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Ela Vendeu a Casa da Mãe, Mas a Escritura Tinha Uma Condição-naomi

Chloe não havia vendido a minha casa.

Ela vendera apenas o direito de recebê-la depois da minha morte.

Foi isso que confirmei menos de vinte minutos depois, sentada diante da lápide de Robert, com a mala ao meu lado e o rosto ainda ardendo por causa do tapa da minha filha.

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Anos antes, quando Robert adoeceu, nós registramos uma escritura que reservava para mim o direito vitalício de morar, usar e decidir sobre aquela propriedade enquanto eu estivesse viva.

Chloe aparecia no documento como beneficiária futura, não como dona com direito de me expulsar.

Ela podia vender a expectativa de herdar a casa, caso encontrasse alguém imprudente o bastante para comprar algo que talvez só pudesse ocupar muitos anos depois.

Mas não podia trocar as fechaduras, retirar meus pertences nem entregar a posse a terceiros.

Passei os dedos pelo nome de Robert gravado na pedra e liguei para a gerente da empresa de títulos que havia cuidado do nosso documento original.

Ela localizou o registro e ficou em silêncio durante alguns segundos.

— A senhora continua tendo posse vitalícia — confirmou. — Quem mudou a fechadura agiu antes de ler a escritura inteira.

Perguntei se o negócio ainda podia ser interrompido.

Ela explicou que o documento de transferência havia sido registrado naquela tarde, mas o dinheiro só seria liberado na manhã seguinte, depois da conferência final.

Então sua voz mudou.

— Há outra coisa que a senhora precisa saber.

Apertei o telefone contra o ouvido.

— O valor não seria depositado em uma conta da sua filha.

— Para onde iria?

Ouvi o som de teclas do outro lado.

— Para uma empresa aberta em nome de Jason.

Naquela hora, compreendi por que Chloe apertava tanto a bolsa, por que não conseguia me dizer quem havia comprado a casa e por que Jason parecia mais satisfeito do que alguém que simplesmente quitara uma dívida familiar.

Ele não estava salvando os dois.

Estava usando minha filha para salvar apenas a si mesmo.

A gerente pediu que eu enviasse uma foto do passaporte, do cartão de embarque e da página da escritura que eu guardava digitalizada no celular.

O carimbo do documento mostrava com clareza que o meu direito de ocupação não terminava com uma viagem, uma ausência temporária ou a vontade da beneficiária futura.

Terminava apenas com a minha morte ou com uma renúncia assinada por mim.

Eu não havia renunciado a nada.

Nem à casa.

Nem à minha lucidez.

Nem ao direito de exigir que Chloe olhasse para o que tinha feito.

A gerente colocou a liberação do pagamento em análise e avisou a empresa compradora de que havia uma ocupante legal com direito vitalício sobre o imóvel.

Ela não prometeu apagar o negócio nem resolver minha vida por mim.

Apenas garantiu que ninguém receberia o dinheiro antes de a verdade entrar na sala.

Foi tudo de que precisei.

Fiquei alguns minutos diante do túmulo de Robert, observando as folhas úmidas acumuladas perto da base da pedra.

A viagem a Honolulu tinha sido uma tentativa de cumprir uma promessa que fizera a ele no hospital.

Robert planejara conhecer o Havaí comigo depois que se aposentasse, mas a doença chegou primeiro, e eu adiei aquela passagem durante seis anos porque me parecia errado ver sozinha o lugar que deveria ter visto ao lado dele.

Naquela semana, finalmente fui.

Levei uma fotografia nossa, sentei diante do mar e contei em voz baixa tudo o que ele havia perdido desde que partira.

Não imaginava que, enquanto eu tentava me despedir, nossa filha estava assinando a venda da casa onde ele passara a vida inteira protegendo nós duas.

— Você tinha razão em desconfiar dele — murmurei diante da lápide.

Robert nunca gostara de Jason.

Não porque fosse pobre, inseguro ou ambicioso, como Chloe costumava acusá-lo de pensar.

Robert desconfiava porque Jason tratava qualquer afeto como um recurso que ainda não havia aprendido a transformar em dinheiro.

Quando Chloe se casou, ele começou pedindo pequenos empréstimos.

Depois vieram as propostas de investimento, os planos grandiosos e as emergências que sempre exigiam dinheiro imediato, mas nunca vinham acompanhadas de explicações completas.

