da realidade? Nathan cuidava da maior parte das nossas finanças? Eu me considerava capaz de compreender assuntos financeiros complexos naquele momento?

Patricia torcia as mãos.

— Ela não tem sido ela mesma desde que Nathan morreu — sussurrou.

Olhei diretamente para Voss.

— Enterrei meu marido há três dias. Luto não é incapacidade.

A caneta dele parou.

Pela primeira vez, aquele sorriso tranquilizador vacilou.

Vinte minutos depois, pedi licença e fui até a varanda dos fundos. Assim que fechei a porta de vidro, liguei para James Whitfield, advogado de Nathan.

Eu já tinha tentado falar com ele duas vezes.

Dessa vez, atendeu no segundo toque.

— Fay?

— James, meus pais trouxeram um médico. Acho que estão tentando me declarar incapaz.

Houve uma pausa.

Então a voz dele mudou completamente.

— Raymond Voss está aí?

Meu coração acelerou.

— Você conhece ele?

— Ainda não saia dessa casa.

Pela porta de vidro, vi minha mãe me observando.

— Por quê?

— Nathan se preparou para essa possibilidade.

O frio pareceu atravessar meu casaco.

— O que isso significa?

— Venha ao meu escritório amanhã cedo. Traga tudo o que você gravou, assinou ou que tentaram fazer você assinar.

— James, o que Nathan deixou preparado?

Ele demorou um instante antes de responder.

— Proteção.

Voltei para a sala com o celular no bolso e encontrei Voss segurando uma folha sobre a mesa de centro.

Patricia estava de pé ao lado dele.

— Só precisamos da sua assinatura aqui — minha mãe disse. — É para o doutor poder ajudar você direito.

Não toquei no papel.

— O que é?

Voss respondeu antes dela.

Era uma autorização para que ele obtivesse determinadas informações médicas e conversasse com terceiros sobre meu estado.

Ele explicou que aquilo não significava que eu estava abrindo mão de nenhum direito, mas eu só conseguia ouvir a frase de James repetindo dentro da cabeça: traga tudo o que tentaram fazer você assinar.

— Vou levar uma cópia — falei.

Patricia endureceu os ombros.

— Fay, por favor. Não transforme isso em uma guerra.

Quase ri.

Ela havia passado a noite planejando tomar minha autonomia, meu dinheiro e os imóveis deixados pelo meu marido, mas a guerra começaria se eu lesse um documento antes de assiná-lo.

— Eu não vou assinar nada hoje.

Voss baixou a folha lentamente.

— Essa é uma decisão sua.

Minha mãe virou o rosto para ele.

— Raymond, você não entende. Ela fica assim quando está sobrecarregada.

Ele olhou para Patricia por alguns segundos.

— Ela acabou de tomar uma decisão clara sobre um documento que não quer assinar.

A frase foi pequena, mas mudou alguma coisa na sala.

Minha mãe percebeu também.

— Você não viu como ela estava ontem.

— Eu não estava aqui ontem — ele respondeu.

Gerald apareceu no corredor e perguntou se tudo estava bem.

Patricia disse que sim depressa demais.

Peguei a folha da mesa, dobrei uma vez e coloquei na bolsa.

— Vou descansar um pouco.

Na verdade, voltei para o quarto e arrumei minha mala.

Eu tinha entrado naquela casa pensando que precisava sobreviver a uma noite sem deixar meus pais perceberem que eu sabia do plano.

Agora entendia que cada hora ali dava a eles mais oportunidades de me cercar com documentos, argumentos e testemunhas escolhidas por eles.

Às quatro da tarde, desci com a mala.

Minha mãe estava na cozinha cortando maçãs.

— Aonde você pensa que vai?

Era uma pergunta que eu conhecia desde os quinze anos.

Não significava aonde você vai.

Significava quem lhe deu permissão.

— Para casa.

— Fay, você não está em condições de ficar sozinha.

— Quem decidiu isso?

Ela pousou a faca.

— Eu sou sua mãe.

— Isso não responde à pergunta.

Gerald entrou na cozinha e encostou na bancada.

— Ninguém está tentando controlar você.

Meu celular parecia pesar no bolso.

