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Cinco Dias Após o Divórcio, Rafael Precisou da Assinatura de Mariana-naomi

No dia do nosso divórcio, Rafael Mendes jogou o molho de chaves sobre a mesa diante de mim como se aquele pequeno objeto pudesse encerrar, sozinho, tudo o que havíamos construído durante três anos.

Seu olhar estava tão frio que, por alguns segundos, tive a sensação de que eu não era a mulher com quem ele havia dividido uma casa, planos, contas e noites inteiras discutindo o futuro.

Eu parecia uma desconhecida sentada do outro lado da mesa.

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— Não vamos prolongar isso.

Fiquei olhando para ele por alguns segundos.

Então ri.

Não porque houvesse alguma coisa engraçada naquele momento, mas porque meu corpo encontrou aquela reação antes que eu pudesse escolher outra.

— Está bem.

Rafael pareceu esperar alguma pergunta.

Talvez uma acusação.

Talvez lágrimas.

Talvez uma última tentativa de fazê-lo mudar de ideia.

Mas eu não fiz nada disso.

Não perguntei quando ele havia deixado de me amar, não implorei por explicações e não levantei a voz.

Assinei as poucas folhas da certidão de divórcio e tentei convencer a mim mesma de que três anos de casamento realmente podiam terminar daquela maneira: duas assinaturas, algumas chaves sobre uma mesa e um homem que já parecia ter outra vida esperando por ele.

Rafael ajeitou o punho da camisa azul-escura que eu havia comprado para seu aniversário no ano anterior.

Durante meses, ele dissera que não gostava daquela camisa.

Falava que a cor era séria demais, que o tecido não era confortável, que eu havia errado na escolha.

Naquele dia, porém, ele a usava como se tivesse sido feita para ele.

E, olhando para Rafael sentado diante de mim, tive uma impressão estranha: a camisa parecia servir melhor à liberdade dele do que havia servido ao nosso casamento.

Ele terminou de ajeitar o punho e falou com uma tranquilidade que me incomodou mais do que qualquer grito teria incomodado.

— Mariana Alves, de agora em diante, cada um cuida do próprio caminho.

Meu nome inteiro na boca dele criou uma distância que não existia semanas antes.

Ainda assim, eu apenas respondi:

— Está bem.

Foi tudo.

Quando saímos, Rafael ainda me acompanhou até a calçada e me lembrou de que minhas coisas estavam separadas no quarto de hóspedes.

Disse que eu poderia ficar com as chaves por enquanto, até terminar de retirar o que era meu.

Foi então que acrescentou uma frase que, naquele instante, pareceu apenas uma questão burocrática entre duas pessoas que já não queriam prolongar o contato.

— E resolva logo a questão do apartamento. Quando precisar da minha assinatura, avise com antecedência.

Eu concordei e guardei as chaves.

O apartamento da Vila Mariana havia sido comprado pouco depois do casamento.

Na época, a compra pareceu uma confirmação de que estávamos construindo alguma coisa definitiva.

Usamos praticamente todas as nossas economias na entrada e assumimos um financiamento considerável.

Cada escolha dentro daquele imóvel carregava uma pequena parte de nós.

Eu escolhera os revestimentos depois de comparar opções por dias.

Escolhera as luminárias porque queria que a sala tivesse uma luz mais acolhedora à noite.

Passei tempo demais decidindo as cortinas porque imaginava que aquele lugar seria nossa casa por muitos anos.

Quando finalmente recebemos o apartamento, ainda havia caixas espalhadas por todos os lados.

Certa vez, sentei no chão da sala e apontei para o quarto menor.

— Um dia esse pode ser o quarto do nosso filho.

Rafael riu.

— Você pensa longe demais.

Na época, eu também ri.

Agora, lembrando daquela conversa, percebia que talvez ele tivesse razão por um motivo completamente diferente daquele que eu imaginara.

Eu havia pensado longe demais porque acreditara que existiria um futuro para nós.

No acordo do divórcio, ficou determinado que Rafael permaneceria com aquele imóvel e me pagaria metade do valor de mercado dentro de quinze dias.

No papel, parecia simples.

Ele ficaria com o apartamento.

Eu receberia minha parte.