Certa vez, anos antes, Jason sugeriu que hipotecássemos a casa para financiar um negócio que ele jurava ser infalível.

Robert recusou.

Na semana seguinte, marcou a reunião em que registramos a escritura vitalícia.

Na época, achei exagero.

Diante daquela lápide, percebi que meu marido não tentara controlar o futuro de Chloe.

Tentara impedir que alguém transformasse o futuro dela em garantia de uma dívida.

Passei a noite em um hotel simples perto da estação, embora cada parte do meu corpo pedisse minha cama, meu travesseiro e o cobertor que Robert sempre puxava para o lado dele.

Tomei banho, coloquei gelo no rosto e examinei a marca deixada pelos dedos de Chloe.

O pior não era a dor.

Era lembrar da mão pequena que eu segurara no primeiro dia de escola e saber que aquela mesma mão havia me atingido para proteger um homem que mentia para ela.

Às cinco e quarenta da manhã, recebi uma mensagem da gerente da empresa de títulos.

A empresa compradora exigia uma reunião imediata na propriedade antes de decidir se cancelaria o pagamento ou tentaria manter a aquisição do direito futuro.

Respondi que estaria lá às oito.

Depois mandei uma única mensagem para Chloe.

“Traga Jason, a bolsa e todos os papéis que vocês assinaram.”

Ela visualizou quase na mesma hora.

Não respondeu.

Quando o táxi parou diante da casa, havia três veículos na rua e um homem discutindo com o chaveiro perto da porta azul.

Chloe permanecia na calçada com os braços apertados contra o corpo, ainda usando meus brincos de pérola.

Jason falava depressa com um representante da empresa compradora, tentando manter o mesmo tom de superioridade da noite anterior, mas sua voz falhava no final de cada frase.

A fechadura preta brilhava no lugar onde, durante décadas, existira uma peça de latão desgastada pelas mãos de Robert.

O homem da empresa compradora me viu sair do carro e caminhou em minha direção.

— A senhora é a ocupante?

— Sou a proprietária com direito vitalício de posse.

Jason soltou uma risada forçada.

— Ela está confundindo as coisas. Chloe é a herdeira.

— Herdeira futura — respondi. — E eu ainda não morri.

O chaveiro baixou as ferramentas.

Chloe ficou imóvel.

O representante abriu no celular a cópia da escritura registrada e deslizou o dedo até o parágrafo que ninguém parecera disposto a ler antes de trocar minhas fechaduras.

Sua expressão se fechou.

— O documento realmente reserva a posse vitalícia — disse ele.

Jason se aproximou.

— Isso é uma formalidade antiga. Ela estava fora do estado. A casa estava vazia.

— Eu estava viajando — respondi. — Não desaparecida.

O representante olhou para Jason como se só então tivesse percebido a diferença entre confiança e pressa.

— O senhor afirmou que a ocupante havia abandonado definitivamente o imóvel.

— Foi o que Chloe me disse.

Minha filha ergueu a cabeça.

— Eu nunca disse isso.

Jason virou-se para ela com uma rapidez que denunciou mais medo do que raiva.

— Você assinou a declaração.

— Assinei o que você colocou na minha frente.

— Então não venha fingir que não sabia.

Chloe apertou a bolsa contra o peito, repetindo o gesto da noite anterior.

Pedi que ela a abrisse.

— Não faça isso — Jason ordenou.

Não precisei dizer nada.

Chloe ouviu a ordem, olhou para o marido e, pela primeira vez desde que eu havia chegado do aeroporto, pareceu escutar a maneira como ele falava com ela.

Ela abriu a bolsa.

Havia um envelope de fechamento, uma cópia do contrato, duas canetas, o estojo vazio dos meus brincos e um comprovante com instruções bancárias.

O representante pediu o comprovante.

Jason tentou pegá-lo antes.

Chloe recuou um passo.

Foi um movimento pequeno, mas mudou a distância entre os dois.

O homem leu as instruções e perguntou por que todo o valor seria transferido para uma empresa que não aparecia como proprietária, vendedora ou beneficiária da escritura.

Jason passou a mão pelo cabelo.

— É a empresa da família.

— Não é — disse Chloe.

Ele se virou para ela.

— Amor, nós conversamos sobre isso.

