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Ela Sorriu Quando O Marido Perdeu Tudo No Cassino-silas

A última carta caiu sobre o feltro verde com um som quase educado.

Pequeno.

Seco.

Image

Final.

Ainda assim, foi como se alguém tivesse desligado o ar dentro da sala VIP.

O silêncio veio pesado, cobrindo as fichas, os copos, os ternos caros e todos os rostos que tinham passado a noite fingindo que aquilo era apenas um jogo.

Não era.

Para Gavin, nunca tinha sido.

Eu sabia disso antes de ele empurrar os papéis da nossa casa para o centro da mesa.

Sabia quando ele começou a rir alto demais depois da terceira dose.

Sabia quando ele apertou minha nuca no elevador e disse que eu deveria sorrir, porque homens ricos gostavam de mulheres que não faziam perguntas.

Mas eu também sabia de uma coisa que Gavin não sabia.

Aquela mesa não tinha sido preparada para ele ganhar.

Tinha sido preparada para ele se revelar.

O crupiê manteve o rosto imóvel enquanto recolhia as fichas perdidas.

Uma a uma, elas desapareceram do lado de Gavin e foram parar diante do vencedor, junto com os marcadores de dívida e os documentos da propriedade que ele tinha prometido jamais usar como garantia.

A assinatura dele estava em todos eles.

A minha não.

Esse detalhe importava mais do que ele imaginava.

Gavin ficou olhando para os papéis como se pudesse fazer a tinta voltar para a caneta.

O rosto dele perdeu a cor devagar.

Primeiro a testa.

Depois os lábios.

Depois aquele olhar confiante, treinado durante anos para me convencer de que todo desastre tinha sido culpa minha.

A sala VIP do Aurelia era feita para abafar ruídos.

Tapetes grossos.

Painéis de madeira.

Portas pesadas.

Homens discretos em ternos escuros perto das paredes.

Mas o som da cadeira de Gavin raspando para trás cortou tudo.

Ele levantou tão rápido que a taça ao lado dele tombou, espalhando uma mancha âmbar sobre o feltro.

Duas pessoas recuaram.

O crupiê não se moveu.

Eu também não.

Então Gavin agarrou meu pulso.

A dor veio quente e instantânea, subindo pelo braço até o ombro.

Houve um tempo em que eu teria prendido a respiração para não irritá-lo mais.

Houve um tempo em que eu teria dito o nome dele em voz baixa, como se doçura fosse uma chave capaz de abrir uma cela.

Esse tempo tinha acabado.

“Acabou tudo”, ele rosnou.

A respiração dele cheirava a uísque caro e desespero barato.

“A casa. As contas. Os carros. Tudo.”

Eu olhei para a mão dele apertando minha pele.

Os dedos estavam brancos de força.

O anel de casamento dele refletia a luz da mesa.

Era curioso como uma coisa tão pequena podia parecer tão ofensiva naquele momento.

“Você vai fazer o que for preciso”, ele disse.

A voz dele baixou, mas ficou mais perigosa.

“Vai convencer o dono desse lugar a limpar minha dívida. Vai sorrir. Vai pedir. Vai dormir com ele se for isso que ele quiser.”

Alguém no fundo soltou um som abafado.

Gavin nem olhou.

“Ou eu quebro sua mandíbula aqui mesmo.”

A frase ficou parada entre nós.

Anos antes, ela teria me destruído.

Não pela violência em si, mas pela certeza com que ele falava, como se meu corpo fosse uma extensão da carteira dele.

Como se minha vergonha pudesse ser negociada.

Como se o medo fosse um contrato vitalício.

Eu não chorei.

Não implorei.

Não tentei explicar que a dívida era dele, que a casa tinha sido dele, que as mentiras também eram dele.

Explicações são moedas inúteis quando entregues a alguém que só entende posse.

Então eu fiz a única coisa que ele jamais esperaria.

Sorri.

Não foi um sorriso grande.

Foi pequeno.

Controlado.

O tipo de sorriso que nasce quando a armadilha finalmente fecha do lado certo.

Gavin franziu a testa.

“Do que você está rindo?”

Eu não respondi.

Meus olhos passaram por ele e foram até a entrada pesada da sala.

Lá, perto da madeira escura, Damon estava parado.

Quieto.

Imóvel.

