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A Chave Reserva Abriu Uma Ferida Que Lauren Não Podia Mais Ignorar-milee

Na manhã seguinte, antes que Ethan saísse para o trabalho, perguntei o que Diane quis dizer quando falou que o quarto de hóspedes precisava ser esvaziado “para a família”.

Ele demorou alguns segundos para responder.

— Minha mãe acha que o quarto devia ficar disponível quando eles precisarem.

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— Eles quem?

Ethan passou a mão pelo cabelo.

— Meus pais. Minha irmã, às vezes. Parentes que venham visitar.

— Então você sabia disso também.

— Não desse jeito.

A resposta veio depressa demais.

Fiquei olhando para ele até Ethan desviar os olhos.

— O que significa “não desse jeito”?

Ele pegou as chaves do carro na bancada e ficou girando o chaveiro entre os dedos.

— Minha mãe comentou algumas vezes que, depois que a gente casasse, seria bom ter um lugar onde a família pudesse ficar sem precisar perguntar toda vez.

A cozinha pareceu menor.

Não por causa de Diane.

Por causa dele.

— E o que você respondeu?

Ethan apertou os lábios.

— Eu disse que provavelmente não seria um problema.

Pronto.

Aquela era a parte que faltava.

Diane não tinha simplesmente decidido invadir nossa casa porque era uma mulher inconveniente que não entendia limites.

Ela tinha recebido sinais de que os limites não eram reais.

De Ethan.

— Antes ou depois de você me dizer que concordava comigo sobre a chave?

Ele não respondeu.

— Ethan.

— Antes.

Soltei devagar o ar que estava prendendo.

— Então, quando você disse que a casa era nossa, já tinha prometido a eles que poderiam entrar e usar um dos quartos.

— Eu não prometi isso.

— Você disse que não seria um problema.

— Porque eu achei que não seria.

— Para quem?

Ele me encarou.

Dessa vez, não havia resposta pronta.

Peguei meu celular e coloquei sobre a bancada.

— Quero que você ligue para sua mãe.

— Agora?

— Agora.

— Lauren, eu tenho que trabalhar.

— Ontem sua mãe estava com meu extrato bancário na mão. Hoje você está me contando que ela acredita ter direito a um quarto da nossa casa. Cinco minutos não vão destruir sua carreira.

Ethan se irritou.

Vi pelo modo como os dedos dele se fecharam ao redor das chaves.

Mas, em vez de discutir, ele pegou o próprio celular.

Diane atendeu no segundo toque.

— Bom dia, querido.

A voz dela estava tão alegre que, por um instante, quase parecia que nada tinha acontecido.

Ethan ativou o viva-voz.

— Mãe, precisamos conversar sobre ontem.

Silêncio.

Não um silêncio de surpresa.

Um silêncio de cálculo.

— Se Lauren está chateada por causa da papelada, eu já expliquei que estava procurando a garantia.

Ethan olhou para mim.

— A garantia não estava nas gavetas dela.

Outra pausa.

— Você não estava lá, Ethan.

— Lauren estava.

— Ah, então é isso? Agora tudo que ela diz vira verdade e eu tenho que me defender?

A mudança foi instantânea.

Em menos de vinte segundos, Diane tinha deixado de ser a pessoa encontrada dentro das minhas gavetas e se transformado na vítima de uma acusação.

Ethan começou a andar pela cozinha.

— Mãe, eu só quero a chave de volta.

Diane não respondeu imediatamente.

Quando falou, sua voz estava diferente.

— Você está falando sério?

— Sim.

— Depois de tudo que fizemos por você?

Ethan fechou os olhos.

Eu conhecia aquela expressão agora.

Era o rosto de alguém que sabia exatamente qual botão seria apertado e, ainda assim, não sabia como impedir a própria reação.

— Não tem nada a ver com isso.

— Claro que tem. Seu pai e eu ajudamos você a vida inteira, e agora precisamos marcar horário para entrar na casa do nosso próprio filho?

Eu me aproximei do telefone.

— A casa também é minha, Diane.

Ela soltou uma risada curta.

— Eu sabia que você estava ouvindo.

— Quero minha chave de volta.

— Não é sua chave.

Olhei para Ethan.

Até ele pareceu surpreso.

— Como é?

— É uma cópia da chave da casa do meu filho.