— Você disse que a conta estava temporariamente no nome da sua empresa porque o banco bloquearia uma transferência grande para a minha conta pessoal.

O representante fechou o envelope.

— Isso não faz sentido.

Chloe empalideceu.

— Quanto da dívida seria pago com esse dinheiro?

Jason não respondeu.

Ela repetiu a pergunta.

— Quanto?

— Tudo — ele disse por fim.

— E quanto sobraria para nós?

Jason olhou para mim, depois para o homem da empresa compradora.

— Isso não precisa ser discutido aqui.

— Quanto sobraria para mim? — Chloe insistiu.

— A dívida é nossa.

— Não foi isso que perguntei.

O silêncio dele respondeu antes de qualquer palavra.

O representante informou que a transferência permaneceria bloqueada e que sua empresa considerava rescindir a compra devido à falsa declaração de imóvel desocupado.

Jason perdeu o pouco controle que ainda fingia possuir.

— Vocês não podem cancelar agora. O contrato está assinado.

— O contrato também exige entrega legal da posse.

— Ela pode ir para um hotel.

A frase saiu da boca de Jason com tamanha naturalidade que até Chloe pareceu demorar um segundo para entender o que havia ouvido.

Ele não disse que eu poderia morar com eles.

Não sugeriu procurar um apartamento, dividir o dinheiro ou esperar uma solução.

Para ele, uma mulher viúva, com joelhos inchados e quarenta anos de história dentro daquela casa, podia simplesmente continuar em um hotel até morrer.

Chloe levou a mão aos brincos.

— Você disse que ela ficaria conosco por algumas semanas.

Jason desviou os olhos.

— Eu disse que pensaríamos nisso.

— Você disse que havia um quarto pronto.

— Chloe, não seja ingênua.

Aquela palavra fez o rosto dela mudar.

Na noite anterior, ela havia me chamado de velha como se a idade anulasse meus direitos.

Agora Jason usava a ingenuidade dela para apagar a mentira que a convencera a me expulsar.

O representante pediu as chaves novas ao chaveiro e informou que, enquanto a situação não fosse resolvida, a empresa não manteria posse física de um imóvel ocupado legalmente por outra pessoa.

Jason tentou protestar.

O homem ergueu a mão.

— O senhor não representa mais ninguém nesta conversa.

O chaveiro retirou o cilindro preto e reinstalou provisoriamente a fechadura antiga, que ainda estava dentro da caixa de ferramentas.

Quando ele colocou a chave de latão na minha mão, senti o peso de algo que parecia muito maior do que metal.

Chloe observou meus dedos se fecharem ao redor dela.

— Mãe — começou.

— Ainda não.

Abri a porta.

O cheiro da casa me atingiu antes que eu acendesse a luz.

Madeira encerada, café antigo e o perfume de lavanda dos sachês que eu guardava nas gavetas.

Algumas fotografias haviam sido retiradas da estante, e caixas de papelão estavam abertas no corredor.

Jason não tinha apenas trocado a fechadura.

Ele começara a separar minha vida em pilhas.

Sobre o sofá havia roupas minhas, álbuns, documentos de saúde e a manta que Robert usara durante os últimos meses de tratamento.

Chloe parou atrás de mim.

— Eu não sabia que ele tinha mexido nisso.

Peguei a manta e a dobrei com cuidado.

— Você estava na porta enquanto ele fazia isso.

— Ele disse que a empresa precisava encontrar a casa pronta.

— E você não perguntou para onde iriam as minhas coisas?

Ela olhou para as caixas.

— Eu achei que levaríamos tudo para o nosso apartamento.

Jason soltou o ar com impaciência.

— Isso não importa agora.

Virei-me para ele.

— Importa para mim.

Dentro de uma das caixas encontrei o porta-retratos do casamento de Chloe, embrulhado junto com objetos destinados a doação.

Na fotografia, Robert estava ao lado dela, orgulhoso, mesmo sabendo que o noivo passara a semana tentando convencê-lo a pagar uma recepção mais cara.

Entreguei o retrato a Chloe.

— Seu pai colocou aquela cláusula na escritura depois que Jason pediu para hipotecarmos a casa.

Ela olhou para o marido.

— Você me disse que meu pai ofereceu a casa e depois voltou atrás.

Jason permaneceu calado.