Quase invisível para quem não sabia procurá-lo.

Mas eu sabia.

Durante três anos, eu aprendi a olhar para portas.

Aprendi a decorar horários.

Aprendi a reconhecer quais seguranças trabalhavam em quais noites, quais corredores tinham câmeras, quais documentos Gavin assinava sem ler quando estava bêbado o bastante para se sentir invencível.

E, acima de tudo, aprendi a esperar.

Damon inclinou a cabeça quase nada.

Era o sinal.

Meu pulso ainda doía, mas por dentro alguma coisa se soltou.

A primeira vez que Damon me avisou sobre Gavin foi em uma noite de chuva, três anos antes, depois de um jantar beneficente em que meu marido perdeu mais dinheiro do que admitiu.

Eu estava no corredor lateral do hotel, segurando minha bolsa contra o peito, tentando esconder a marca fresca no braço sob a manga do vestido.

Damon apareceu sem fazer barulho.

Na época, eu o conhecia apenas como um executivo ligado ao Aurelia.

Educado.

Frio.

Distante.

Ele me ofereceu um lenço, não uma pergunta.

Aquilo me fez confiar nele mais do que qualquer discurso teria feito.

“Ele vai piorar”, Damon disse naquela noite.

Eu odiei ouvir aquilo.

Odiei porque já sabia que era verdade.

“Você não sabe nada sobre meu casamento”, respondi.

Ele olhou para a porta por onde Gavin tinha desaparecido.

“Eu sei sobre dívidas”, disse. “E sei como homens desesperados tratam pessoas que acham que lhes pertencem.”

Naquela noite, eu fui embora com Gavin.

Mas guardei o cartão que Damon deixou dentro do lenço dobrado.

Passei meses sem ligar.

Depois liguei.

Não para pedir que ele me salvasse.

Para pedir que ele me explicasse como sobreviver a um homem que transformava amor em garantia.

Damon nunca me pediu confiança cega.

Ele me pediu documentos.

Datas.

Mensagens.

Extratos.

Registros de chamadas.

Contratos assinados sem minha presença.

Fotos das marcas que Gavin dizia que eu tinha feito em mim mesma.

A primeira pasta nasceu de medo.

A segunda nasceu de raiva.

A terceira nasceu de lucidez.

Gavin nunca percebeu.

Ele me achava fraca demais para planejar.

Esse era o conforto preferido dele.

Homens como Gavin confundem silêncio com submissão porque precisam disso para continuar dormindo.

Na sala VIP, ele ainda acreditava nisso.

Ainda apertava meu braço como se o mundo não estivesse mudando de dono diante dele.

Então as portas se abriram.

O impacto foi grave, como madeira antiga encontrando parede de pedra.

Todos os murmúrios morreram.

Os seguranças entraram primeiro.

Não correram.

Não gritaram.

Só caminharam com uma precisão tão calma que assustava mais do que pressa.

O chefe de salão endireitou a postura.

O crupiê afastou as mãos da mesa.

Gavin olhou para a entrada, irritado por um segundo, até entender que não era interrupção.

Era resposta.

Atrás dos seguranças veio o homem que quase ninguém naquela sala tinha visto pessoalmente.

O dono do Aurelia.

Henrique Vale não precisava levantar a voz para ocupar um ambiente.

Ele tinha esse tipo raro de presença que fazia até pessoas arrogantes ajustarem a gravata sem perceber.

Cabelo escuro com fios grisalhos nas têmporas.

Terno carvão impecável.

Olhar frio o bastante para fazer um jogador profissional parar de blefar.

Seu olhar passou pelos papéis, pelas fichas, pela bebida derramada e, por fim, pela mão de Gavin no meu pulso.

A temperatura do rosto dele mudou antes de qualquer palavra.

Não para a sala.

Para mim.

A frieza se abriu.

Por um segundo, eu vi o homem que, durante três anos, atendeu ligações às duas da manhã sem me perguntar por que eu ainda não tinha ido embora.

Vi o homem que me ensinou a copiar documentos antes de confrontar mentiras.

Vi o homem que nunca tocou em mim sem permissão.

Ele caminhou até a mesa.

Gavin apertou meu braço uma última vez, mais por reflexo do que por coragem.

Henrique olhou para aquela mão.

“Solte-a.”

Duas palavras.

Nada mais.

