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A Chave Que Mara Deixou Para Salvar Duas Gêmeas Abandonadas na Neve-silas

A primeira coisa que fiz foi reler aquela linha, porque minha cabeça se recusava a aceitar que eu a tinha entendido corretamente.

A cabana onde Mara e eu passáramos tantos invernos não estava mais em meu nome, nem no de Vanessa.

Pertencia a Lily e Rose.

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Do lado de fora, Vanessa voltou a bater na porta com força, e o homem que estava com ela gritou que eu devia entregar a chave antes que todos ali se arrependessem.

Rose se encolheu na cama ao ouvir a voz dele.

Lily não chorou.

Ela apenas segurou a mão da irmã com tanta força que os dedos das duas ficaram brancos.

Abri o envelope que Mara deixara para mim.

Reconheci imediatamente a letra inclinada, firme, que eu havia visto em bilhetes na geladeira, cartões de aniversário e recados deixados ao lado da minha xícara durante vinte e dois anos.

Daniel,

se você está lendo isto, significa que as meninas fizeram exatamente o que eu pedi e que você voltou antes que fosse tarde demais.

Parei ali.

Antes que fosse tarde demais.

Mara sabia.

Talvez não soubesse o dia, nem a tempestade, nem que eu encontraria duas crianças descalças na neve, mas sabia que alguma coisa podia acontecer depois que ela não estivesse mais ali para impedir.

Continuei lendo enquanto as pancadas na porta ecoavam pelo andar de baixo.

Mara escreveu que Vanessa perguntara repetidas vezes sobre dinheiro escondido na cabana durante os últimos meses de sua doença.

No início, ela tratara aquilo como curiosidade.

Depois Vanessa começara a perguntar sobre o quarto trancado, sobre documentos antigos e sobre quem ficaria com a propriedade quando Mara morresse.

Foi então que Mara tomou uma decisão que não contou nem para mim.

Ela colocou a cabana no nome das sobrinhas.

Não porque houvesse uma fortuna enterrada sob o piso.

Não porque existisse um cofre cheio de dinheiro.

Mas porque acreditava que Lily e Rose precisariam, algum dia, de um lugar que ninguém pudesse tirar delas para alimentar a própria ganância.

A última frase daquela página me fez fechar os olhos.

Não proteja a cabana, Daniel. Proteja as meninas.

Uma pancada mais forte sacudiu a porta da frente.

O homem do lado de fora xingou.

Vanessa gritou meu nome.

— Daniel! Elas são minhas filhas! Você não pode me impedir de entrar!

Guardei a carta dentro do casaco, peguei o documento e me virei para Lily.

— Esse homem veio com sua mãe quando ela deixou vocês aqui?

Lily demorou alguns segundos para responder.

— Veio.

— Ele entrou na cabana?

Ela assentiu.

— Eles procuraram por toda parte. Mamãe ficou brava porque não achou a porta. Depois ela disse que nós éramos pequenas e que talvez a tia Mara tivesse contado alguma coisa para a gente.

Rose abriu os olhos.

— Ela perguntou da chave.

Senti meu estômago apertar.

— E vocês disseram que tinham?

— Não — respondeu Lily. — A tia Mara falou para nunca contar.

Foi então que entendi por que Vanessa as havia deixado ali.

Não era apenas abandono provocado por uma busca que dera errado.

Ela acreditava que as próprias filhas sabiam onde estava aquilo que queria.

E, quando elas não entregaram a resposta, Vanessa decidiu que o frio e a fome fariam o trabalho por ela.

Desci as escadas.

Não abri a porta.

Fiquei a poucos passos dela enquanto Vanessa continuava gritando do outro lado.

— Você deixou Lily e Rose aqui por três dias?

Houve silêncio por um instante.

— Eu voltei para buscá-las.

— Três dias depois.

— A estrada fechou.

Olhei pela janela lateral.

O veículo deles estava parado poucos metros adiante, com neve acumulada no capô, mas com marcas recentes de pneus atrás dele.

— Você chegou aqui agora.

— Não sabe do que está falando.

A voz masculina interrompeu.

— Chega de conversa. Dê a chave e acabamos com isso.

— Que chave?

Ele ficou em silêncio.

Vanessa respondeu depressa demais.

— Não sei. Ele está falando besteira.

Ali estava a primeira rachadura.