— Ele pediu — continuei. — Robert recusou. Foi por isso que protegemos a minha permanência e deixamos para você apenas o direito futuro.

Chloe segurou o retrato com as duas mãos.

O representante da empresa compradora, que continuava perto da entrada, explicou que havia duas opções imediatas.

A primeira seria manter a transferência do direito futuro, sem acesso à casa enquanto eu estivesse viva.

A segunda seria desfazer o negócio antes da liberação do pagamento, desde que Chloe assinasse a rescisão e assumisse as despesas provocadas pela declaração falsa e pela troca indevida da fechadura.

Jason respondeu antes dela.

— Vamos manter a venda.

Chloe ergueu os olhos.

— Você acabou de descobrir que não receberá o dinheiro.

— Eles terão que pagar. Existe um contrato.

— Para a sua empresa.

— Para pagar o que devemos.

— O que você deve.

Jason deu um passo em sua direção.

— Não faça isso comigo na frente dela.

Chloe segurou o porta-retratos contra o corpo.

— Foi você quem fez isso comigo na frente dela.

Ele baixou a voz, usando o tom que provavelmente utilizara durante semanas para conduzi-la de uma concessão à seguinte.

— Pense no que acontece se esse dinheiro não entrar hoje.

— O que acontece?

— Perdemos tudo.

— O que é tudo, Jason?

Ele não respondeu.

Chloe abriu os papéis sobre a mesa da sala e começou a ler cada página que assinara.

Descobriu que havia garantido pessoalmente as despesas da operação, autorizado a transferência integral para a empresa do marido e declarado que o imóvel seria entregue sem ocupantes até a noite anterior.

Ao lado da última cláusula, sua assinatura parecia menor do que nas outras páginas.

— Você sabia que ela voltaria ontem — disse o representante.

Chloe assentiu lentamente.

— Jason comprou as passagens para irmos até aqui.

Olhei para ela.

— Então vocês não vieram me contar depois da venda.

Minha filha fechou os olhos.

— Viemos garantir que você não entrasse.

Era essa a verdade escondida na calçada.

O sorriso, a repetição ensaiada de que eu não tinha mais onde morar, a fechadura trocada e a pressa para me fazer ir embora não eram uma reação ao negócio concluído.

Eram parte do negócio.

Jason precisava que eu aceitasse a expulsão sem procurar ajuda, porque sabia que qualquer contestação revelaria meu direito vitalício antes da transferência do dinheiro.

— Ele disse que, se você entrasse e chamasse alguém, perderíamos tudo — Chloe confessou.

— Por isso você me bateu?

Ela tocou os próprios dedos como se ainda sentisse o impacto.

— Eu não sei por que fiz aquilo.

— Sabe, sim.

As lágrimas começaram a cair.

— Eu estava com medo.

— Eu também estava.

Não levantei a voz.

— A diferença é que você sabia quem estava ferindo.

Chloe baixou a cabeça.

Jason se aproximou dos documentos e tentou recolhê-los.

O representante segurou as folhas antes que ele as alcançasse.

— Estes documentos pertencem à transação e permanecerão aqui até a decisão da vendedora.

— Minha esposa não vai assinar rescisão nenhuma — Jason respondeu.

Chloe retirou os brincos de pérola.

Colocou-os sobre a mesa, ao lado do retrato do casamento.

— Por que você pediu que eu usasse isto ontem?

Jason ficou parado.

— O quê?

— Você escolheu minha roupa. Mandou que eu pegasse os brincos da mamãe. Disse que eu precisava parecer segura quando ela chegasse.

— Isso é ridículo.

— Você disse que, se eu parecesse uma filha culpada, ela perceberia que havia algo errado.

A lembrança reorganizou tudo no rosto de Chloe.

Ela não usara minhas pérolas por carinho, nostalgia ou acaso.

Jason a vestira como uma herdeira que já havia tomado o lugar da mãe.

Minha filha encarou os brincos durante alguns segundos e empurrou-os na minha direção.

— Desculpe.

Não toquei neles.

— Assine primeiro o que precisa ser corrigido.

Jason segurou o braço dela.

— Nós vamos embora.

Chloe olhou para a mão dele sobre sua pele.

Na noite anterior, ela havia usado a própria mão para me ferir em defesa daquele homem.