Sete minutos de áudio diziam o contrário.

Mesmo assim, não revelei que tinha gravado a conversa.

Ainda não.

Eu precisava entender o que Nathan havia preparado antes de mostrar a única coisa que provava, com a voz deles, por que aquela preparação tinha sido necessária.

Patricia tentou bloquear meu caminho com palavras, não com o corpo.

Disse que eu estava sensível, que Nathan sempre me colocara contra a família, que voltar para Manhattan naquele estado seria uma irresponsabilidade e que Chloe estava disposta a reorganizar a própria agenda para ficar comigo.

A menção a Chloe quase me fez parar.

— Ela vai cancelar a prova de roupa?

Minha mãe ficou pálida de irritação.

— Isso é infantil.

— Não. Infantil foi achar que eu não perceberia.

Gerald pediu que eu baixasse o tom.

Eu não tinha aumentado.

Peguei as chaves do carro.

— Amanhã eu ligo.

Patricia deu um passo na minha direção.

— Fay, se você sair agora, só vai provar que não está pensando racionalmente.

Parei com a mão na maçaneta.

A ameaça finalmente tinha saído de dentro da cozinha e entrado na conversa comigo.

Virei apenas o suficiente para olhar para ela.

— Então é isso que vocês vão dizer?

Por um segundo, Patricia não encontrou resposta.

Gerald encontrou.

— Sua mãe está preocupada.

— Eu perguntei o que vocês vão dizer.

Ninguém respondeu.

Saí.

Na manhã seguinte, cheguei ao escritório de James quinze minutos antes do horário marcado.

Eu não tinha dormido mais de duas horas.

O testamento de Nathan estava na minha bolsa, a autorização de Voss num envelope separado e o áudio salvo no celular.

James me recebeu pessoalmente.

Ele era um homem de fala econômica, com a mesma gravata escura que usara no funeral, e não desperdiçou tempo tentando me consolar com frases prontas.

— Primeiro — disse ele — você não assinou nada?

— Nada.

— Ótimo.

Entreguei a autorização.

Ele leu em silêncio.

Depois coloquei o celular sobre a mesa.

— Tenho sete minutos da conversa deles antes de eu entrar na casa.

James não estendeu a mão imediatamente.

— Eles sabiam que você estava ouvindo?

— Não.

— E você estava do lado de fora?

— Na varanda.

Ele assentiu devagar, mais preocupado em entender exatamente como a gravação tinha sido feita do que em comemorar sua existência.

— Vamos preservar o arquivo original e não editar nada.

Então ouviu.

Eu observei o rosto dele enquanto as vozes da minha mãe, do meu pai e de Chloe enchiam o escritório.

Patricia dizendo que eu assinaria qualquer coisa.

Gerald perguntando pelo patrimônio.

Chloe querendo o loft de SoHo.

Voss sendo tratado como uma etapa já prevista do plano.

Quando o áudio terminou, James permaneceu alguns segundos olhando para o celular.

— Nathan estava certo — disse.

Minha garganta apertou.

— Sobre o quê?

James abriu uma gaveta e retirou uma cópia dos documentos patrimoniais que eu havia visto depois do funeral.

Dessa vez, não empurrou o testamento para mim.

Apontou para outra parte da estrutura que Nathan tinha organizado ao redor dos imóveis e das contas.

Explicou com cuidado que meu marido não tinha criado uma armadilha milagrosa nem um documento capaz de impedir alguém de fazer uma acusação contra mim.

Ele tinha feito algo mais simples.

E mais inteligente.

Nathan havia estabelecido salvaguardas para que uma alegação repentina de incapacidade não entregasse automaticamente o controle dos bens a um parente que aparecesse com uma avaliação particular.

Qualquer mudança importante dependeria de um processo independente, com análise própria e oportunidade para eu me manifestar.

Enquanto isso, ninguém da minha família receberia acesso automático às contas ou aos imóveis apenas porque alegasse estar agindo por mim.

— Isso impede meus pais de tentarem? — perguntei.

— Não.

James me encarou.

— Impede que tentar seja a mesma coisa que conseguir.

Foi a primeira vez desde a morte de Nathan que senti algo parecido com espaço para respirar.

