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Ela Fugiu da Cirurgia e Descobriu Quem Seria a Segunda Doadora-milee

Lucía não precisou repetir a frase que acabara de ler nos lábios de Ofelia.

Adriana já havia entendido quem podia ser a segunda doadora.

Regina.

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A irmã mais nova de Julián tinha feito todos os exames antes dela e fora descartada sob a alegação de incompatibilidade, mas naquele momento Adriana percebeu que ninguém fora capaz de provar que aqueles resultados eram verdadeiros.

Se os exames de Julián tinham sido falsificados, os de Regina também podiam ter sido.

—Liga para ela —disse Adriana.

Lucía tentou uma vez.

Depois outra.

Na terceira chamada, o telefone de Regina foi desligado.

Adriana sentiu o medo mudar de forma, porque até aquele instante estava tentando sobreviver, mas agora sabia que fugir não bastava.

Se desaparecesse, Julián simplesmente encontraria outro corpo.

Lucía voltou ao vídeo publicado por ele e avançou quadro a quadro, procurando qualquer detalhe que pudesse indicar onde Regina estava ou o que Ofelia pretendia fazer.

Não havia nada além do quarto, da máscara de oxigênio, do rosto teatralmente abatido de Julián e da mãe dele surgindo por alguns segundos ao fundo.

Mas Adriana tinha outra coisa.

A fotografia que Marisol colocara em suas mãos antes da fuga.

Ela ainda estava dobrada dentro do bolso do uniforme cinza.

Quando a retirou, percebeu que a chuva havia molhado uma das bordas, mas o centro permanecia legível: a caixa térmica para transporte de tecido cardíaco, seu nome completo, seu tipo sanguíneo e o documento antecipando sua morte por uma suposta reação alérgica.

Lucía espalhou tudo sobre a mesa.

—Isso prova que prepararam sua morte antes da cirurgia —disse ela.— Mas precisamos de algo que ligue Julián diretamente ao que estava sendo feito.

Adriana ficou olhando para o próprio nome naquela folha.

Horas antes, acreditara que aqueles documentos faziam parte de um procedimento destinado a salvar o marido.

Agora cada linha parecia uma sentença escrita por pessoas que já tinham decidido que ela não voltaria para casa.

Foi então que se lembrou de um detalhe que até aquele momento parecera insignificante.

Na semana anterior, Julián pedira que ela assinasse vários documentos de uma vez.

Dissera que eram autorizações adicionais exigidas pela clínica e que os formulários estavam atrasados porque Beltrán havia conseguido antecipar a cirurgia.

Adriana assinara sem ler tudo.

Não por descuido.

Porque Julián estava sentado diante dela, pálido, tremendo e fingindo dificuldade para respirar.

Ela acreditava que cada minuto importava.

—Ele me fez assinar outras coisas —disse Adriana.

Lucía ergueu os olhos.

—Que coisas?

—Não sei.

A resposta pareceu terrível assim que saiu de sua boca.

Lucía pediu que ela tentasse lembrar da ordem dos papéis, dos cabeçalhos, das páginas que Julián virava e de qualquer palavra que tivesse visto.

Adriana fechou os olhos.

Então uma expressão surgiu na memória.

Beneficiário.

Ela se levantou tão depressa que bateu a perna na mesa.

—Tinha uma página com essa palavra.

Lucía ficou imóvel por alguns segundos.

Marisol tinha dito que haviam contratado seguros de vida em nome de Adriana.

Aquela assinatura podia ser a peça que transformava a suspeita em motivo.

Mas havia um problema maior.

Se Julián acreditava que Adriana estava perdida, confusa e sem documentos, ele provavelmente imaginava que tinha algumas horas antes de ela conseguir reagir.

O vídeo público fazia parte disso.

Não servia apenas para humilhá-la.

Servia para construir antecipadamente uma versão dos fatos na qual qualquer denúncia feita por Adriana pareceria consequência de uma crise emocional.

Ela seria a esposa instável que abandonara o marido doente e, depois, inventara uma acusação monstruosa para justificar a fuga.

—Ele está tentando decidir quem eu sou antes que eu consiga falar —disse Adriana.

Lucía assentiu.

—Então não vamos correr atrás da história dele. Vamos obrigá-lo a correr atrás da sua.

Adriana olhou novamente para o vídeo.