Naquela manhã, retirou o braço devagar e ficou ao meu lado da mesa.

— Eu vou rescindir a venda.

Jason empalideceu.

— Se fizer isso, acabou.

— O quê?

— Nós dois.

Chloe respirou fundo.

— Você já vendeu nós dois quando colocou o dinheiro na sua conta.

O representante preparou a confirmação eletrônica da rescisão, e Chloe assinou diante de mim.

A empresa compradora aceitou desfazer a transferência porque não havia recebido posse válida e porque o pagamento continuava bloqueado.

As taxas da troca de fechadura, do registro e do cancelamento ficaram sob responsabilidade de Chloe, como constava no contrato que ela não lera.

Jason ainda teria de responder pela dívida que tentara cobrir com a venda, mas não receberia um centavo da minha casa.

Quando percebeu que não podia mais controlar os papéis, o dinheiro ou a decisão de Chloe, ele tentou controlar a narrativa.

Disse que eu havia manipulado minha filha contra ele.

Disse que Robert nunca o aceitara.

Disse que eu preferia uma casa vazia a ver Chloe feliz.

Escutei tudo sem interromper.

Então apontei para as caixas no corredor.

— Você embalou a manta de um homem morto, trocou a fechadura de uma viúva e mandou a filha dela expulsá-la para receber dinheiro numa conta sua.

Jason olhou para Chloe, esperando que ela o defendesse mais uma vez.

Ela não defendeu.

Ele saiu batendo a porta, embora a fechadura velha não permitisse o efeito dramático que desejava, e o trinco voltou devagar ao lugar.

O representante recolheu o que precisava e foi embora depois de confirmar que a empresa não reivindicaria mais a posse.

O chaveiro deixou duas cópias provisórias da chave sobre a mesa.

Quando ficamos sozinhas, Chloe permaneceu em pé no meio da sala, sem saber se podia sentar no sofá onde aprendera a ler.

— Jason vai perder o apartamento — disse ela.

— É possível.

— Ele colocou tudo naquele negócio.

— Foi escolha dele.

— Eu também assinei.

— Foi escolha sua.

Ela recebeu a frase sem tentar fugir dela.

Depois perguntou se poderia ficar naquela noite.

Olhei para as caixas, para o rosto ainda marcado pelo pânico e para a mão que havia me atingido menos de doze horas antes.

Parte de mim queria abraçá-la, colocá-la na cama de infância e fingir que o homem certo a transformara na pessoa errada.

Mas Jason não havia criado do nada a decisão de Chloe.

Ele explorara uma fraqueza que ela permitira crescer: a vontade de resolver problemas difíceis sacrificando sempre aquilo que pertencia a outra pessoa.

— Você não vai dormir aqui hoje — respondi.

Ela começou a chorar de novo.

— Mãe, eu não tenho para onde ir.

As palavras atravessaram a sala e voltaram para nós com a voz que ela usara na calçada.

“Você não tem mais onde morar, mãe.”

Chloe percebeu antes que eu dissesse qualquer coisa.

Levou a mão à boca.

— Eu sei — falei. — E é por isso que não vou deixá-la na rua.

Anotei o endereço do hotel onde havia passado a noite e paguei três diárias usando meu cartão.

— Isso não é perdão — avisei. — É tempo para você decidir quem será quando ninguém estiver assinando por você.

Ela pegou o papel.

Antes de sair, perguntou sobre os brincos.

— Deixe-os aí.

Chloe assentiu e caminhou até a porta.

Dessa vez, parou antes de atravessá-la.

— Posso voltar amanhã para ajudar com as caixas?

— Pode tocar a campainha amanhã.

Ela entendeu a diferença.

Nas semanas seguintes, a venda foi oficialmente cancelada, e o direito futuro voltou ao nome de Chloe, como estava antes da fraude.

Eu poderia ter deixado assim.

Poderia ter confiado que o medo daquela manhã seria suficiente para protegê-la de outra tentativa.

Mas confiança sem limite havia sido exatamente o que nos trouxera até ali.

Pedi que Chloe transferisse o direito futuro de volta para mim.

Não como castigo permanente, mas porque ninguém deveria conservar uma herança que tentara transformar em ordem de despejo.

Ela leu o novo documento inteiro.

Fez perguntas.

Levou uma cópia para revisar sozinha.

Depois assinou.