Depois disso, não haveria necessidade de manter qualquer ligação entre nós além do mínimo necessário para encerrar as últimas pendências.

Era nisso que eu acreditava quando coloquei as chaves na bolsa.

Eu ainda não sabia que havia outro imóvel envolvido na vida de Rafael.

E muito menos que esse outro apartamento transformaria uma separação aparentemente resolvida em algo bem mais complicado.

Do outro lado da rua, um carro preto aguardava.

Eu teria passado direto se o vidro do passageiro não tivesse descido naquele momento.

Foi então que vi Camila Duarte.

Ela estava sentada no carro com a maquiagem impecável e um sorriso doce demais para parecer inocente diante da situação.

Não precisei perguntar quem ela era.

Também não precisei ouvir uma explicação de Rafael.

A maneira como ele mudou assim que se aproximou do carro respondeu o suficiente.

A frieza que havia mantido comigo desapareceu.

Os ombros relaxaram.

Sua expressão se suavizou.

Era como se o homem que acabara de me dizer que cada um deveria cuidar do próprio caminho finalmente tivesse chegado ao caminho que desejava seguir.

Rafael entrou no carro sem olhar para trás.

Eu poderia ter ficado parada na calçada observando os dois irem embora.

Poderia ter tentado descobrir havia quanto tempo aquilo existia.

Poderia ter ligado para alguém, chorado ou exigido respostas que já não mudariam a assinatura que eu havia colocado no papel minutos antes.

Em vez disso, fiz o mesmo que ele havia feito.

Olhei para a frente.

Peguei meu celular e procurei o voo mais próximo saindo de Congonhas para Florianópolis.

Quando encontrei uma opção, comprei a passagem.

A confirmação apareceu na tela pouco depois, e aquela mensagem simples me deu uma sensação de encerramento que nenhum documento havia conseguido dar.

Eu sairia dali.

Precisava de distância suficiente para não passar os dias tentando montar um quebra-cabeça que talvez nunca tivesse uma resposta satisfatória.

Rafael podia amar quem quisesse.

Podia morar com quem quisesse.

Podia começar uma nova vida onde quisesse.

E eu faria o mesmo com a minha.

Durante a viagem, tentei não pensar no apartamento da Vila Mariana, nas caixas que ainda precisavam ser retiradas ou nas poucas formalidades que restavam.

O acordo determinava um prazo de quinze dias para que Rafael me pagasse metade do valor de mercado do imóvel.

Isso ainda teria de ser resolvido.

Mas, naquele momento, eu via aquilo apenas como o último elo financeiro entre nós.

Uma obrigação temporária.

Nada além disso.

Em Florianópolis, comecei a reorganizar os próximos dias sem Rafael no centro de tudo.

Havia uma estranha liberdade em perceber que eu não precisava mais calcular minhas escolhas considerando os horários, as opiniões ou os planos dele.

Ao mesmo tempo, pequenos hábitos me lembravam que três anos não desapareciam simplesmente porque duas pessoas haviam assinado um papel.

Às vezes eu pegava o celular por impulso antes de lembrar que não havia motivo para mandar mensagem.

Em outros momentos, pensava nas minhas coisas ainda no quarto de hóspedes ou no molho de chaves que Rafael deixara comigo.

Mas eu não liguei para ele.

Rafael havia sido muito claro.

Cada um cuidaria do próprio caminho.

Eu pretendia respeitar exatamente isso.

Cinco dias depois do divórcio, enquanto eu tentava seguir em frente a mais de setecentos quilômetros dali, Rafael e Camila estavam fazendo planos bastante diferentes.

Os dois entraram animados em um Cartório de Registro de Imóveis para regularizar a documentação do apartamento onde pretendiam começar a nova vida juntos.

Para Rafael, aquela visita deveria ser apenas mais uma etapa prática do recomeço que escolhera.

O divórcio estava assinado.

Mariana estava longe.

Camila estava ao lado dele.

E o apartamento que os dois pretendiam usar na nova fase parecia ser a confirmação de que tudo havia se encaixado exatamente como queriam.

Só que a conferência dos dados demorou mais do que esperavam.

A funcionária permaneceu diante do computador durante vários minutos.