Ethan apoiou uma das mãos na bancada.

— Mãe, a casa é da Lauren também.

— E ninguém está dizendo que não é. Mas isso está ficando ridículo. Família não deveria precisar passar por uma inspeção para visitar família.

— Entrar no meu quarto e abrir minhas coisas não é uma visita.

— Você está distorcendo tudo.

— Então devolva a chave.

Diane respirou fundo.

— Richard vai levar mais tarde.

— Não — respondi. — Quero que vocês dois não entrem aqui sem que nós dois saibamos e concordemos.

— “Nós dois”.

Ela repetiu as palavras como se fossem ofensivas.

Então falou com Ethan, não comigo.

— Você entende o que está permitindo que aconteça?

Ele olhou para o telefone.

— O que exatamente estou permitindo?

— Que sua esposa nos trate como invasores.

Eu quase respondi.

Mas Ethan falou primeiro.

— Você entrou sem avisar.

Diane desligou.

Ficamos parados na cozinha.

Ethan parecia abalado, mas não aliviado.

Eu também não estava.

Porque aquela ligação tinha resolvido uma coisa pequena: ele finalmente tinha dito não à mãe.

Mas havia uma coisa muito maior que continuava intacta.

— Quantas cópias existem?

Ethan franziu a testa.

— Uma.

— Você tem certeza?

Ele abriu a boca.

Depois fechou.

— Dei uma para meu pai.

— Você acabou de dizer que deu uma para eles.

— Foi uma cópia.

— Para Richard.

— Sim.

— Então por que Diane estava com ela?

Ethan ficou imóvel.

Foi uma pergunta simples.

A resposta deveria ser simples também.

Não era.

Richard podia ter entregado a chave a Diane naquela manhã.

Ou eles podiam ter feito outra cópia.

E, de repente, percebi como era absurdo discutir quantas versões da minha própria chave estavam circulando entre pessoas que já tinham provado que não respeitariam um pedido verbal.

— Vou trocar a fechadura.

Ethan levantou a cabeça.

— Hoje?

— Hoje.

— Minha mãe disse que vai devolver.

— Isso não importa mais.

— Lauren, trocar a fechadura vai parecer uma provocação.

A frase saiu antes que ele pudesse segurá-la.

Olhei para ele.

— Para quem?

Ethan esfregou o rosto com as duas mãos.

— Você sabe o que eu quis dizer.

— Sei.

E era justamente esse o problema.

Para Ethan, proteger nossa privacidade ainda precisava ser medido pelo quanto aquilo poderia ofender Diane.

Naquela tarde, providenciei a troca do cilindro da porta da frente.

Não fiz escondido.

Mandei uma mensagem para Ethan explicando que a chave antiga deixaria de funcionar e que ele receberia a nova quando chegasse.

Ele respondeu apenas: “Tá.”

Guardei meus documentos novamente na caixa de madeira, mas não consegui fechar a tampa de imediato.

Meu passaporte estava ali.

Os documentos fiscais estavam ali.

As joias que minha avó tinha me deixado estavam ali.

Nada parecia ter sumido.

Ainda assim, a caixa já não parecia a mesma.

Não era o valor das coisas.

Era o conhecimento de que alguém tinha levantado aquela tampa porque acreditava que podia.

Quando Ethan chegou, entreguei a nova chave a ele.

Ele ficou olhando para ela na palma da mão.

— Você fez mesmo.

— Fiz.

— Minha mãe vai surtar.

— A porta não é dela.

— Eu sei.

— Você sabe mesmo?

Ele ergueu os olhos.

Não respondi por ele.

Naquela noite, quase não conversamos.

No dia seguinte, às 10h17, alguém tentou abrir a porta da frente.

Eu estava trabalhando no quarto de hóspedes quando ouvi o metal tocar a fechadura.

Uma vez.

Depois outra.

Depois com mais força.

Meu corpo inteiro ficou atento.

Caminhei até a sala e olhei pelo visor.

Diane estava do lado de fora.

Richard estava atrás dela, segurando uma sacola de papel.

Diane tentou a chave mais uma vez.

Então tocou a campainha.

Não abri.

Ela tocou de novo.

Meu celular começou a vibrar.

DIANE.

Deixei tocar.

Logo depois, chegou uma mensagem de Ethan.