Eles não sabiam se eu já tinha aberto o quarto.

Não sabiam o que Mara havia deixado.

E, mais importante, não sabiam o que as meninas tinham me contado.

Meu telefone vibrou no bolso.

Era Elena Ruiz.

Atendi falando baixo.

— Onde você está?

— Subindo pela estrada. A tempestade piorou e há trechos praticamente cobertos. Daniel, escute: não confronte ninguém se houver crianças dentro da casa.

— Elas estão comigo.

— Estão machucadas?

Olhei para os pés de Lily, agora envolvidos em toalhas aquecidas, e para Rose tremendo sob dois cobertores.

— Estão vivas. Isso é o que importa agora.

Contei em poucas frases sobre o documento, a carta e as pessoas do lado de fora.

Elena ficou em silêncio por um momento.

— Guarde tudo com você. Não deixe ninguém tocar no que Mara deixou.

— E as meninas?

— Fique entre elas e aquela porta.

Desliguei.

Não precisei de uma ordem melhor.

Voltei ao quarto e encontrei Lily ajoelhada ao lado de Rose, tentando colocar nela as próprias meias.

— Você precisa delas também — falei.

Lily olhou para mim.

— Ela é menor.

Aquela resposta me atingiu de um jeito que nenhuma ameaça do lado de fora conseguira.

Uma criança quase congelada ainda estava calculando qual das duas precisava mais de um par de meias.

Sentei diante dela.

— Sua tia escreveu uma carta para mim.

Os olhos de Lily se arregalaram.

— Ela falou da gente?

— Falou.

— Ela estava brava?

A pergunta me desmontou.

— Não.

Lily abaixou a cabeça.

— Mamãe dizia que a tia Mara parou de falar com ela porque nós davam trabalho.

— Isso não está na carta.

Ela me encarou.

— Então o que está?

Mostrei o documento sem colocá-lo nas mãos dela.

— Mara deixou esta cabana para vocês duas.

Rose piscou como se não tivesse entendido.

Lily olhou ao redor para os móveis rasgados, gavetas quebradas e tábuas arrancadas.

— Esta cabana?

Apesar de tudo, quase sorri.

— Ela parecia melhor antes desta semana.

Rose soltou um som pequeno, meio riso, meio soluço.

Foi a primeira vez que ouvi qualquer coisa parecida com alívio desde que chegara.

Então Lily perguntou:

— É esse o tesouro?

Olhei novamente para a carta de Mara.

— Acho que sua mãe acreditava que havia outro.

— Tem?

A resposta estava numa segunda folha dobrada dentro do envelope.

Eu ainda não a tinha lido.

Abri.

Não havia mapa.

Não havia senha.

Não havia indicação de dinheiro escondido.

Mara simplesmente explicava que espalhara deliberadamente a ideia de que existia algo valioso atrás da última porta depois de perceber o interesse crescente de Vanessa.

Ela queria descobrir se a irmã estava preocupada com as filhas ou com aquilo que poderia receber depois da morte dela.

A reação de Vanessa lhe dera a resposta.

Quanto mais Mara evitava falar do suposto segredo, mais Vanessa insistia.

E por isso a chave não ficara com um adulto.

Mara a entregara a Lily meses antes, embrulhada naquele pedaço de tecido, com uma instrução simples: escondê-la se pessoas ruins aparecessem e entregá-la apenas ao homem que ainda usasse a aliança.

Mara havia apostado em uma coisa que eu nem sabia se conseguiria cumprir.

Que eu voltaria.

Passei o polegar sobre a aliança.

Durante quase um ano, eu evitara a cabana porque acreditava que entrar ali sem Mara seria admitir que nossa vida juntos tinha realmente terminado.

Agora compreendia que minha ausência quase transformara o plano dela em uma tragédia.

Lily percebeu minha expressão.

— O senhor está triste?

— Muito.

— Por causa da tia Mara?

— Todos os dias.

Ela pensou um pouco.

— Ela dizia que sentir falta de alguém era diferente de perder essa pessoa de novo.

Levantei os olhos.

— Ela dizia isso?

Lily assentiu.

— Quando estava doente.

Eu não consegui responder imediatamente.

A frase parecia tão simples que doía.

Passei meses acreditando que voltar à cabana significaria perder Mara mais uma vez.

Mara, aparentemente, já sabia que eu pensaria assim.