Rafael aguardou.

Camila também.

Então a funcionária tocou na tela e voltou a conferir as informações.

Quando finalmente falou, a frase atingiu exatamente o ponto que Rafael acreditava já ter deixado para trás.

— Senhor Rafael, o sistema mostra que o imóvel registrado em nome da senhora Camila também tem o senhor como coproprietário. Como esse bem não consta na partilha do seu divórcio, será necessário confirmar e regularizar a situação antes de continuarmos.

Aquela informação alterava completamente o que deveria ser uma simples regularização.

O apartamento não aparecia apenas relacionado a Camila.

Rafael também constava como coproprietário.

E aquele patrimônio não tinha sido incluído na partilha do divórcio que ele e Mariana haviam acabado de concluir cinco dias antes.

O sorriso de Rafael desapareceu.

Camila ficou pálida ao lado dele.

Por alguns segundos, a nova vida que os dois pareciam tão ansiosos para organizar esbarrou diretamente na vida que Rafael acreditava já ter encerrado.

Havia agora uma questão que não poderia ser resolvida apenas entre ele e Camila.

Mariana voltava a fazer parte do problema.

Não por escolha dela.

Não porque tivesse procurado Rafael.

Não porque tivesse tentado interferir na nova relação.

Mas porque o divórcio recém-assinado e a existência daquele segundo imóvel haviam se encontrado no pior momento possível para ele.

Enquanto Rafael tentava entender o que precisaria fazer a seguir, eu estava longe dali e não fazia ideia do que havia acabado de acontecer.

Meu celular começou a acender.

Uma chamada.

Depois outra.

Na primeira vez, não dei importância.

Eu não estava esperando notícias de Rafael e, depois da maneira como ele havia encerrado nossa relação, não havia razão para imaginar que estivesse ligando com urgência.

O telefone parou.

Pouco depois, voltou a tocar.

Quando olhei novamente para a tela, havia sete chamadas perdidas.

Todas vinham do mesmo número.

Rafael.

Fiquei encarando o nome dele durante alguns segundos.

Cinco dias antes, aquele homem havia jogado as chaves sobre a mesa, me encarado como se eu fosse uma desconhecida e dito que não deveríamos prolongar nada.

Na calçada, havia reforçado a ideia de que cada um deveria cuidar do próprio caminho.

Depois entrara no carro onde Camila o esperava e partira sem olhar para trás.

Eu havia levado as palavras dele a sério.

Tinha embarcado para Florianópolis e começado a fazer exatamente o que ele pedira: cuidar da minha vida.

Agora Rafael parecia incapaz de passar alguns minutos sem tentar falar comigo.

O celular tocou pela oitava vez.

Dessa vez, peguei o aparelho.

Meu primeiro impulso foi deixar a ligação terminar como as anteriores.

Não havia nenhuma obrigação emocional entre nós que justificasse aquela insistência.

Ainda assim, sete chamadas perdidas em sequência diziam que alguma coisa tinha mudado.

Deixei tocar.

Uma vez.

Duas.

Quase até a ligação cair.

Então atendi.

Não disse o nome dele.

Não perguntei se Camila estava por perto.

Não mencionei o divórcio.

Apenas esperei.

Do outro lado da linha, Rafael não perdeu tempo com cumprimentos.

A segurança fria que ele demonstrara cinco dias antes havia desaparecido de sua voz.

— Mariana, não desliga. Temos um problema.

Fiquei com o telefone junto ao ouvido e olhei para o molho de chaves que ainda estava comigo.

As mesmas chaves que, poucos dias antes, tinham parecido representar apenas o fim de uma casa e o encerramento de um casamento.

Agora, pela primeira vez desde que saí de São Paulo, compreendi uma coisa simples.

O problema que Rafael dizia ser nosso não havia começado comigo.

Eu sequer sabia da existência daquele segundo apartamento.

Ele havia construído o novo caminho sem mim, escolhido Camila sem mim e entrado naquele cartório acreditando que poderia organizar a nova vida sem voltar a olhar para trás.

Mas cinco dias depois de me abandonar, o homem que dissera que cada um deveria cuidar do próprio caminho precisava justamente que eu voltasse a olhar para o dele.

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