Gavin soltou.

Foi rápido demais para parecer escolha.

Eu senti o sangue voltar aos dedos com uma dor fina.

Henrique se aproximou, colocou uma das mãos nas minhas costas e me puxou para perto dele, não como dono, não como homem marcando território, mas como alguém fechando uma porta entre mim e uma ameaça.

Então inclinou a cabeça até meu ouvido.

“Eu te disse que ele ia falhar com você.”

O sussurro não deveria ter sido ouvido por ninguém.

Mesmo assim, Gavin entendeu pelo meu rosto.

A dúvida surgiu nele como rachadura em vidro.

“Você conhece ela?”, perguntou.

Henrique não respondeu imediatamente.

Esse silêncio foi pior para Gavin do que qualquer confirmação.

O chefe de salão se aproximou com uma pasta preta.

Damon veio logo atrás, ainda sem chamar atenção, carregando um tablet e uma segunda pasta menor.

O feltro verde da mesa virou balcão de prova.

Primeiro vieram os papéis da propriedade.

Depois os marcadores de dívida, cada um com data e hora.

Depois as transferências feitas a partir de contas que Gavin dizia estarem bloqueadas.

Depois cópias de mensagens enviadas por ele a agiotas, contatos, intermediários e mulheres que ele jurava serem apenas conhecidas.

Gavin olhava para cada folha como se a tinta o insultasse pessoalmente.

“Isso é ilegal”, ele disse.

A frase teria sido engraçada se não fosse tão triste.

Henrique olhou para ele.

“O que é ilegal, exatamente? Cobrar uma dívida que você assinou? Ou mostrar a sua esposa o que você tentou vender sem o consentimento dela?”

Gavin apontou para mim.

“Ela é minha mulher.”

Henrique ficou imóvel.

“Não é uma resposta jurídica. E também não é uma resposta moral.”

O crupiê baixou os olhos.

Uma das mulheres no fundo levou a mão à boca.

O high-roller do relógio de ouro, que antes fingia distração, agora encarava Gavin como se finalmente percebesse que a vulgaridade não dependia de saldo bancário.

Gavin tentou rir.

Foi um som fraco.

“Vocês acham que podem me humilhar?”

Eu falei pela primeira vez desde que ele agarrou meu pulso.

“Não, Gavin. Você fez isso sozinho.”

Ele virou o rosto para mim, e por uma fração de segundo eu vi o homem do início.

Não o homem que me encantou.

O outro.

O que existia por baixo desde sempre, esperando a primeira chance de transformar intimidade em domínio.

“Você armou isso?”, ele perguntou.

Minha mão ainda tremia um pouco, mas minha voz não.

“Eu documentei isso. É diferente.”

Damon colocou o tablet sobre a mesa e tocou a tela.

A gravação começou sem som nos primeiros segundos.

Era Gavin na entrada do cassino, duas horas antes, assinando a autorização para incluir a propriedade na mesa como garantia final.

A câmera pegava o rosto dele bem iluminado.

Pegava também o momento em que o gerente perguntou se ele confirmava que tinha autoridade total para apostar aquele ativo.

Gavin respondeu sim.

Duas vezes.

Depois riu e disse que esposa não precisava entender de papel.

Na sala VIP, ninguém respirou direito.

O som foi ativado quando a gravação chegou ao trecho seguinte.

A própria voz de Gavin encheu o ambiente.

“Se eu perder, ela resolve. Ela sempre resolve.”

Eu fechei os olhos por meio segundo.

Não porque doeu.

Porque finalmente estava fora de mim.

Durante anos, as piores frases de Gavin existiram apenas na minha memória, onde ele podia negá-las.

Agora estavam no ar.

Com horário.

Imagem.

Testemunhas.

Prova muda é forte, mas prova falando com a voz do culpado tem outro peso.

Gavin avançou para pegar o tablet.

Um segurança deu um passo.

Só um.

Foi suficiente.

Gavin parou.

A mão dele ficou suspensa no ar, dedos curvados, procurando um poder que não estava mais ali.

“Você não entende o que está fazendo”, ele disse para mim.

“Entendo melhor do que nunca.”

Henrique abriu a pasta preta em uma página marcada.

“Há mais uma coisa.”

Gavin riu de novo, mas agora seus olhos estavam úmidos de pânico.