Outro estrondo veio da entrada.

Desta vez não era apenas uma pancada.

A maçaneta girou com violência.

Rose começou a chorar.

Lily se levantou.

— Eles vão entrar.

— Não vão chegar perto de vocês.

Desci novamente e encontrei a madeira junto à fechadura começando a ceder.

— Vanessa!

Os golpes pararam.

— Finalmente vai abrir?

— Não.

— Daniel, você não entende. Mara escondeu coisas de mim durante anos.

— Talvez tivesse motivos.

— Eu sou irmã dela!

— E aquelas duas crianças são suas filhas.

Silêncio.

Eu continuei.

— Você as deixou aqui sem sapatos suficientes, com pão velho e sem proteção adequada para atravessar três noites de frio.

— Você só ouviu a versão delas.

— Eu vi os pés delas.

O homem bateu novamente.

— Abra essa porta.

— Não.

— Aquela cabana não é sua.

Olhei para o documento em minha mão.

— Nisso nós concordamos.

Vanessa ficou quieta.

— O que quer dizer?

— Você sabe exatamente o que estou dizendo.

Eu não precisava revelar mais.

Por alguns segundos, não houve barulho algum.

Então ouvi Vanessa falar baixo com o homem, rápido demais para entender todas as palavras.

O motor do veículo deles ligou.

Lily apareceu no alto da escada.

— Eles estão indo embora?

Fui até a janela.

O veículo recuou alguns metros.

Por um instante, pensei que sim.

Então ele parou atravessado na parte mais estreita da entrada da propriedade.

Eles não estavam indo embora.

Estavam tentando bloquear quem viesse pela estrada.

Elena.

Peguei o telefone.

Antes que conseguisse ligar, ela me chamou.

— Vejo um veículo à frente da cabana.

— É deles.

— Não saia.

— Elena…

— Daniel, fique com as meninas.

A conexão falhou por alguns segundos.

Quando voltou, ouvi sua voz mais baixa.

— Eu consigo chegar até você a pé pelo trecho lateral.

Olhei para fora.

A neve diminuíra apenas o suficiente para revelar a silhueta do homem saindo do veículo.

Ele começou a caminhar em direção à cabana.

Não carregava nada que eu pudesse identificar como arma, mas sua postura dizia que a conversa havia terminado.

Vanessa saiu logo depois.

Ela gritou para Lily.

— Filha, venha aqui! Agora!

Lily desceu mais dois degraus.

— Fique onde está — pedi.

Vanessa viu a menina através da janela.

— Lily! Não escute esse homem!

A menina congelou.

— Sou sua mãe!

Rose apareceu atrás da irmã, segurando o cobertor junto ao peito.

Vanessa continuou chamando.

E foi então que Lily fez algo que nenhum adulto naquela situação tinha conseguido fazer até aquele momento.

Ela respondeu.

— Mãe, por que você foi embora?

Vanessa abriu a boca.

Nenhuma palavra saiu.

— Você disse que voltava quando achássemos o tesouro — continuou Lily. — A gente não achou.

Rose começou a soluçar.

— Eu pedi comida.

Vanessa finalmente reagiu.

— Eu estava tentando ensinar vocês a ajudar a família.

Lily balançou a cabeça.

— Você disse que, se a gente não encontrasse, não merecia jantar.

O homem ao lado dela virou o rosto.

Foi um movimento mínimo.

Mas eu vi.

Talvez ele não soubesse de tudo.

Ou talvez simplesmente tivesse percebido como aquelas palavras soavam quando saíam da boca de uma criança.

Vanessa percebeu também.

— Elas estão confundindo as coisas.

— Três dias são difíceis de confundir — falei.

Ela apontou para mim através do vidro.

— Você está colocando minhas filhas contra mim.

Lily respondeu antes que eu pudesse.

— Não.

Uma única palavra.

Pequena, firme.

Vanessa olhou para ela.

Lily segurou a mão de Rose.

— A tia Mara disse que, quando alguém pede para guardar um segredo porque tem medo, a gente deve procurar uma pessoa segura.

Olhei para a chave de latão sobre a mesa.

Aquilo era o que Mara realmente havia deixado.

Não uma caça ao tesouro.

Uma rota de saída.

O homem se aproximou da porta outra vez, mas antes que pudesse tocá-la, uma voz surgiu atrás dele.