Mas havia mais.

James abriu um e-mail impresso.

O nome de Raymond Voss aparecia nele.

A mensagem tinha quase um ano.

Era de Patricia para Nathan.

Minha mãe dizia que eu sempre fora emocional demais e sugeria que, se algum dia meu comportamento se tornasse preocupante, Voss seria o médico em quem ela confiaria para avaliar minha capacidade de tomar decisões.

Nathan respondera apenas que minha saúde não seria discutida sem minha participação.

Depois encaminhara a troca para James.

— Foi por isso que você reconheceu o nome dele — falei.

— Sim.

— Nathan achava que minha mãe faria isso antes de ele morrer?

James escolheu as palavras com cuidado.

— Ele achava que sua família tinha dificuldade em distinguir preocupação de controle.

Olhei para o e-mail.

Eu queria ficar com raiva de Nathan por não ter me contado.

Por alguns segundos, fiquei.

Ele havia visto uma ameaça se formando ao redor de mim e decidira preparar documentos em vez de me obrigar a encará-la.

Então me lembrei de quantas vezes eu havia defendido Patricia.

Ela só quer ajudar.

Chloe é assim mesmo.

Meu pai não sabe demonstrar afeto.

Nathan provavelmente sabia que, se me mostrasse aquele e-mail enquanto estava vivo, eu encontraria uma explicação para minha mãe.

Agora eu tinha ouvido a explicação dela com os próprios ouvidos.

— O que acontece agora?

James fechou a pasta.

— Isso depende de você.

Não era a resposta que eu esperava.

Ele podia contestar qualquer pedido que chegasse, preservar os documentos e apresentar o áudio se fosse necessário.

Mas eu precisava decidir se voltaria para a casa dos meus pais, se permitiria outra avaliação com Voss e se continuaria deixando minha família falar em meu nome enquanto eu permanecia em silêncio.

Pensei em Nathan comendo pad thai no chão do loft de SoHo.

Pensei em Chloe dizendo que queria aquele apartamento.

— Vou para SoHo — falei.

James ergueu os olhos.

— Tem certeza?

— Foi minha casa com Nathan. Não é uma peça do patrimônio da Chloe.

Naquela tarde, entrei no loft pela primeira vez desde a morte dele.

O silêncio do lugar não parecia vazio.

Parecia interrompido.

A caneca de Nathan ainda estava perto da pia.

Um casaco permanecia pendurado atrás da porta.

Durante alguns minutos, eu só consegui ficar no meio da sala olhando para as coisas que ele tinha tocado sem saber que estava tocando nelas pela última vez.

Então meu celular começou a vibrar.

Patricia.

Gerald.

Patricia outra vez.

Depois Chloe.

Não atendi.

Uma mensagem apareceu no grupo da família.

Minha mãe escreveu que todos estavam preocupados porque eu tinha saído abruptamente e me recusava a receber ajuda.

Meu pai acrescentou que minhas decisões recentes não pareciam normais.

Chloe perguntou se eu estava sozinha.

Li a conversa duas vezes.

Eles estavam construindo uma narrativa na minha frente.

Eu quase respondi com o áudio.

Quase mandei os sete minutos no grupo e assisti à história deles desabar na mesma tela em que estavam tentando montá-la.

Mas não fiz isso.

Nathan tinha criado tempo para mim.

Eu não queria desperdiçá-lo buscando a satisfação de uma explosão imediata.

Escrevi apenas:

— Estou segura. Estou lúcida. Não autorizo ninguém a tomar decisões financeiras ou médicas em meu nome. Qualquer documento deve ser enviado ao meu advogado.

Patricia respondeu em menos de um minuto.

— Está vendo? É exatamente esse tipo de hostilidade que nos preocupa.

Não respondi.

Na manhã seguinte, James ligou.

Minha família havia avançado com um pedido emergencial para obter autoridade sobre determinadas decisões, alegando que meu luto intenso me tornava temporariamente incapaz de administrar uma herança complexa.

O pedido não lhes dava o que queriam automaticamente.

Mas significava que a ameaça já não era apenas uma conversa na cozinha.

— Eles citaram Voss? — perguntei.

— Sim.