“Claro que há. Sempre há mais uma coisa quando uma mulher quer fazer cena.”

Henrique não olhou para ele.

Olhou para mim.

“Você quer ler ou quer que eu leia?”

A sala virou um único ouvido.

Eu olhei para o envelope menor, lacrado em vermelho, que Damon tinha colocado perto da minha mão.

Meu nome estava escrito na frente.

Não o nome que Gavin usava quando queria me diminuir.

Não o sobrenome de casada que ele pronunciava como posse.

Meu nome completo.

Letra firme.

Clara Mendes.

Eu passei o polegar pelo lacre.

Gavin viu e perdeu a pouca cor que restava.

“Não”, ele sussurrou.

A palavra saiu antes que ele pudesse controlar.

Aquilo confirmou o que eu já suspeitava.

Ele sabia o que havia ali.

Ou pelo menos temia saber.

“Não abre isso”, ele disse.

Foi a primeira vez em anos que ele me pediu algo sem ordenar.

Mesmo assim, não era pedido.

Era pavor.

Eu rompi o lacre.

O papel lá dentro era uma cópia autenticada de um documento que Gavin tinha assinado dezoito meses antes, quando me disse que estava em viagem a trabalho.

A data estava no canto superior.

O horário, logo abaixo.

O nome de um advogado aparecia como testemunha.

E, no centro, havia uma cláusula autorizando a transferência de um conjunto de bens conjugais para uma empresa de fachada caso as dívidas de jogo ultrapassassem determinado valor.

A empresa tinha um nome neutro.

Sem rosto.

Sem história.

Mas Damon deslizou outra folha para o lado.

Nela apareciam os beneficiários reais.

Gavin.

Um intermediário.

E uma mulher que não era apenas amante.

Era a pessoa que havia ajudado a esconder as dívidas desde o começo.

Mirela.

Minha melhor amiga.

O nome dela me atingiu com uma calma estranha.

Não foi como faca.

Foi como a luz acendendo em um quarto onde eu já sabia que havia alguém escondido.

Naquele momento, a porta lateral da sala VIP se abriu.

Mirela entrou usando um vestido azul claro, o celular na mão, a expressão impaciente de quem achava que estava chegando para controlar um escândalo menor.

Ela parou no terceiro passo.

Viu Henrique.

Viu os documentos.

Viu meu rosto.

Depois viu Gavin.

A mão dela caiu ao lado do corpo.

O celular bateu contra a coxa.

“Clara”, ela disse.

Meu nome na boca dela pareceu uma coisa suja.

Gavin fechou os olhos.

Foi pequeno, mas eu vi.

A sala inteira viu.

Mirela tentou sorrir.

Era o sorriso que ela usava quando dizia que eu precisava ser paciente, que homens sob pressão faziam besteiras, que casamento era feito de fases, que talvez eu estivesse exagerando.

Agora o sorriso não encaixava no rosto.

“Isso não é o que parece”, ela disse.

Eu quase ri.

Durante anos, essa frase tinha sido o hino de todos ao meu redor.

Não é o que parece.

A marca no braço não é o que parece.

A mensagem no celular não é o que parece.

O dinheiro sumido não é o que parece.

O olhar de desprezo na frente dos outros não é o que parece.

Chega um ponto em que o que parece já é generoso demais.

Henrique se afastou meio passo, deixando que eu ocupasse o centro da mesa.

Esse gesto me deu mais força do que qualquer ameaça que ele pudesse fazer por mim.

Porque, naquele momento, ele não estava tomando minha voz.

Estava devolvendo espaço para ela existir.

Peguei a folha com o nome de Mirela.

“Você assinou como consultora financeira da empresa”, eu disse.

Ela abriu a boca.

Nada saiu.

“Você me abraçou no banheiro do restaurante quando eu chorei porque Gavin tinha sumido dois dias. Disse que eu merecia paz.”

Mirela piscou rápido.

“Eu não sabia de tudo.”

“Você sabia o suficiente para receber.”

A frase fez algo nela quebrar.

Não dramaticamente.

Não como nos filmes.

Ela simplesmente perdeu sustentação.

Os ombros caíram.

O queixo tremeu.

O celular escorregou da mão e bateu no chão com um estalo.

Ninguém pegou.

Gavin tentou usar a queda dela como distração.