— Pare onde está.

Elena havia conseguido chegar.

Ela não fez discurso algum.

Não precisava.

Vanessa se virou imediatamente.

O homem levantou as mãos e recuou um passo.

Elena manteve distância e pediu que ambos se afastassem da entrada.

Eu destranquei a porta apenas quando ela indicou que era seguro.

O ar gelado entrou como uma lâmina.

Vanessa tentou avançar.

— Quero minhas filhas.

Elena bloqueou o caminho.

— Primeiro vamos entender por que elas foram encontradas nessas condições.

— Isso é assunto de família.

— Duas crianças quase congeladas deixaram de ser apenas um assunto de família no momento em que Daniel as encontrou.

Vanessa olhou para mim.

— Você planejou isso com Mara.

— Eu nem sabia que aquele quarto existia.

— Mentiroso.

Tirei a carta do bolso.

— Ela também sabia que eu não sabia.

O rosto de Vanessa mudou.

Não foi medo.

Foi reconhecimento.

— Você abriu.

Era a confirmação de que esperávamos.

Ela sabia exatamente o que havia atrás da porta.

Talvez não soubesse o conteúdo, mas sabia que Mara havia escondido alguma coisa ali.

— O que ela deixou? — perguntou Vanessa.

Nem perguntou pelas meninas.

Lily ouviu.

Eu vi o instante em que isso a atingiu.

Rose também ouviu, mas era pequena demais para esconder a dor no rosto.

Vanessa percebeu tarde demais.

— Quero dizer… o que ela deixou para nós? Para a família?

Lily soltou a mão de Rose por um segundo.

Achei que fosse correr para a mãe.

Em vez disso, caminhou até a mesa, pegou a pequena chave de latão e voltou para perto da irmã.

— Isso foi o que ela deixou para mim.

Vanessa estendeu a mão.

— Então me dê.

Lily fechou os dedos.

— Não.

Desta vez a palavra não foi pequena.

Foi definitiva.

Elena pediu que eu levasse as meninas para o quarto enquanto ela cuidava do que precisava ser resolvido naquela noite.

Eu obedeci.

Não ouvi toda a conversa lá fora.

Nem tentei.

Pela primeira vez desde que chegara, eu entendi que meu trabalho não era vencer uma discussão com Vanessa.

Era manter duas crianças aquecidas enquanto os adultos respondiam pelas próprias escolhas.

Preparei algo quente para elas comerem com o pouco que ainda havia intacto na cozinha.

Rose devorou as primeiras colheradas depressa demais.

Lily comia devagar, olhando para a porta a cada ruído.

— Ela vai voltar? — perguntou Rose.

Eu não menti.

— Não sei o que vai acontecer depois desta noite.

— Vamos ter que ir com ela?

— Hoje vocês vão ficar protegidas.

Lily continuou olhando para mim.

— E amanhã?

A pergunta era maior do que qualquer promessa que eu tivesse direito de fazer.

— Amanhã nós resolvemos o amanhã.

Ela pareceu aceitar.

Algum tempo depois, Elena entrou sozinha.

Vanessa e o homem já não estavam diante da cabana.

Outras providências seriam tomadas fora dali, mas Elena não transformou aquilo em uma explicação cheia de termos que as meninas não entenderiam.

Apenas se agachou diante delas e perguntou se estavam aquecidas, se sentiam dor e se conseguiam contar o que tinha acontecido desde o momento em que chegaram à montanha.

Lily contou tudo novamente.

Rose completava quando lembrava de algum detalhe.

Nenhuma das duas precisou exagerar.

A verdade já era grave o suficiente.

Quando terminaram, Elena pediu para ver o que Mara deixara.

Entreguei a carta e o documento.

Ela leu com cuidado.

Depois olhou para mim.

— Mara pensou muito adiante.

— Mais do que eu.

— Não transforme isso numa culpa que não ajuda ninguém.

Olhei para as meninas.

— Quase cheguei tarde.

Elena baixou a voz.

— Mas chegou.

Naquela madrugada, quando a tempestade finalmente começou a ceder, encontrei outro envelope no fundo do baú.

Não tinha meu nome.

Tinha apenas duas palavras escritas por Mara.

Para elas.

Não abri.

Levei até Lily e Rose.

— Isto é de vocês.

