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Passos no Corredor Revelaram Quem Traiu Augusto e Armou Contra Eduardo-naomi

O som vindo da cozinha atravessou a casa e, poucos segundos depois, passos lentos avançaram pelo corredor até pararem diante do quarto onde Eduardo e Augusto estavam escondendo uma carta que podia mudar tudo.

Eduardo dobrou o papel escrito pelo pai e o colocou por dentro da camisa, enquanto Augusto fechava o notebook e empurrava o pen drive para debaixo do lençol.

A maçaneta girou.

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A porta abriu apenas alguns centímetros antes de Henrique Farias aparecer do outro lado, ainda de terno, segurando o celular numa mão e uma chave antiga na outra.

Eduardo se colocou imediatamente entre ele e Augusto.

— Como você entrou?

Henrique levantou a chave.

— Tenho acesso a esta casa há anos para emergências, e Augusto acabou de me mandar uma mensagem dizendo que precisava falar comigo.

Augusto não pareceu aliviado.

— Eu mandei a mensagem há poucos minutos.

Henrique olhou para o cadeado arrancado no chão, depois para a cômoda deslocada e, por último, para o notebook fechado sobre a cama.

Foi rápido demais.

Mas Eduardo viu.

O advogado estava tentando descobrir quanto eles já tinham encontrado.

Eduardo tirou o pequeno celular de Augusto do bolso e mostrou a mensagem que acabara de chegar: alguém afirmava saber que Augusto já estava acordado.

— Você sabe alguma coisa sobre isso?

Henrique leu sem tocar no aparelho.

— Não.

— Só três pessoas sabiam que ele estava fingindo — disse Eduardo.

Henrique respirou fundo.

— Augusto, a médica e eu.

A resposta deveria ter encerrado uma dúvida.

Fez o contrário.

Augusto ficou sentado na cama, ainda pálido depois dos dias em que Larissa o deixara trancado, e observou o homem que cuidava dos assuntos jurídicos da família havia vinte e cinco anos.

— Henrique, coloque seu celular sobre a cômoda.

— Augusto, você está desidratado, acabou de passar por uma situação absurda e precisa de atendimento, não de interrogatório.

— Coloque o celular sobre a cômoda.

Henrique obedeceu.

Eduardo abriu a conversa da mensagem anônima no aparelho escondido de Augusto e apertou o botão para ligar para o número que a havia enviado.

Um toque começou a vibrar dentro do paletó de Henrique.

Não vinha do celular colocado sobre a cômoda.

Henrique fechou os olhos por um instante.

Eduardo avançou um passo.

— Tire do bolso.

O advogado puxou um segundo aparelho.

Na tela, o número de Augusto estava chamando.

Augusto não ergueu a voz.

— Foi você.

Henrique tentou explicar que a mensagem não passava de uma forma de assustá-los, que jamais pretendia machucar ninguém e que, quando recebeu o contato inesperado de Augusto, percebeu que os acontecimentos tinham saído do controle.

— Que acontecimentos? — perguntou Eduardo.

Henrique olhou para o notebook.

Augusto fez a mesma coisa.

Então Eduardo compreendeu que o arquivo chamado RIBEIRO 2020 não assustava apenas por causa de Paulo, seu pai.

Henrique sabia o que havia dentro dele.

Eduardo abriu novamente o computador e colocou o pen drive na entrada.

— Meu pai encontrou o quê?

Henrique não respondeu.

Augusto respondeu por ele.

— Uma coisa que eu deveria ter contado a você antes.

Eduardo voltou os olhos para o velho.

Aquela foi a primeira vez naquela noite em que sentiu que Augusto também tinha medo da verdade.

Anos antes de Marcelo Braga assumir parte importante das finanças da Madeireira Saldanha, Augusto havia autorizado uma estrutura empresarial paralela para uma operação que deveria ser temporária e limitada.

Henrique preparara os documentos.

Augusto assinara.

O problema era que a estrutura nunca desapareceu de verdade.

Com o passar do tempo, outras movimentações começaram a ser feitas por empresas ligadas àquele mesmo conjunto de documentos, e Paulo Ribeiro foi a primeira pessoa a perceber que os valores já não tinham nenhuma relação com a autorização original.

— Então o senhor sabia — disse Eduardo.

— Eu sabia que tinha cometido um erro — respondeu Augusto. — Não sabia até onde tinham levado aquilo.

Eduardo apertou a mandíbula.

— Meu pai sabia.

Augusto assentiu.

Paulo havia passado meses seguindo assinaturas, datas e transferências, tentando entender como um mecanismo inicialmente autorizado por Augusto havia sido transformado em caminho para retirar dinheiro da empresa.