“Ela está mentindo”, disse.

Mas disse olhando para Henrique, não para mim.

Henrique virou uma página.

“Temos mensagens entre vocês dois discutindo como convencer Clara a assinar uma autorização complementar. Temos registros de entrada em hotéis. Temos transferências para a conta de Mirela feitas no mesmo dia em que você retirava dinheiro das linhas de crédito.”

Cada frase era um tijolo caindo.

Gavin ficou menor.

Mirela levou uma mão ao peito, como se o próprio coração tivesse se tornado prova contra ela.

“E temos”, Henrique continuou, “a gravação de hoje.”

Gavin olhou para mim de novo.

Agora o ódio estava misturado com súplica.

Era uma mistura feia.

“Clara, pensa no que você está fazendo.”

Eu pensei.

Pensei no meu pulso doendo naquela mesa.

Pensei nas noites em que dormi com o celular debaixo do travesseiro.

Pensei nas mensagens apagadas, nos pedidos de desculpa que só vinham quando havia testemunhas, nas flores compradas com dinheiro que ele já devia a alguém.

Pensei em todas as vezes que Mirela me aconselhou a não provocar.

Pensei na casa que ele apostou como se paredes guardassem apenas valor, e não anos da minha vida.

Então olhei para ele.

“Estou pensando pela primeira vez sem medo.”

Damon entregou a Henrique uma última folha.

Não era contrato.

Era uma declaração preparada por advogado, com espaços em branco para anexos, valores e medidas emergenciais.

A parte superior trazia a data daquele dia.

A linha do horário ainda estava em aberto.

Henrique colocou a caneta ao lado.

“Clara decide agora se quer acionar a cláusula de proteção patrimonial e iniciar a separação com base nas provas reunidas”, ele disse.

Gavin explodiu.

“Você não pode fazer isso!”

A frase dele ecoou pela sala VIP com a sinceridade brutal de quem nunca imaginou que a mulher que controlava pudesse ter uma saída.

Eu toquei na caneta.

Meu pulso ainda estava vermelho.

A marca dos dedos dele aparecia na pele.

O crupiê olhou para a marca e desviou os olhos depressa, envergonhado de ter visto tarde demais.

Mirela chorava em silêncio agora, mas eu não sentia vitória olhando para ela.

Sentia luto.

Porque traição não destrói só confiança.

Ela reescreve lembranças.

De repente, cada café, cada conselho, cada abraço passa a ter uma segunda legenda.

Eu respirei fundo.

A sala esperava.

Gavin também.

Ele achava que eu hesitaria por amor, por hábito ou por medo do escândalo.

Talvez eu tivesse hesitado antes.

Mas o antes tinha acabado quando ele disse, diante de estranhos, que meu corpo poderia pagar a dívida dele.

Algumas frases não pedem perdão.

Pedem encerramento.

Peguei a caneta.

Assinei meu nome no primeiro campo.

Clara Mendes.

Sem o sobrenome dele.

Gavin fez um som baixo, quase animal.

O segurança mais próximo se aproximou, mas Henrique levantou a mão, pedindo calma.

“Agora”, Henrique disse a Gavin, “você vai ouvir as consequências do que assinou.”

Gavin olhou em volta, procurando apoio em pessoas que minutos antes teriam rido com ele.

Ninguém ofereceu.

O high-roller do relógio de ouro afastou a cadeira.

A mulher elegante pegou sua bolsa.

O crupiê recolheu os documentos com cuidado, como se tirasse facas de uma mesa.

Mirela sussurrou meu nome de novo.

Eu não respondi.

Henrique leu a cláusula em voz alta.

A dívida de jogo continuava sendo de Gavin.

Os bens que exigiam autorização conjugal seriam contestados imediatamente.

As transferências suspeitas seriam encaminhadas aos advogados.

Qualquer tentativa de coerção, ameaça ou contato direto comigo seria registrada e anexada ao processo.

Cada palavra tirava um pedaço do palco onde Gavin tinha se apresentado como intocável.

Quando Henrique terminou, Gavin estava parado com os braços soltos ao lado do corpo.

Não parecia arrependido.

Parecia ofendido por ter sido impedido.

Essa diferença importava.

Ele deu um passo em minha direção.

“Você vai se arrepender.”

Eu olhei para a marca no meu pulso.