Milhares de comentários continuavam aparecendo.

Alguns pediam que ela voltasse para salvar Julián.

Outros diziam que alguém precisava encontrá-la antes que fosse tarde.

Havia pessoas divulgando sua fotografia.

Aquilo tornava impossível simplesmente sair de casa e procurar Regina.

Julián havia transformado desconhecidos em olhos procurando por ela.

Adriana respirou fundo e tomou uma decisão.

—Eu vou falar com ele.

—Não pessoalmente.

—Não. Quero que ele pense que ainda consegue me convencer.

Lucía entendeu imediatamente.

Se Julián acreditasse que Adriana estava assustada, arrependida e vulnerável, talvez revelasse aquilo que jamais diria se soubesse que ela já conhecia o plano inteiro.

Adriana pegou o telefone de Lucía e fez a ligação.

Julián atendeu antes do segundo toque.

—Adriana?

A voz dele mudou de imediato.

O homem que minutos antes chorava diante de milhares de pessoas agora parecia alerta.

—Onde você está?

Ela apertou a mão contra a boca para controlar a respiração.

—Eu não sei o que aconteceu.

Silêncio.

—Você me abandonou —disse Julián, mas não havia fraqueza na voz.— O médico disse que você entrou em pânico.

—Eu fiquei com medo.

—Volte para o hospital.

Rápido demais.

Nenhuma pergunta sobre onde ela dormira, se estava ferida ou se precisava de ajuda.

Somente a ordem para voltar.

Adriana olhou para Lucía.

—Ainda dá tempo?

Julián demorou uma fração de segundo.

—Claro que dá.

—Para o seu transplante?

Outra pausa.

—Sim.

Foi a primeira rachadura.

Se a suposta cirurgia renal era urgente a ponto de ele afirmar publicamente que podia morrer, por que ninguém estava discutindo uma nova data, novos exames ou a condição física de Adriana depois de horas desaparecida?

Ele só precisava que ela entrasse novamente no prédio.

Adriana decidiu avançar.

—Sua mãe está aí?

—Está.

—E Regina?

Dessa vez o silêncio foi longo.

Julián mudou o tom.

—Por que está perguntando pela Regina?

Adriana sentiu o coração bater contra as costelas.

Tinha acertado.

—Porque quero me despedir dela antes da cirurgia.

Julián respirou devagar.

Quando respondeu, sua voz voltou a ficar doce.

—Você pode falar com ela quando chegar.

Adriana quase perdeu o controle.

Ele não dissera que Regina estava em casa.

Não dissera que ligaria para a irmã.

Dissera que Adriana poderia falar com ela quando chegasse.

Regina estava com eles.

Lucía escreveu duas palavras num papel e mostrou a Adriana: CONFIRME LOCAL.

—Eu não consigo voltar pela entrada principal —disse Adriana.— Todo mundo está me procurando.

—Eu mando alguém buscar você.

—Não.

Ela deixou a voz tremer de propósito.

—Só me diz onde vocês estão.

Julián percebeu a armadilha.

—Onde você está, Adriana?

A doçura desapareceu.

Ela encerrou a ligação.

Durante alguns segundos, nenhuma das duas falou.

Então o telefone começou a tocar.

Julián.

Adriana não atendeu.

Logo depois veio uma mensagem.

VOLTE ANTES QUE VOCÊ PI0RE TUDO.

Não dizia antes que eu morra.

Não dizia antes que seja tarde para o transplante.

Dizia antes que você piore tudo.

Lucía fotografou a tela.

—Agora ele sabe que você desconfia.

—E Regina continua lá.

Nesse momento, outra chamada apareceu.

Número desconhecido.

Adriana hesitou, mas atendeu.

Do outro lado, ninguém falou imediatamente.

Depois veio uma respiração curta.

—Adriana?

Era Regina.

Ela parecia estar falando quase sem abrir a boca.

—Onde você está? —perguntou Adriana.

—Mamãe disse que você teve um surto.

—Regina, escuta o que eu vou dizer. Julián nunca teve insuficiência renal.

—O quê?

—Não discute comigo agora. Só me responde: onde você está?

Regina respirou fundo.

—No hospital.

Adriana fechou os olhos.

—Por quê?

—Beltrán quer repetir meus exames. Disse que, se você não voltar, talvez exista outro procedimento que possa manter Julián vivo.