Lily tocou o envelope, mas não o pegou imediatamente.

— Pode ler para a gente?

— Se vocês quiserem.

As duas se sentaram juntas na cama.

Abri com cuidado.

Mara não explicou documentos.

Não falou sobre Vanessa.

Não mencionou tesouro algum.

Ela escreveu sobre o verão em que ensinara Lily a fazer pão e sobre a tarde em que Rose insistira que um cobertor velho da cabana era uma capa de rainha.

Escreveu que as duas eram mais corajosas do que imaginavam, mas que não deveriam precisar ser corajosas o tempo inteiro.

E escreveu uma frase que me obrigou a parar no meio da leitura.

Uma casa só vale alguma coisa quando alguém consegue descansar dentro dela sem medo.

Rose encostou a cabeça no ombro de Lily.

— Então a cabana é nossa mesmo?

— É o que Mara queria.

— E você vai embora?

Eu olhei ao redor.

Durante quase um ano, aquele lugar existira na minha cabeça como um túmulo cheio de lembranças que eu não conseguia enfrentar.

Agora havia duas tigelas na mesa, dois pares de meias secando perto do aquecedor e duas crianças esperando uma resposta.

— Não hoje.

Rose pareceu satisfeita.

Lily, não.

— Depois?

Olhei para minha aliança.

Mara havia deixado uma instrução para as meninas identificarem o homem que voltaria.

Mas talvez aquela instrução também fosse para mim.

Não bastava chegar.

Era preciso ficar quando alguém precisava que eu ficasse.

— Depois nós vamos descobrir juntos.

Nas semanas seguintes, a vida não se resolveu como em uma história simples.

Houve perguntas difíceis, decisões tomadas por pessoas responsáveis pela proteção das meninas e muitos momentos em que Lily parecia esperar que qualquer adulto pudesse desaparecer sem aviso.

Rose escondia pedaços de pão nos bolsos.

Na primeira vez que encontrei um, meu peito apertou.

Não briguei.

Coloquei uma pequena cesta de comida sobre a mesa da cozinha e disse que ela podia pegar alguma coisa sempre que sentisse fome.

Durante dias, Rose continuou escondendo pão.

Depois começou a deixar os pedaços sobre a mesa.

Um mês mais tarde, parou completamente.

Lily demorou mais para relaxar.

Ela perguntava a que horas eu voltaria mesmo quando eu saía apenas para buscar mantimentos.

Se eu dizia quinze minutos, ela olhava o relógio.

Se levava dezessete, encontrava-a na janela.

Então comecei a fazer algo que, antes, teria parecido insignificante.

Eu dizia quando sairia.

Dizia onde estaria.

E voltava quando prometia.

Todas as vezes.

A cabana também mudou.

Consertei o piso arrancado.

Substituí as gavetas quebradas.

As fotografias desaparecidas nunca voltaram, então começamos outra parede.

A primeira imagem nova não era bonita.

Nós três estávamos cansados, o cabelo de Rose estava desarrumado e Lily fez uma careta no instante em que Elena tirou a foto.

Mesmo assim, coloquei-a no lugar onde antes ficava meu retrato favorito com Mara.

Durante alguns segundos, senti culpa.

Depois lembrei da carta.

Uma casa só vale alguma coisa quando alguém consegue descansar dentro dela sem medo.

Mara não deixara aquela cabana para ser preservada como um monumento à ausência dela.

Deixara para continuar servindo aos vivos.

Vanessa tentou explicar suas decisões de muitas maneiras.

Falou de desespero.

Falou de dívidas.

Falou que acreditava sinceramente que Mara escondera uma herança que deveria pertencer à família.

Talvez parte disso fosse verdade.

Mas nenhuma explicação alterava o que Lily e Rose viveram na montanha.

E nenhuma necessidade adulta justificava transformar duas crianças em ferramentas de uma busca.

Eu parei de tentar encontrar uma frase que explicasse Vanessa por completo.

Algumas perguntas não precisam de respostas perfeitas para que uma decisão correta seja tomada.

As meninas precisavam de estabilidade.

Era nisso que eu podia agir.

Meses depois, numa manhã fria, encontrei Lily diante da antiga porta trancada.

O cômodo permanecia quase vazio.

O baú de cedro ainda estava no centro.

— Posso entrar? — ela perguntou.

— A cabana é sua.