Meu estômago se contraiu.

James continuou.

— Mas há um problema para eles.

— Qual?

— O próprio Voss.

Naquela mesma manhã, Voss tinha entrado em contato para esclarecer que não havia concluído uma avaliação formal de incapacidade e que não poderia afirmar, com base naquela visita, que eu era incapaz de tomar decisões.

Minha mãe havia apresentado sua presença como se ele já tivesse chegado a uma conclusão que ele nunca dera.

A notícia deveria ter me aliviado.

Em vez disso, senti uma raiva limpa e dolorosa.

Patricia não precisava que Voss acreditasse que eu era incapaz.

Precisava apenas que sua presença parecesse prova suficiente durante tempo bastante para me empurrar a assinar alguma coisa.

Esse entendimento mudou tudo.

Até então, eu ainda pensava que talvez minha mãe tivesse convencido a si mesma de que estava me protegendo enquanto cobiçava o patrimônio de Nathan.

Agora eu percebia que a ordem era inversa.

A proteção era a história que ela contaria.

O controle vinha primeiro.

Nos dias seguintes, fiz algo que minha família provavelmente nunca esperou de mim.

Organizei minha própria vida.

Sentei com James e aprendi, linha por linha, o que Nathan possuía, o que ainda precisava passar pelo processo sucessório e quais responsabilidades acompanhavam cada imóvel.

Pedi cópias de tudo.

Anotei perguntas.

Repeti termos que não entendia até entender.

Não fingi conhecimento que não tinha.

Também não permiti que ninguém confundisse falta de experiência com incapacidade.

No museu, eu havia passado anos catalogando peças, analisando procedência, acompanhando seguros, cronogramas e empréstimos entre instituições.

Eu não era uma especialista em patrimônio imobiliário.

Mas sabia ler, comparar, perguntar e decidir.

Nathan sabia disso.

Minha família também sabia.

Só era inconveniente admitir.

Quatro dias depois, recebi uma ligação de Chloe.

Atendi.

Ela começou chorando.

Disse que tudo tinha saído do controle, que Patricia estava desesperada, que ninguém queria me machucar e que a conversa que eu tinha ouvido — embora ela ainda não soubesse que eu a gravara — não deveria ser interpretada da pior maneira.

— Qual conversa, Chloe?

Silêncio.

Ela percebeu tarde demais.

— A mamãe disse que talvez você tivesse escutado alguma coisa pela janela.

— O que exatamente eu poderia ter escutado?

— Fay, não faz isso comigo.

— Você pediu o loft de SoHo.

Ela respirou fundo.

— Eu estava brincando.

— No meio de uma conversa sobre me declarar incapaz?

— Eu não sabia que era sério.

Aquilo doeu mais do que se ela tivesse gritado comigo.

Porque eu reconheci a técnica.

Quando a crueldade funcionava, era uma decisão.

Quando era descoberta, virava brincadeira.

— Você sabia que Nathan tinha morrido havia três dias.

Chloe começou a dizer que eu sempre tinha sido dramática.

Parei de ouvir na metade da frase.

— Você faltou ao funeral dele por causa de uma prova de roupa.

— Não foi só isso.

— Então me diga o que foi.

Ela não conseguiu.

Pela primeira vez na nossa vida, eu não preenchi o silêncio por ela.

Antes de desligar, Chloe fez uma última tentativa.

— Mamãe só quer ter certeza de que você não destrua tudo o que Nathan construiu.

Olhei ao redor do loft.

— Engraçado. Na gravação, ela parece muito mais preocupada em administrar tudo o que ele construiu.

Chloe parou de respirar por um instante.

— Que gravação?

Desliguei.

Menos de dez minutos depois, Patricia ligou onze vezes.

Na décima segunda, deixei tocar.

Não precisava mais esconder o que eu sabia.

O áudio já estava preservado com James, e o momento de usá-lo não dependeria de uma discussão familiar.

Dependeria de onde ele realmente mudasse alguma coisa.

A oportunidade veio na análise inicial do pedido emergencial.

Não houve o espetáculo que minha mãe provavelmente imaginara.

Nenhuma multidão.

Nenhum discurso triunfante.