A frase confirmou tudo.

Ofelia não estava procurando apenas uma substituta.

Já a tinha levado até o mesmo lugar.

—Não deixa ninguém aplicar nada em você —disse Adriana.— Não assina nada e não come nem bebe o que oferecerem.

Regina soltou uma pequena risada nervosa.

—Você está me assustando.

—É para ficar assustada.

Adriana contou apenas o necessário: os exames falsificados, a caixa para transporte cardíaco e a certidão preparada antes da cirurgia.

Do outro lado, Regina permaneceu em silêncio.

Quando finalmente respondeu, sua voz estava diferente.

—Isso é impossível.

—Eu também achei.

—Minha mãe ofereceu o próprio rim.

—E foi descartada.

—Porque tem pressão alta.

—Foi isso que Beltrán disse.

A dúvida entrou no silêncio de Regina.

Adriana sabia exatamente o que a irmã de Julián estava sentindo, porque poucas horas antes ela própria havia usado cada lembrança de carinho para tentar negar aquilo que estava diante dos seus olhos.

Então Regina disse algo que Adriana não esperava.

—Tem uma coisa que nunca fez sentido.

—O quê?

—Quando fiz os exames, Beltrán não deixou que eu pegasse uma cópia. Disse que Julián ficaria arrasado se visse que eu não era compatível.

Adriana olhou para Lucía.

Mais uma mentira tinha sido plantada meses antes.

—Regina, você consegue sair daí?

—Minha mãe está no corredor.

—Então não confronte ninguém. Só saia.

Nesse instante, uma voz surgiu ao fundo da ligação.

Ofelia.

—Com quem você está falando?

Regina desligou.

Adriana tentou ligar de volta.

Nada.

Tentou novamente.

O aparelho estava desligado.

A partir daquele momento, a pergunta deixou de ser se Regina corria perigo.

A questão era quanto tempo elas tinham.

Lucía queria que Adriana permanecesse escondida, mas Adriana recusou.

Não atravessara um hospital dentro de um recipiente de resíduos para passar o resto da noite esperando alguém decidir o destino da única pessoa que talvez ainda pudesse impedir o plano por dentro.

Ela vestiu novamente o uniforme cinza.

—Você não pode voltar do mesmo jeito que saiu —disse Lucía.

—Eu não vou entrar para me esconder. Vou entrar para tirar Regina de lá.

Lucía mostrou a fotografia da caixa térmica.

—E se eles disserem que isso é falso?

Adriana apontou para o detalhe que Marisol mostrara antes da fuga: o documento que registrava a causa de sua morte antes mesmo da sedação.

—Então eles vão ter de explicar por que minha morte estava pronta enquanto eu ainda estava viva.

As duas voltaram para perto do hospital, mas não chegaram pela entrada principal.

Adriana reconhecia o acesso de serviço por onde o caminhão havia saído e sabia que os seguranças agora estariam procurando uma mulher sozinha, desesperada, talvez ainda usando roupas hospitalares.

Não esperariam que ela voltasse acompanhada e por vontade própria.

Antes de se aproximarem, Adriana enviou para Julián uma única mensagem.

EU VOLTO. MANDA A REGINA DESCER.

A resposta veio quase imediatamente.

VENHA SOZINHA.

Aquilo bastou.

Ele não perguntou por quê.

Não tentou impedir Regina de se envolver.

Queria Adriana de volta e isolada.

—Ele ainda acha que pode controlar você —disse Lucía.

Adriana guardou o telefone.

—Foi assim que ele conseguiu chegar tão longe.

Poucos minutos depois, Regina apareceu perto da saída lateral.

Estava acompanhada de Ofelia.

A sogra segurava o braço da filha com força.

Quando avistou Adriana, seu rosto passou primeiro pelo choque e depois por uma expressão que Adriana reconheceu imediatamente.

Raiva.

A mesma raiva que ouvira em sua voz quando fugia pelo subsolo.

—Graças a Deus —disse Ofelia, caminhando na direção dela.— Você não sabe o que fez com meu filho.

Adriana não respondeu.

Olhou para Regina.

—Vem comigo.

Ofelia apertou ainda mais o braço da filha.

—Ela não vai a lugar nenhum.

Regina olhou para a mãe.

—Solta.