Depois para o rosto dele.

“Não mais do que me arrependi de acreditar em você.”

Damon pegou o celular de Mirela do chão com um lenço e o colocou sobre a mesa, sem desbloquear.

“Também precisamos preservar isso”, ele disse.

Mirela soltou um soluço.

“Por favor.”

Não soube para quem ela estava pedindo.

Talvez para mim.

Talvez para Gavin.

Talvez para a versão dela mesma que ainda fingia não ter escolhido.

Eu não disse nada.

A porta da sala VIP se abriu outra vez.

Desta vez, entraram dois homens de terno com pastas formais, acompanhados pelo chefe de segurança.

Não eram policiais.

Ainda não.

Eram os advogados do Aurelia, os mesmos que Damon havia me dito que só apareceriam quando as provas estivessem completas o bastante para impedir Gavin de transformar tudo em confusão.

Um deles cumprimentou Henrique com um aceno.

Depois olhou para mim.

“A senhora deseja prosseguir?”

A pergunta era simples.

O peso dela, não.

Prosseguir significava que a história não voltaria a caber dentro de desculpas domésticas.

Significava que Gavin não poderia acordar no dia seguinte e chamar tudo de mal-entendido.

Significava que Mirela teria de responder pelo que assinou.

Significava que eu teria de reconstruir minha vida sem a fantasia de que, em algum lugar, ainda existia um casamento para salvar.

Olhei para a mesa.

Cartas.

Fichas.

Papéis.

Uma taça derramada.

Meu nome recém-assinado.

A verdade raramente chega limpa.

Às vezes, ela vem coberta de uísque, vergonha e recibos.

Mesmo assim, ainda é verdade.

Levantei o olhar.

“Desejo.”

Gavin avançou meio passo, mas o segurança bloqueou o caminho.

Desta vez, ele não tentou passar.

A ameaça tinha encontrado parede.

Henrique ficou ao meu lado, sem tocar em mim, esperando que eu escolhesse o próximo movimento.

Esse cuidado foi o que finalmente me fez sentir o tremor nas pernas.

Não de medo.

De queda atrasada.

Quando você passa anos sobrevivendo em silêncio, a liberdade não chega como música.

Às vezes, chega como cansaço.

Damon puxou uma cadeira para mim.

Eu sentei.

Pela primeira vez naquela noite, Gavin ficou de pé enquanto eu ocupava o centro.

O advogado começou a recolher as folhas assinadas.

Mirela chorava com as mãos cobrindo o rosto.

Gavin olhava para mim como se eu tivesse traído alguma regra secreta do mundo.

Talvez eu tivesse.

A regra que dizia que mulheres humilhadas deveriam continuar discretas.

A regra que dizia que provas só importavam quando favoreciam homens poderosos.

A regra que dizia que um marido podia perder tudo e ainda assim exigir que a esposa pagasse com a própria dignidade.

Eu quebrei essa regra com uma assinatura.

E não senti culpa.

Henrique se inclinou apenas o suficiente para que só eu ouvisse.

“Você está segura agora.”

Eu olhei para meu pulso.

A pele ainda ardia.

“Ainda não”, respondi. “Mas estou livre o bastante para começar.”

Ele assentiu.

Do outro lado da mesa, Gavin finalmente entendeu.

Não que tinha perdido dinheiro.

Isso ele já sabia.

Ele entendeu que tinha perdido acesso.

A mim.

À minha casa.

À minha assinatura.

Ao meu silêncio.

E, quando essa compreensão chegou, a raiva saiu do rosto dele e deixou apenas medo.

Esse foi o primeiro momento verdadeiro da noite.

Não a aposta.

Não a dívida.

Não a chegada de Henrique.

O momento verdadeiro foi ver Gavin encarando uma porta que não abriria mais para ele.

Eu me levantei com a pasta contra o peito.

Passei por Mirela sem parar.

Passei por Gavin sem responder ao chamado quebrado dele.

Quando cheguei à porta, olhei uma última vez para a mesa.

As cartas ainda estavam lá.

A última carta, a que ele acreditou que decidiria meu destino, parecia pequena agora.

Quase ridícula.

Porque Gavin sempre pensou que o jogo era sobre sorte.

Nunca entendeu que, para mim, tinha virado sobrevivência muito antes de aquela carta cair.

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