A questão era estreita: existia base suficiente para entregar imediatamente a terceiros o controle que minha família dizia que eu não podia exercer?

Patricia apresentou preocupação.

Gerald apresentou urgência.

Eles falaram sobre meu luto, sobre a morte repentina de Nathan e sobre a dimensão inesperada da herança.

Voss, porém, não confirmou o que eles precisavam.

Ele declarou apenas o que realmente tinha observado.

Eu estava enlutada.

Estava cansada.

Tinha demonstrado tristeza intensa.

Também havia compreendido as perguntas, recusado conscientemente um documento que não queria assinar e articulado de forma clara que luto não era sinônimo de incapacidade.

Minha mãe tentou transformar isso em mais uma prova contra mim.

Disse que eu tinha aprendido a parecer funcional porque Nathan me ensinara a desconfiar da família.

Foi então que James colocou a existência da gravação em questão.

Não houve necessidade de tocar todos os sete minutos.

O suficiente foi apresentado para mostrar o objetivo discutido antes de eu entrar na casa.

Patricia falando em fazer o pedido antes que eu entendesse o que tinha acontecido.

Gerald perguntando pelo patrimônio.

Chloe sendo indicada como a pessoa que assumiria controle sobre mim.

E, principalmente, a frase que minha mãe provavelmente havia esquecido no instante em que a pronunciou:

— Ela sempre faz o que mandamos.

Ouvir aquelas palavras outra vez foi diferente.

Na varanda, eu tinha me sentido reduzida a uma criança.

Ali, elas revelavam exatamente o contrário do que Patricia queria provar.

Ela não estava descrevendo uma filha incapaz de decidir.

Estava descrevendo uma filha que ela esperava continuar obedecendo.

Quando me deram oportunidade de falar, James começou a se levantar.

Toquei de leve no braço dele.

— Eu respondo.

Minha voz tremeu na primeira frase.

Não escondi.

Expliquei que estava devastada pela morte do meu marido.

Que dormia mal.

Que às vezes entrava num cômodo e esquecia por que tinha ido até lá porque, por uma fração de segundo, esperava encontrar Nathan.

Depois expliquei que tristeza não tinha apagado minha capacidade de compreender o que estava acontecendo.

Eu sabia quanto Nathan havia deixado.

Sabia que havia seis lofts.

Sabia que existiam obrigações, impostos, contratos e decisões que eu ainda precisava aprender a administrar.

E sabia, acima de tudo, que querer ajuda não era a mesma coisa que autorizar alguém a tomar minha vida.

Patricia chorou.

Eu quase parei quando vi.

Passei décadas interpretando as lágrimas da minha mãe como uma ordem para recuar.

Dessa vez, continuei.

— Eu aceito orientação. Aceito especialistas. Aceito dizer eu não sei. O que eu não aceito é que minha família use a morte do meu marido como prazo para assumir controle antes que eu consiga entender meus próprios documentos.

O pedido emergencial não foi concedido.

Isso não significava que todas as questões possíveis estavam encerradas para sempre.

Significava algo mais importante naquele momento.

Minha família não receberia o controle imediato que planejara obter enquanto eu ainda estava enterrando Nathan.

E, sem uma conclusão de Voss apoiando a narrativa deles, o restante do plano perdeu a força que Patricia esperava.

Do lado de fora, minha mãe tentou falar comigo.

— Fay, por favor.

Continuei andando.

— Você precisa entender que fizemos isso porque amamos você.

Parei.

Gerald estava alguns passos atrás dela.

Chloe não tinha comparecido.

Patricia enxugou o rosto e deu um passo na minha direção.

— Você não sabe como é assustador ver uma filha prestes a receber tanto dinheiro quando ela está emocionalmente destruída.

— Eu sei exatamente o que assustou você.

Ela fechou os olhos.

— Não diga isso.

— Oito milhões e meio de dólares e seis lofts.

Seu rosto se contraiu.

— Você acha que eu queria roubar você?

A antiga Fay teria respondido depressa.

Teria suavizado a palavra.

Teria dito que talvez não fosse isso, que tudo estava confuso, que poderíamos conversar depois.

Eu não fiz nada disso.