—Você não sabe do que ela é capaz.

Foi então que Adriana entendeu o que precisava fazer.

Não convencer Ofelia.

Não discutir com Julián.

Não implorar para que Regina acreditasse nela.

Ela retirou a fotografia dobrada do bolso e entregou diretamente à cunhada.

Regina olhou primeiro para o nome de Adriana.

Depois para o tipo sanguíneo.

Depois para a certidão preparada antecipadamente.

Seu rosto perdeu a cor.

—O que é isso?

Ofelia tentou arrancar o papel de sua mão.

Adriana segurou seu pulso.

—Não toca.

Durante cinco anos, Adriana nunca levantara a voz para a sogra.

Ofelia sempre ocupara os espaços da família como se tivesse autoridade natural para decidir quem precisava de ajuda, quem estava exagerando, quem podia entrar e quem devia calar.

Naquela noite, pela primeira vez, Adriana viu hesitação em seus olhos.

Regina virou a folha.

—Mãe, por que existe uma certidão de morte da Adriana?

Ofelia não respondeu à pergunta.

—Você não entende o que está acontecendo.

—Então explica.

—Seu irmão está em perigo.

—Ele está doente ou não?

Ofelia olhou para Adriana como se a resposta estivesse nela.

Esse segundo de silêncio destruiu mais do que qualquer confissão.

Regina soltou o braço da mãe.

—Ele não está doente.

Ofelia baixou a voz.

—Regina, entra comigo.

—Ele não está doente?

Dessa vez, Ofelia não tentou negar.

Disse apenas:

—Seu irmão cometeu erros.

Adriana sentiu uma náusea subir pelo estômago.

Era assim que Ofelia chamava aquilo.

Erros.

Uma dívida de milhões.

Exames falsificados.

Uma cirurgia preparada para matar uma mulher saudável.

Um documento antecipando sua morte.

E agora Regina sendo levada para novos exames como substituta.

—Você sabia —disse Adriana.

Ofelia a encarou.

—Eu estava tentando salvar meu filho.

Regina deu um passo para trás.

—De quê?

Ofelia pareceu perceber tarde demais que estava falando na frente das duas.

—De pessoas que vocês não conhecem.

Adriana finalmente compreendeu uma parte que ainda não encaixava.

Julián não planejava apenas ganhar dinheiro com a morte dela.

Também precisava pagar a dívida que o alcançara.

Mas Ofelia havia transformado o desespero do filho em justificativa para escolher quem seria sacrificado no lugar dele.

Primeiro Adriana.

Depois, se necessário, Regina.

—Você me trouxe aqui sabendo? —perguntou Regina.

Ofelia começou a chorar.

—Eu não deixaria acontecer nada com você.

Regina ergueu a fotografia.

—Foi exatamente isso que ele dizia para ela.

A frase atingiu Adriana como uma lembrança física.

Prefiro morrer a colocar você em risco.

Julián tinha usado aquelas palavras para transformar o amor dela em consentimento.

Ofelia usava a mesma lógica agora para pedir confiança à filha.

Antes que qualquer uma pudesse responder, Julián apareceu na passagem lateral.

Não usava máscara de oxigênio.

Não estava curvado.

Não parecia um homem morrendo.

Caminhava depressa e com firmeza.

Regina ficou olhando para ele como se tivesse encontrado um desconhecido usando o rosto do irmão.

Julián percebeu imediatamente que a encenação tinha acabado.

—Adriana, vem comigo.

Ela não se mexeu.

—Você está muito confusa.

—Então mostra seus exames verdadeiros para a Regina.

Julián olhou para a irmã.

Depois para a mãe.

—O que vocês contaram para ela?

—Nada —respondeu Adriana.— Foi você quem contou.

Ela apontou para o próprio corpo dele.

—Você acabou de atravessar esse corredor correndo.

Julián tentou se aproximar.

Regina entrou entre os dois.

—Para.

Ele ficou imóvel.

Talvez porque jamais tivesse imaginado que a irmã escolheria ficar ao lado de Adriana.

—Regina, isso não tem nada a ver com você.

—Então por que eu estou aqui para repetir exames?

A pergunta mudou tudo.

Julián olhou para Ofelia.

Ofelia olhou para o chão.

Nenhum deles conseguiu inventar uma resposta rápido o suficiente.

Lucía se aproximou sem levantar a voz.