Marcelo aparecia em diversos registros posteriores.

Henrique aparecia em documentos que davam sustentação jurídica às empresas.

E Larissa aparecia onde Eduardo jamais imaginara encontrá-la.

Ela havia recebido cópias de relatórios, participado de reuniões privadas e discutido com Marcelo maneiras de afastar Eduardo das decisões da madeireira caso Augusto morresse ou fosse declarado incapaz de administrar os próprios bens.

Era por isso que Augusto dissera que Marcelo não começara o esquema.

Mas também era por isso que não dissera que Henrique o começara sozinho.

A primeira porta havia sido aberta pelo próprio Augusto.

Outros decidiram atravessá-la.

Eduardo tirou a carta do pai de dentro da camisa e voltou a lê-la desde o começo.

Paulo não acusava uma única pessoa.

Ele havia deixado uma sequência de orientações para que, se algo acontecesse antes de conseguir concluir a investigação, quem encontrasse aquela carta seguisse as assinaturas em vez de simplesmente procurar quem parecia mais ganancioso.

O aviso sobre desconfiar de quem estivesse perto demais agora ganhava outro significado.

Paulo convivera diariamente com Henrique.

Augusto confiava nele.

A família confiava nele.

Por isso ninguém estranhava quando documentos passavam por suas mãos.

Henrique se aproximou da cama.

— Isso aconteceu anos atrás, Augusto, e você sabe que eu não tinha controle sobre o que Marcelo fez depois.

Augusto ergueu os olhos.

— Mas tinha controle sobre os papéis que continuou preparando.

Henrique rebateu que apenas regularizava decisões tomadas pelos responsáveis financeiros e que Larissa lhe apresentava autorizações que pareciam legítimas.

Eduardo abriu uma pasta do pen drive contendo cópias desses documentos.

Em vários deles, Augusto aparecia descrito como incapaz de acompanhar determinados assuntos da empresa.

As datas começaram depois do infarto.

Depois que todos passaram a acreditar que ele mal conseguia falar.

Foi então que Eduardo entendeu por que Augusto fingira durante dois anos.

O velho não estava apenas avaliando quem continuaria tratando-o como pessoa quando achasse que ele já não tinha nada a oferecer.

Ele também estava esperando para descobrir quem aproveitaria sua suposta incapacidade.

— Eu ouvi conversas — explicou Augusto. — Vi Larissa parar de medir as palavras na minha frente. Vi Marcelo entrar neste quarto e discutir números achando que eu não entendia. Vi Henrique trazer documentos que ninguém explicava para mim porque todos acreditavam que eu não poderia questionar.

Eduardo apontou para as quatro garrafas escondidas sob o piso.

— E o senhor sabia que Larissa podia chegar ao ponto de deixá-lo trancado?

Augusto demorou para responder.

— Não.

Ele tinha escondido água e remédios porque já percebera que algumas doses desapareciam e que Larissa controlava cada vez mais quem entrava no quarto.

Mas aquelas reservas eram para emergências curtas.

Nunca imaginara que a neta viajaria por duas semanas e colocaria um cadeado do lado de fora.

As quatro garrafas não transformavam o abandono em encenação.

Augusto realmente correra perigo.

Eduardo olhou para Henrique.

— E você mandou aquela mensagem porque recebeu o contato dele e percebeu que a farsa tinha acabado.

Henrique não negou.

Disse que precisava de tempo.

Queria descobrir o que Augusto tinha registrado antes que o conteúdo chegasse às mãos de alguém de fora da família e da empresa.

Eduardo soltou uma risada curta, sem humor.

— Você não veio ajudar.

Henrique permaneceu calado.

— Você veio buscar o pen drive.

Dessa vez, o silêncio foi resposta suficiente.

Augusto mandou Eduardo guardar o dispositivo e a carta consigo.

Henrique tentou insistir que aqueles documentos deveriam permanecer sob custódia jurídica adequada, mas Augusto o interrompeu.

— Não sob a sua.

A relação de vinte e cinco anos terminou naquela frase.

Antes de discutir qualquer outra coisa, Eduardo cuidou do que deveria ter sido prioridade desde o começo.

Augusto recebeu avaliação médica e hidratação adequada, e a condição em que fora encontrado deixou claro que o pequeno estoque escondido não justificava o que Larissa havia feito.

Ele tinha passado tempo demais sozinho, com acesso limitado a água e sem a medicação mantida no lugar habitual.

Enquanto se recuperava, Eduardo fez cópias do pen drive e separou a carta original do pai.

Augusto, por sua vez, determinou que nenhuma operação importante da empresa fosse aprovada até que os registros fossem conferidos e que Marcelo perdesse temporariamente o acesso às decisões financeiras que estavam sob questionamento.