“Minha mãe está aí. Você pode abrir? Eles só querem conversar.”

Olhei para a tela.

Digitei uma resposta.

“Eles tentaram entrar com a chave antiga antes de tocar.”

Os três pontinhos apareceram.

Sumiram.

Apareceram de novo.

“Ela disse que esqueceu.”

Ri sem humor.

Não respondi.

Diane bateu na porta.

— Lauren, eu sei que você está aí.

Continuei parada no corredor.

— Isso é infantil.

Richard disse alguma coisa que eu não consegui ouvir.

Diane respondeu mais alto:

— Não. Ela precisa entender que não pode simplesmente nos excluir.

Peguei o telefone e liguei para Ethan.

Ele atendeu quase imediatamente.

— Lauren, por favor, só deixa eles entrarem para a gente acabar com isso.

— Você disse a eles para virem?

— Minha mãe me ligou.

— Você disse a eles para virem?

Silêncio.

— Eu disse que talvez fosse melhor conversar pessoalmente.

Fechei os olhos.

Ali estava outra vez.

Uma decisão sobre nossa casa tomada entre Ethan e os pais dele, com minha participação prevista apenas para depois.

— Você os convidou para uma conversa na nossa casa sem me perguntar.

— Eu não achei que precisava transformar isso numa reunião formal.

— Eles estão tentando entrar com uma chave que deveriam ter devolvido.

— Eu sei.

— Não, Ethan. Você continua dizendo que sabe depois que as coisas acontecem.

Do outro lado da porta, Diane bateu novamente.

— Abre, Lauren!

Ethan ouviu.

— Eu vou sair mais cedo e ir para casa.

— Ótimo.

— Você consegue deixar eles entrarem até eu chegar?

Foi naquele segundo que entendi qual seria minha resposta.

— Não.

Não gritei.

Não expliquei.

Não negociei.

Diane e Richard esperaram quase quarenta minutos do lado de fora antes de irem embora.

Ethan chegou pouco depois.

Entrou rápido, fechou a porta e colocou a pasta sobre o sofá.

— Eles estão furiosos.

— Imagino.

— Minha mãe chorou no carro.

— Ethan, ela tentou usar a chave que você disse que devolveria.

— Eu sei, mas…

— Não tem “mas”.

Ele começou a responder, mas parou.

Aquele pequeno silêncio foi diferente dos anteriores.

Dessa vez, parecia que ele tinha ouvido a própria frase antes de pronunciá-la.

Sentou no sofá.

— Meu pai me ligou depois.

Esperei.

— Ele disse que eu prometi que nada mudaria depois que a gente casasse.

Senti um aperto no estômago.

— Você prometeu isso?

— Não exatamente.

— Ethan.

Ele encarou o chão.

— Quando ficamos noivos, minha mãe estava preocupada que eu fosse me afastar. Eu disse que isso não aconteceria. Que você entendia como nossa família funcionava.

— Eu entendia que vocês eram próximos.

— Eu sei.

— Não entendia que isso significava sua mãe entrando no meu quarto.

— Eu sei.

— Nem que você tomaria decisões com eles e me comunicaria depois.

Ele não respondeu.

Sentei na cadeira em frente ao sofá.

— Quero te fazer uma pergunta, e preciso que você responda sem pensar no que sua mãe vai sentir.

Ethan respirou fundo.

— Tá.

— Se meus pais tivessem uma chave daqui e você encontrasse meu pai vasculhando suas gavetas, eu diria que você precisava aceitar porque minha família é unida?

O rosto dele mudou.

Não dramaticamente.

Foi pior.

Ele apenas ficou envergonhado.

— Não.

— Você deixaria meu pai manter a chave?

— Não.

— Você acharia normal eu convidá-lo para vir conversar aqui depois de você dizer que não queria?

— Não.

Assenti.

Não havia mais nada a demonstrar.

Ethan ficou em silêncio por muito tempo.

Depois tirou a chave nova do bolso e colocou sobre a mesa de centro.

Meu coração apertou.

— O que você está fazendo?

— Eu não sei se mereço que você confie em mim com isso agora.

Não esperava ouvir aquilo.

— Não é sobre merecer uma chave.

— Eu sei.

Ele olhou para o pequeno pedaço de metal entre nós.

— É que eu continuo tratando cada limite seu como se fosse uma coisa que preciso traduzir para meus pais de um jeito que eles consigam aceitar.