—Adriana já preservou os documentos que recebeu e a mensagem em que você exigiu que ela voltasse sozinha.

Julián finalmente percebeu que a situação não podia mais ser recuperada com uma história sobre uma esposa emocionalmente instável.

Sua expressão endureceu.

—Vocês não fazem ideia de onde estão se metendo.

Adriana sustentou o olhar dele.

—Eu sei exatamente onde me colocaram.

Tirou do bolso a pulseira hospitalar que Marisol havia arrancado antes da fuga.

Ela a conservara sem perceber, presa entre as dobras do uniforme.

O nome de Adriana ainda estava impresso ali.

Até poucas horas antes, aquela pulseira significava que ela era uma paciente.

Agora parecia a etiqueta de um produto que tinha escapado antes da entrega.

Julián viu o objeto e desviou os olhos.

Foi a reação que Adriana precisava.

Não uma confissão perfeita.

Não uma frase cinematográfica.

Apenas o instante em que ele deixou de fingir preocupação e passou a calcular o que ainda podia perder.

Adriana colocou a pulseira na mão de Regina junto com a fotografia.

—Guarda isso.

Ofelia começou a pedir que todos parassem, dizendo que ainda era possível resolver a situação, mas ninguém mais estava discutindo nos termos dela.

Regina não voltou para dentro.

Adriana também não.

E Julián já não tinha duas mulheres isoladas para manipular separadamente.

Nos dias seguintes, a versão que ele publicara começou a desmoronar pelo mesmo lugar em que tentara construí-la.

O vídeo no qual chamava Adriana de instável continuava disponível, mas agora era confrontado com documentos que mostravam que a morte dela havia sido registrada antecipadamente como consequência de uma cirurgia que nunca deveria envolver seu coração.

As assinaturas feitas sob a justificativa de autorizações médicas também passaram a ser examinadas uma a uma.

Entre elas estava a documentação relacionada aos seguros mencionados por Marisol.

A narrativa do marido moribundo tornou-se cada vez mais difícil de sustentar quando os registros apresentados por Beltrán começaram a contradizer os exames independentes posteriores de Julián.

Regina também descobriu que o resultado usado para excluí-la como doadora não correspondia ao que lhe haviam dito verbalmente.

Aquilo confirmou uma verdade especialmente cruel: os testes nunca tinham servido apenas para encontrar compatibilidade.

Serviam para mapear opções.

Adriana fora escolhida primeiro porque sua confiança em Julián era maior e porque, como esposa, era mais fácil convencê-la de que colocar o próprio corpo em risco era uma prova de amor.

Regina tinha sido mantida como alternativa.

Ofelia soubera o suficiente para entender que algo terrível seria feito com Adriana.

Quando a primeira tentativa fracassou, permitira que a filha fosse chamada novamente.

Essa foi a parte que Regina mais demorou para aceitar.

Não que Julián tivesse mentido.

Não que Beltrán tivesse falsificado exames.

Mas que a própria mãe tivesse medido o valor das duas mulheres de acordo com o que cada uma podia oferecer para manter o filho longe das consequências das próprias escolhas.

Marisol também confirmou que a preparação para a retirada do coração de Adriana havia sido organizada antes de sua chegada ao centro cirúrgico.

Ela carregava a culpa de ter permanecido calada em um caso anterior e, por isso, naquela noite decidira romper o mecanismo no único momento em que ainda era possível impedir outra morte.

Adriana nunca perguntou quem fora a pessoa anterior.

Não precisava saber todos os detalhes para entender por que a voz de Marisol tremia quando disse: porque, da última vez, eu fiquei calada.

Durante muito tempo, Adriana acreditou que sua fuga começara quando vestiu o uniforme da limpeza e empurrou um carrinho pelo corredor de serviço.

Depois percebeu que não.

A fuga verdadeira começara segundos antes, quando decidiu acreditar em uma verdade horrível contada por uma desconhecida em vez de continuar acreditando numa mentira confortável repetida por alguém que amava.

Essa escolha salvou sua vida.

Mas não devolveu imediatamente a mulher que ela era antes.

Por meses, Adriana acordava lembrando da carta que escrevera para Julián antes da cirurgia.

Nela, pedira desculpas caso alguma coisa desse errado.