Não houve anúncio dramático.

Houve senhas canceladas, documentos preservados e uma ordem simples para que nada fosse vendido às pressas.

Foi isso que atingiu Larissa primeiro.

Ela telefonou ainda do resort.

Eduardo atendeu com Augusto sentado ao lado.

Larissa começou reclamando que alguns acessos relacionados à empresa tinham parado de funcionar e perguntou por que Eduardo estava mexendo em assuntos que não lhe diziam respeito.

Ele não mencionou o vídeo.

Ainda não.

Perguntou apenas por que Augusto tinha sido deixado trancado.

Larissa respondeu imediatamente que o cadeado era para a segurança do avô, porque ele poderia sair desorientado pela casa.

— E a água? — perguntou Eduardo.

Ela afirmou que havia deixado tudo de que Augusto precisava.

Augusto estendeu a mão.

Eduardo entregou o celular.

— Você deixou um copo vazio na cabeceira, Larissa.

Do outro lado, a neta parou de falar.

Augusto continuou com a mesma voz clara que usara desde que Eduardo arrancara a trava da porta.

— Também levou meus remédios do lugar onde sempre ficavam e colocou um cadeado por fora.

Larissa demorou vários segundos para responder.

Quando respondeu, não perguntou se o avô estava bem.

Perguntou havia quanto tempo ele conseguia falar daquele jeito.

Augusto fechou os olhos.

A pergunta respondeu mais do que ela imaginava.

— Dois anos — disse ele.

Larissa começou a dizer que aquilo era doentio, que ele havia enganado a família inteira e que ninguém poderia culpá-la por ter acreditado na condição que ele próprio fingira apresentar.

Eduardo finalmente abriu o vídeo no notebook.

A voz de Marcelo apareceu no quarto dizendo que, depois da morte de Augusto, ninguém mais os impediria.

Depois veio a voz de Larissa falando sobre afastar Eduardo, vender o que pudessem e desaparecer.

Eduardo não precisou repetir nada.

Larissa ouvira.

— Isso está fora de contexto — disse ela.

Eduardo respondeu com uma única pergunta.

— Qual contexto transforma abandonar seu avô trancado por duas semanas em cuidado?

Ela não respondeu.

Em seguida tentou culpar Marcelo.

Disse que ele a pressionava, que algumas conversas eram apenas fantasias e que nunca imaginara que os planos realmente avançariam.

Augusto pediu que Eduardo abrisse outra pasta do pen drive.

Ali estavam registros mostrando que Larissa já discutia documentos relacionados à incapacidade do avô antes da viagem e tinha conhecimento de movimentações que Marcelo fazia usando estruturas criadas muitos anos antes.

Ela não era a autora original do mecanismo.

Também não era uma espectadora.

A ligação terminou sem reconciliação.

Dois dias depois, Larissa voltou.

Entrou em casa esperando encontrar Eduardo sozinho e parou no corredor ao ver Augusto sentado numa cadeira, vestido, hidratado e perfeitamente capaz de acompanhar cada palavra dita ao redor dele.

O quarto permanecia aberto atrás do velho.

O cadeado arrancado não estava mais na porta.

Larissa tentou falar primeiro com o marido.

— Eduardo, nós precisamos conversar sem ele no meio.

Eduardo permaneceu ao lado de Augusto.

— Ele sempre esteve no meio, Larissa. Vocês só falavam como se não estivesse.

Ela acusou Augusto de manipulá-los durante dois anos e afirmou que ninguém deveria aceitar aquele tipo de teste dentro de uma família.

Augusto não se defendeu.

— Você tem razão sobre uma coisa — disse ele. — Eu menti sobre meu estado, e vou carregar a responsabilidade por isso. Agora você vai carregar a responsabilidade pelo que fez acreditando que eu nunca poderia contar.

Larissa olhou para Eduardo.

— Você vai escolher ele em vez da sua esposa?

Eduardo pensou nas vezes em que justificara a frieza dela, nos jantares em que acreditara que o cansaço explicava tudo e nas conversas em que ela dizia que Augusto já não reconhecia ninguém.

Então pensou no bilhete sobre a geladeira.

No cadeado.

No copo vazio.

No vídeo com Marcelo.

— Eu não estou escolhendo entre você e ele — respondeu. — Estou decidindo o que faço depois de saber o que você fez.

Larissa percebeu que não conseguiria transformar a conversa em uma disputa por lealdade.

Saiu sem levar nenhum documento da empresa.