Ela fez uma expressão séria.

— Isso não responde.

Sorri.

— Pode.

Lily entrou e passou a mão sobre a tampa do baú.

— Eu achava que tinha dinheiro aqui.

— Sua mãe também.

— A tia Mara sabia?

— Sabia que vocês talvez precisassem descobrir que nem todo segredo é dinheiro.

Lily ficou quieta.

Então tirou do bolso a pequena CHAVE de latão.

Ela ainda a carregava.

— Não preciso mais esconder?

Olhei para o objeto que, meses antes, parecera capaz de decidir o destino de todos nós.

Na verdade, nunca fora a chave que importava.

Importava a pessoa em quem Mara ensinara Lily a confiar para entregá-la.

E importava ainda mais o que essa pessoa faria depois de recebê-la.

— Não — respondi. — Agora você pode decidir onde quer guardar.

Lily colocou a CHAVE dentro do baú.

Depois fechou a tampa sem trancá-lo.

— Assim está melhor.

— Por quê?

Ela deu de ombros.

— Porque ninguém precisa procurar mais.

Naquela tarde, Rose entrou correndo no cômodo carregando dois desenhos.

Um mostrava a cabana coberta de neve.

No outro havia três pessoas diante da porta.

Perguntei quem eram.

Ela apontou para si mesma, depois para Lily e por último para mim.

— E a tia Mara? — perguntei.

Rose pensou por alguns segundos.

Então apontou para uma pequena janela amarela que desenhara no andar de cima.

— Ela deixou a luz acesa.

Precisei virar o rosto antes que as meninas percebessem meus olhos molhados.

Passei quase um ano acreditando que Mara havia me deixado apenas lembranças de uma vida que tinha terminado.

Eu estava errado.

Ela também me deixara uma responsabilidade que eu não sabia que precisava, duas meninas que aprenderiam lentamente que comida não era prêmio, que casa não era ameaça e que alguém podia sair pela porta e realmente voltar.

Na primavera, pendurei a chave reserva da entrada em um pequeno gancho perto da cozinha.

Nada escondido.

Nada embrulhado em tecido.

Nada atrás de uma porta secreta.

Rose perguntou por que eu a deixava tão fácil de encontrar.

— Porque esta casa não precisa mais esconder quem pode entrar — respondi.

Lily olhou para a aliança em meu dedo.

— E você ainda vai usar isso para sempre?

Toquei o ouro gasto.

Durante meses, eu acreditara que a aliança era a última coisa que me ligava a Mara.

Mas Mara tinha transformado justamente aquele objeto em um sinal para duas crianças perdidas.

Não era apenas lembrança.

Tinha sido uma promessa sem que eu soubesse.

— Não sei se para sempre — falei. — Mas ainda não chegou a hora de tirar.

Lily assentiu como se fosse uma resposta perfeitamente aceitável.

Rose já estava ocupada com outra coisa.

E foi assim que percebi que a dor também havia mudado.

Ela ainda existia.

Eu ainda sentia falta de Mara ao entrar na cozinha, ao ouvir o vento batendo nas paredes e ao encontrar algum objeto que ela tocara centenas de vezes.

Mas voltar à cabana não significava mais perder minha esposa novamente.

Significava descobrir o que ela tinha feito com o amor antes de partir.

Mara não deixara um tesouro escondido para ser encontrado.

Ela deixara uma porta para ser aberta no momento certo.

Meses depois daquela noite, Lily me pediu o baú de cedro para guardar coisas importantes.

Dentro colocou a carta de Mara, o pedaço de tecido desbotado e a CHAVE que um dia precisou esconder de adultos que a assustavam.

Rose acrescentou um desenho da cabana e, por algum motivo que só ela entendia, um pedaço de pão perfeitamente fresco embrulhado num guardanapo.

Quando perguntei por quê, ela respondeu:

— Para lembrar que agora pode comer.

Não encontrei resposta para aquilo.

Apenas fechei o baú com ela.

Sem trancar.

A última porta da cabana nunca mais precisou de segredo.

E a CHAVE que Mara mandara proteger deixou de ser um objeto de medo para se tornar exatamente o que ela queria desde o início: a prova de que, quando Lily e Rose finalmente encontrassem alguém disposto a escolher as duas em vez do suposto tesouro, elas não precisariam mais sobreviver sozinhas.

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