Dissera que faria tudo novamente porque não conseguia imaginar uma vida em que tivesse escolhido se proteger enquanto ele morria.

A carta nunca chegou às mãos dele.

Lucía conseguiu recuperá-la entre os pertences separados antes do procedimento.

Quando finalmente a entregou a Adriana, perguntou se ela queria rasgá-la.

Adriana respondeu que não.

Guardou o papel.

Não como lembrança de Julián.

Como prova da pessoa que ela própria tinha sido quando entrou naquele hospital.

Uma mulher capaz de oferecer parte do próprio corpo porque acreditava estar salvando alguém que amava.

O crime não estava nessa confiança.

Estava em quem decidiu usá-la como ferramenta.

Regina levou mais tempo para voltar a falar com Ofelia.

Quando a mãe pediu uma oportunidade para explicar que tudo havia sido feito por medo de perder Julián, Regina fez apenas uma pergunta:

—Em que momento você decidiu que perder a Adriana seria aceitável?

Ofelia não conseguiu responder.

Regina então fez a segunda:

—E em que momento eu virei a próxima opção?

Também não houve resposta.

Aquilo encerrou a conversa.

Julián tentou sustentar por algum tempo que nunca soubera que Adriana seria morta e que acreditava estar participando apenas de uma fraude para resolver suas dívidas.

A versão entrou em conflito com suas próprias mensagens, com os documentos preparados antecipadamente e com o fato de ele ter tentado conduzir Adriana de volta ao hospital imediatamente depois da fuga.

O homem que publicamente afirmara estar morrendo porque a esposa o abandonara acabou tendo de explicar por que sua principal preocupação, quando conseguiu falar com ela, era descobrir sua localização.

Adriana nunca mais assistiu ao vídeo inteiro.

Não precisava.

Bastava lembrar do último segundo.

Ofelia ao fundo, acreditando estar fora do enquadramento, dizendo para prepararem a segunda doadora.

Durante semanas, Adriana pensou que aquela frase representava apenas o momento em que descobrira que Regina estava em perigo.

Mais tarde entendeu que carregava outra verdade.

Para aquelas pessoas, nunca existira uma doadora específica.

Existiam corpos substituíveis.

Se uma mulher escapasse, procurariam outra.

Se uma história falhasse, inventariam outra.

Se alguém fizesse perguntas, chamariam essa pessoa de confusa, ingrata ou instável.

Foi por isso que Adriana se recusou a transformar o que aconteceu numa história sobre vingança contra Julián.

O ponto decisivo não foi vê-lo perder o controle da narrativa.

Foi impedir que ele continuasse escolhendo quem pagaria por seus erros.

Algum tempo depois, Regina encontrou Adriana para devolver a pulseira que guardara naquela noite.

O plástico estava amassado e a impressão começava a desaparecer.

—Achei que você fosse querer isso —disse ela.

Adriana segurou a pulseira por alguns segundos.

Seu nome ainda podia ser lido.

Ela se lembrou de Marisol arrancando o objeto de seu braço e dizendo que, para aquelas pessoas, ela não era uma paciente.

Era mercadoria.

Adriana abriu uma gaveta, colocou a pulseira ao lado da carta escrita para Julián e fechou novamente.

Duas coisas que tinham recebido significados completamente diferentes naquela noite.

A carta tinha sido escrita quando ela acreditava que amor significava estar disposta a morrer por alguém.

A pulseira tinha sido colocada nela por pessoas que acreditavam que esse amor podia ser convertido em dinheiro.

Nenhuma das duas definiria sua vida dali em diante.

Meses depois, Adriana ainda pensava na última conversa sincera que imaginava ter tido com Julián antes da cirurgia.

Ele segurara suas mãos, chorara e dissera:

—Prefiro morrer a colocar você em risco.

Na época, aquela frase fora o motivo pelo qual ela confiara nele ainda mais.

Depois de tudo, Adriana finalmente entendeu o que havia de mais cruel naquela promessa.

Julián nunca estivera disposto a morrer por ela.

Ele só precisava convencê-la de que estaria disposto.

Porque, assim, quando chegasse a hora, seria Adriana quem aceitaria entrar voluntariamente no centro cirúrgico.

Naquela noite, porém, ela entrou acreditando que estava salvando o coração do marido.

E saiu carregando o único coração que realmente precisava salvar.

O próprio.

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