Pela primeira vez, não havia Jason ao lado dela dizendo onde colocar as iniciais.

A dívida dele permaneceu com ele.

Sem o dinheiro da venda, Jason precisou encerrar o escritório que mantinha apenas para sustentar a aparência de sucesso e vendeu o carro que usava para convencer os outros de que todos os seus planos já haviam dado certo.

Chloe não voltou para o apartamento.

Alugou um quarto pequeno, encontrou trabalho administrativo e começou a pagar mensalmente as despesas que causara com o registro, o chaveiro e o cancelamento.

Não aceitei uma quantia grande de uma vez.

Queria que cada pagamento tivesse data, origem e esforço reconhecível, porque a reparação não podia ser mais um dinheiro misterioso surgindo de uma conta que ela não compreendia.

Durante quase dois meses, nossas conversas se limitaram ao necessário.

Ela vinha aos sábados, ajudava a desempacotar o que havia colocado em caixas e ia embora antes do jantar.

Algumas vezes tentou explicar como Jason a convencera de que eu estava ficando frágil, de que a casa era grande demais e de que vender seria uma forma de me proteger de mim mesma.

Eu escutava, mas não deixava que a explicação substituísse a responsabilidade.

Chloe também teve de contar por que nunca me perguntou diretamente se eu precisava de ajuda.

A resposta foi mais simples e mais dolorosa do que qualquer mentira de Jason.

Ela não perguntou porque temia que eu dissesse não.

Meses depois, numa manhã de primavera, encontrei Chloe na varanda segurando duas latas de tinta azul.

A porta ainda carregava arranhões perto da fechadura, marcas deixadas pela instalação apressada do cilindro preto.

— A cor desbotou — ela disse. — Pensei que poderíamos pintar de novo.

Olhei para as latas e me lembrei do domingo em que Robert e eu havíamos escolhido aquele azul.

Ele manchara a camisa, eu pintara parte da maçaneta sem querer e Chloe, ainda pequena, deixara a marca de dois dedos na parte inferior da porta.

A marca continuava ali, escondida sob camadas de tinta.

Entreguei um pincel a Chloe.

Trabalhamos em silêncio durante a primeira hora.

Quando terminamos a parte de cima, ela se ajoelhou para pintar perto do chão e encontrou as duas pequenas elevações deixadas por seus dedos de criança.

Passou o pincel ao redor delas, sem cobri-las.

— Eu não lembrava disso — murmurou.

— Seu pai não deixou que eu lixasse.

Chloe ficou olhando para a marca.

— Ele sabia que eu faria aquilo com você?

— Não.

— Então por que protegeu a casa?

Apoiei o pincel na borda da lata.

— Porque ele sabia que amar alguém não significa entregar a essa pessoa todas as maneiras de ferir você.

Foi a única vez que mencionei Robert daquela forma.

Não precisávamos transformar um morto em juiz de cada erro dos vivos.

Quando a tinta secou, coloquei uma fechadura nova, simples e de latão, parecida com a antiga.

O chaveiro me entregou duas cópias.

Guardei uma no chaveiro que levava comigo e coloquei a outra na gaveta da cozinha, onde Robert guardava pilhas, parafusos e objetos que talvez fossem úteis algum dia.

Chloe observou, mas não pediu a chave.

Esse foi um dos primeiros sinais de que alguma coisa nela realmente começava a mudar.

Ao anoitecer, ela recolheu os jornais usados para proteger o chão e levou as latas vazias até a garagem.

Depois voltou à varanda e bateu na porta, embora ela estivesse aberta.

— Posso entrar e lavar as mãos?

Eu a vi esperando do lado de fora, sem empurrar, sem decidir por mim e sem agir como se o vínculo entre nós lhe desse posse sobre qualquer coisa.

Então me afastei da passagem.

— Pode entrar.

Chloe atravessou a porta azul devagar.

Não devolvi a ela uma chave naquele dia.

Também não devolvi a confiança inteira, porque confiança não era um objeto que alguém colocava sobre a mesa junto com brincos roubados e recuperava depois de pedir desculpas.

Mas abri a porta.

E, pela primeira vez desde que ela ficara me esperando na calçada para anunciar que eu não tinha mais casa, minha filha entrou porque pediu licença, não porque acreditava ter herdado o direito de passar por cima de mim.

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