Pela primeira vez desde que tudo começara, Ethan estava descrevendo o problema sem me colocar dentro dele como causa.

— E enquanto você faz isso, quem paga sou eu.

— Eu sei.

Dessa vez, quando ele disse aquelas palavras, não senti vontade de corrigi-lo.

Naquela noite, ele ligou para os pais novamente.

Não no viva-voz.

Não comigo ditando frases.

Fiquei na cozinha enquanto ele falava na sala.

Ouvi apenas partes.

— Não, mãe.

Uma pausa.

— Não foi ideia dela. É o que eu estou dizendo.

Outra pausa.

A voz dele ficou mais firme.

— Eu dei a chave sem contar para minha esposa. Eu errei.

Diane falou tão alto do outro lado que consegui ouvir o tom, embora não entendesse as palavras.

Ethan levantou a voz apenas o suficiente para interrompê-la.

— Vocês não vão mais entrar aqui sem convite.

Mais silêncio.

— Porque é a nossa casa.

Nossa.

A palavra que ele tinha usado uma semana antes agora significava alguma coisa diferente.

Quando a ligação terminou, Ethan continuou sentado no sofá por alguns minutos.

Depois veio até a cozinha.

— Meu pai quer vir amanhã conversar comigo sozinho.

— Aqui?

Ethan balançou a cabeça.

— Não. Vou encontrar com ele fora daqui.

Foi uma decisão pequena.

Mas, depois de tantos dias em que cada escolha parecia começar com Diane e terminar dentro da minha casa, percebi a diferença imediatamente.

No dia seguinte, Ethan voltou desse encontro com o rosto cansado.

Colocou a carteira sobre a bancada e ficou parado diante de mim.

— Meu pai disse que você está me afastando deles.

Eu não respondi.

— Depois ele disse uma coisa que eu nunca tinha percebido.

— O quê?

— Disse que minha mãe sempre foi assim e que era mais fácil deixar do que discutir.

Olhei para Ethan.

— E?

— E eu percebi que foi exatamente isso que fiz com você.

Ele puxou uma cadeira.

— Passei anos achando que ceder para ela mantinha a paz. Mas não mantinha. Só fazia outra pessoa pagar o preço da paz que eu queria.

A frase ficou entre nós.

Não consertava tudo.

Não apagava o momento em que encontrei Diane no meu quarto.

Não desfazia a mentira sobre a chave.

Mas era a primeira vez que Ethan enxergava a cadeia inteira, não apenas o último conflito.

Naquela tarde, Richard apareceu sozinho.

Dessa vez, tocou a campainha.

E esperou.

Ethan estava em casa.

Nós dois fomos até a porta.

Quando ele abriu, Richard permaneceu do lado de fora.

Na mão direita, havia uma chave de latão.

A antiga.

— Sua mãe não quis vir — disse ele.

Ethan assentiu.

Richard estendeu a chave para ele.

— Aqui.

Ethan não pegou.

Olhou para mim.

Eu também não peguei.

Richard franziu a testa.

— O que foi agora?

Ethan finalmente estendeu a mão.

— Quantas cópias vocês fizeram?

Richard ficou ofendido imediatamente.

— Você está me chamando de mentiroso?

— Estou fazendo uma pergunta.

Richard apertou a mandíbula.

— Sua mãe fez outra porque vivia esquecendo onde deixava essa.

Ethan fechou os olhos por um segundo.

Então riu, mas não havia humor algum.

Eu senti o mesmo.

Toda a discussão sobre devolver “a chave” tinha sido inútil desde o começo.

— Onde está a outra? — perguntou Ethan.

— Com sua mãe.

— Não importa mais. A fechadura foi trocada.

Richard me lançou um olhar rápido.

— Claro que foi.

Ethan percebeu.

— Pai.

— O quê?

— Não coloca isso nela.

Richard soltou o ar pelo nariz.

— Desde que você se casou, parece que tudo virou regra.

Ethan segurou a velha chave na mão.

— Talvez algumas coisas devessem ter sido regra antes.

Richard ficou parado por mais alguns segundos.

Depois desceu os degraus sem se despedir.

Ethan fechou a porta.

Ficamos olhando para a chave antiga.

Era tão pequena.

Quase ridícula.