— Acho que você planejou me tirar o direito de decidir antes que eu pudesse entender o que Nathan deixou. E ouvi você dizer como faria.

— Eu sou sua mãe.

A frase saiu quebrada.

Dessa vez, não soou como autoridade.

Soou como alguém descobrindo que um título não era uma chave universal.

— Você é — respondi. — Mas não é minha dona.

Não houve reconciliação naquele dia.

Também não houve uma expulsão teatral da família da minha vida.

As coisas reais não terminaram de forma tão limpa.

Gerald me mandou duas mensagens nas semanas seguintes, ambas começando com a frase sua mãe está arrasada.

Chloe escreveu um pedido de desculpas enorme que conseguiu mencionar o loft de SoHo três vezes sem perceber o que estava fazendo.

Patricia alternou silêncio e tentativas de me convencer de que eu tinha interpretado o plano de maneira cruel demais.

Eu mantive uma única regra.

Nada de conversas sobre dinheiro, imóveis, saúde ou decisões pessoais sem registro claro do que estava sendo pedido.

E nenhum deles teria qualquer autoridade sobre minhas contas.

James continuou cuidando apenas do que precisava ser feito no processo do patrimônio de Nathan.

O restante eu comecei a aprender.

Alguns meses depois, vendi um dos seis lofts.

Não porque minha família quisesse.

Não porque eu tivesse sido enganada.

E não porque Nathan tivesse deixado uma instrução secreta dizendo o que fazer.

Vendi porque, depois de examinar custos, contratos e meus próprios planos, decidi que não queria administrar seis propriedades.

Mantive outras.

E mantive SoHo.

Quando Chloe descobriu, mandou apenas uma mensagem:

— Então você vai ficar com aquele?

Demorei alguns minutos antes de responder.

— Vou ficar na minha casa.

Ela não escreveu de volta.

Numa noite de inverno, quase quatro meses depois do funeral, pedi pad thai do mesmo restaurante que Nathan costumava escolher quando não queríamos cozinhar.

Os móveis estavam no lugar, o aquecimento funcionava perfeitamente e eu poderia ter comido à mesa.

Mesmo assim, levei a embalagem para o chão da sala.

Sentei no mesmo ponto onde tínhamos comido na primeira noite depois da compra.

Durante muito tempo, achei que a proteção que Nathan havia deixado para mim estava nos documentos preparados com James.

Eles foram importantes.

Deram tempo.

Impediram que o medo da minha família se transformasse imediatamente em controle.

Mas Nathan não podia me proteger para sempre com papéis.

A parte que ele havia deixado para mim era a possibilidade de finalmente fazer o que eu nunca aprendera a fazer naquela casa em Ridgewood.

Escolher sem pedir permissão.

Terminei de comer, recolhi a embalagem e passei pela mesa onde minha bolsa estava aberta.

O testamento ainda estava lá dentro.

Durante semanas, eu o carregara comigo como se aquelas folhas pudessem desaparecer se eu parasse de tocá-las.

Na primeira noite na casa dos meus pais, eu o escondera sob o colchão.

Na manhã da visita de Voss, mantive o celular contra o corpo como se minha vida dependesse de ninguém tirá-lo de mim.

Agora peguei o documento, caminhei até o armário onde guardava os papéis importantes e coloquei-o numa pasta comum.

Não parecia leve.

Nathan ainda estava morto.

Nenhum documento diminuía isso.

Mas já não parecia pesado demais para eu carregar.

Antes de apagar as luzes, parei no centro da sala e lembrei da primeira noite ali, quando eu havia dito que o loft precisava de móveis.

Nathan tinha olhado para aquele espaço vazio e respondido que precisava de mim.

Durante meses, achei que aquela frase falava sobre amor.

Naquela noite, entendi que também falava sobre presença.

Chloe tinha olhado para o loft e enxergado uma coisa que queria possuir.

Minha mãe tinha olhado para a herança e enxergado algo que precisava administrar.

Nathan tinha olhado para tudo aquilo e tentado garantir que, quando ele não estivesse mais ali, a pessoa no centro das decisões ainda fosse eu.

Fechei a porta do armário, deixei as chaves sobre a bancada e fui dormir em casa.

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