Marcelo tentou contato poucas horas depois oferecendo explicações sobre as movimentações financeiras e afirmando que poderia separar o que era responsabilidade dele do que Henrique havia preparado.

Augusto não negociou.

Os registros seriam examinados por inteiro.

Inclusive os que poderiam prejudicá-lo.

Foi aí que Eduardo descobriu a última parte da história do pai.

A carta de Paulo não terminava apenas com o aviso sobre pessoas próximas.

Nas páginas anteriores, ele descrevia uma discussão com Augusto a respeito do que deveria ser revelado.

Paulo queria interromper tudo e expor imediatamente a estrutura usada nas movimentações.

Augusto pedira tempo.

Temia perder a empresa construída durante décadas, os empregos ligados a ela e o próprio nome da família.

Paulo não concordara.

Mesmo assim, continuara reunindo provas para que, quando a verdade aparecesse, ninguém pudesse simplesmente escolher um culpado conveniente e encerrar o assunto.

Eduardo encarou Augusto depois de terminar a leitura.

— Meu pai pediu que o senhor contasse tudo?

— Pediu.

— E o senhor não contou.

— Não.

Augusto não tentou se justificar com idade, doença ou medo.

Disse apenas que acreditara que conseguiria consertar o problema sem destruir a empresa e que essa decisão dera tempo para outras pessoas aumentarem aquilo que deveria ter sido interrompido.

Eduardo sentiu raiva.

Não a mesma raiva que sentira de Larissa.

Era pior de um jeito diferente, porque vinha acompanhada da certeza de que o homem que seu pai tentara proteger também havia falhado com ele.

Augusto empurrou o pen drive na direção de Eduardo.

— Se você decidir entregar tudo, entregue tudo.

— Até o que mostra a sua assinatura?

— Principalmente isso.

Eduardo pegou o dispositivo.

Naquele instante, Augusto perdeu a possibilidade de controlar a própria versão da história.

Era a primeira escolha realmente diferente que fazia desde que Paulo começara a investigar o esquema.

Nas semanas seguintes, a madeireira passou por uma revisão profunda de seus registros, Marcelo foi afastado das funções que lhe davam acesso aos recursos questionados e os documentos ligados a Henrique deixaram de ser tratados como simples formalidades de confiança.

Augusto também teve de responder pelas autorizações que havia dado anos antes.

Larissa não voltou a ocupar o lugar que possuía na rotina do avô, e Eduardo iniciou o fim do casamento sem transformar o processo numa negociação sobre dinheiro ou sobre quem ficaria com a empresa.

O que mais lhe custou não foi descobrir a traição da esposa.

Foi aceitar que a verdade deixada pelo pai não oferecia um homem completamente inocente de um lado e monstros perfeitamente separados do outro.

Paulo havia tentado impedir um sistema que começou com uma concessão de Augusto, cresceu com a habilidade documental de Henrique, ganhou força financeira nas mãos de Marcelo e acabou encontrando em Larissa alguém disposta a usar a fragilidade do próprio avô como oportunidade.

A carta impedia Eduardo de escolher uma versão confortável.

Meses depois, Augusto voltou a entrar na Madeireira Saldanha não como o velho incapaz que muitos acreditavam conhecer, mas também sem recuperar automaticamente a autoridade que tivera antes.

Eduardo não fingiu que a confissão apagava o que ele havia escondido de Paulo.

Augusto não pediu que fingisse.

Eles reconstruíram a relação devagar, falando da empresa, dos funcionários antigos e dos pedidos, como Eduardo fazia durante os dois anos em que todos diziam que aquelas conversas não serviam para nada.

A diferença era que agora Augusto respondia.

Certa manhã, Eduardo encontrou no porta-luvas a carta do pai, ainda dobrada nas mesmas marcas feitas no dia em que a recebera.

Ele havia digitalizado o conteúdo necessário para preservar os registros, mas continuava carregando o original consigo.

Não como arma contra Larissa.

Não como instrumento para proteger Augusto.

Era simplesmente a última orientação que Paulo deixara ao filho para quando chegasse o momento em que amar alguém e acreditar em alguém deixassem de significar a mesma coisa.

Naquela noite, Eduardo passou na casa de Augusto antes de voltar para o próprio apartamento.

O quarto onde o encontrara trancado estava com a porta escancarada, e sobre a cabeceira havia água suficiente ao alcance da mão.

Augusto percebeu Eduardo olhando para o lugar onde o cadeado estivera.

— Pode deixar aberta — disse.

Eduardo não respondeu.

Apenas colocou a carta de Paulo sobre a cômoda por alguns segundos enquanto ajudava Augusto a organizar os remédios, e, antes de ir embora, pegou o papel de volta.

A porta continuou aberta.

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