Um objeto de poucos centímetros tinha revelado uma estrutura que nenhum de nós queria admitir que existia.

— O que fazemos com isso? — perguntou Ethan.

Pensei em dizer para jogar fora.

Pensei em colocar numa gaveta.

Pensei até em devolver para Diane como uma espécie de mensagem.

Mas nenhum daqueles gestos parecia certo.

Peguei a caixa de madeira do quarto e trouxe para a cozinha.

Ethan me observou enquanto eu a abria.

Coloquei a chave antiga dentro.

Não junto dos documentos.

Num pequeno compartimento vazio no canto.

— Por que guardar?

Fechei a tampa.

— Porque eu quero lembrar do que aconteceu antes de começar a achar que exagerei.

Ele ficou quieto.

— E quero que você lembre também.

— Eu vou lembrar.

— Espero que sim.

Nas semanas seguintes, Diane não veio à nossa casa.

Também não falou comigo.

Mandava mensagens para Ethan, algumas afetuosas, outras carregadas daquela culpa delicada que parecia preocupação até você ler duas vezes.

Perguntava se ele estava comendo direito.

Dizia que sentia falta dele.

Comentava que Richard estava triste.

Uma vez escreveu que “certas pessoas só valorizam família depois que é tarde demais”.

Ethan me mostrou a mensagem sem que eu pedisse.

— Você vai responder? — perguntei.

— Vou.

Ele digitou por alguns segundos.

Depois virou o celular para mim.

Não havia discurso.

Não havia acusação.

Apenas: “Eu amo vocês. Quando quiserem nos visitar, combinem antes com nós dois.”

Diane não respondeu naquele dia.

Dois dias depois, perguntou se poderia vir no domingo à tarde.

A mensagem foi enviada num grupo com nós três.

Mostrei para Ethan.

Ele sorriu de um jeito cansado.

— Isso conta como progresso?

— Conta como uma pergunta.

— Já é alguma coisa.

Concordamos com a visita.

No domingo, às três em ponto, a campainha tocou.

Diane estava do lado de fora com Richard.

Nenhum deles tentou abrir a porta primeiro.

Quando entraram, Diane olhou ao redor como se estivesse avaliando um lugar familiar que agora possuía fronteiras invisíveis.

Ela trouxe uma sobremesa.

Não reorganizou nossa geladeira.

Não subiu as escadas.

Não perguntou pelo quarto de hóspedes.

Durante quase uma hora, todos se comportaram com uma cordialidade tão cuidadosa que chegava a ser exaustiva.

Então Ethan foi até a cozinha buscar café.

Diane e eu ficamos sozinhas na sala.

Ela ajeitou a bolsa no colo.

— Ele está diferente.

Eu sabia de quem ela falava.

— Está.

— Você parece satisfeita com isso.

— Não pedi para ele ser diferente, Diane. Pedi para ele agir como meu marido dentro da nossa casa.

Ela apertou os dedos sobre a alça da bolsa.

— Para você, talvez pareça simples.

— Não parece simples.

Ela me encarou, surpresa.

— Então por que fez tudo isso?

Pensei na pergunta.

— Porque difícil e errado não são a mesma coisa.

Diane desviou os olhos.

Por alguns segundos, achei que ela fosse começar outra discussão.

Em vez disso, perguntou:

— Você realmente achou que eu estava tentando roubar alguma coisa naquele dia?

— Não.

Ela pareceu quase aliviada.

— Então por que tanto drama por causa das gavetas?

— Porque você não precisava estar roubando para não ter direito de estar lá.

O alívio desapareceu.

Antes que ela respondesse, Ethan voltou com a bandeja.

Diane não tocou mais no assunto.

A visita terminou uma hora depois.

Na porta, Richard perguntou se poderíamos jantar na casa deles no mês seguinte.

Ethan olhou para mim.

Não de um jeito pedindo permissão.

Nem tentando adivinhar qual resposta causaria menos conflito.

Apenas me incluindo na decisão.

— A gente vê a agenda e responde — disse ele.

Richard assentiu.

Diane não gostou.

Eu percebi.

Ethan também.

Mas ninguém tentou preencher aquele desconforto com uma concessão.

Depois que eles foram embora, Ethan fechou a porta e ficou com a mão na maçaneta.

— Foi estranho.

— Muito.

— Mas ninguém morreu.

Sorri pela primeira vez em dias ao falar sobre aquilo.

— Um resultado promissor.

Ele riu.

Mais tarde, quando subi para guardar alguns documentos, abri a caixa de madeira.

A velha chave continuava no pequeno compartimento.

Passei o dedo sobre ela.

Durante algum tempo, achei que aquela chave representasse Diane.

Depois achei que representasse Ethan.

Mas, olhando para ela naquela noite, entendi que representava algo mais incômodo.

Ela era o símbolo de tudo que entra numa relação quando duas pessoas não decidem juntas onde termina o espaço dos outros.

Uma mãe insistente não tinha criado aquele problema sozinha.

Um pai que preferia evitar conflitos também não.

Nem um marido acostumado a ceder.

O problema cresceu porque cada pequena invasão tinha sido tratada como mais fácil de suportar do que de enfrentar.

Até chegar às minhas gavetas.

Fechei a caixa e voltei para a sala.

Ethan estava no sofá, lendo alguma coisa no celular.

A nova chave da casa estava no chaveiro dele, ao lado da carteira.

Não escondida.

Não emprestada.

Não prometida a ninguém.

Alguns dias depois, ele me contou que Diane havia pedido outra cópia “só para emergências”.

Meu estômago se contraiu por reflexo.

— E o que você disse?

Ethan colocou a caneca sobre a mesa.

— Perguntei qual emergência ela imaginava que exigiria entrar na nossa casa sem conseguir falar com nenhum de nós.

— E ela?

— Disse que esse não era o ponto.

— Claro.

— Eu disse que, então, não havia motivo para uma cópia.

Esperei.

— Foi só isso?

— Foi.

— Ela ficou brava?

Ethan deu de ombros.

— Ficou.

— E você está bem?

Ele pensou antes de responder.

— Não totalmente.

A honestidade me surpreendeu mais do que uma resposta corajosa teria surpreendido.

— Sinto culpa — continuou. — Mesmo sabendo que não fiz nada errado.

Sentei ao lado dele.

— Talvez você tenha passado muito tempo confundindo culpa com obrigação.

— Talvez.

Não tentamos transformar aquilo numa grande conclusão.

Ainda tivemos discussões depois.

Ainda houve domingos em que Diane fazia comentários atravessados.

Ainda houve momentos em que Ethan começava a dizer “é mais fácil se…” e parava no meio da frase.

Mas algo fundamental tinha mudado.

Ele parou de me pedir para pagar o preço da facilidade dele.

E eu parei de achar que precisava apresentar um processo completo para justificar cada limite dentro da minha própria casa.

Meses depois, quando reorganizamos o quarto de hóspedes, encontrei uma das caixas de trabalho que Richard tinha dito que precisava desaparecer “para a família”.

Ethan estava comigo.

— Quer deixar esse quarto livre? — perguntou.

Olhei para as caixas.

Depois para ele.

— Livre para quê?

Ele percebeu imediatamente.

— Para o que nós decidirmos.

Sorri.

— Então sim.

Transformamos metade do quarto num espaço de trabalho para mim e deixamos uma cama pequena na outra metade.

Família ainda podia ficar conosco.

Amigos também.

Mas alguém precisar de um lugar para dormir era diferente de alguém possuir antecipadamente o direito de entrar.

Essa diferença, que parecia tão óbvia para mim desde o começo, finalmente tinha se tornado parte da linguagem do nosso casamento.

Naquela noite, fui buscar um documento na caixa de madeira e vi a chave antiga mais uma vez.

Peguei-a na palma da mão.

Por um momento, pensei em continuar guardando-a para sempre.

Então desci.

Ethan estava na cozinha.

Coloquei a chave sobre a bancada.

— Ainda quer guardar? — perguntou.

Balancei a cabeça.

— Não preciso mais dela para lembrar.

Ele não perguntou o que eu queria fazer.

Pegou a chave, abriu a gaveta onde guardávamos ferramentas e colocou-a numa pequena lata com parafusos, porcas e peças de metal sem uso.

Nada cerimonial.

Nada dramático.

A chave que um dia tinha sido tratada como prova de pertencimento agora era apenas um pedaço de latão que não abria porta nenhuma.

E, pela primeira vez desde que encontrei Diane no nosso quarto, era exatamente isso que eu queria que ela fosse.

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