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Ele Recusou 180 Mil Pesos — Então O Pai Dela Foi Até Seu Apartamento-naomi

Quando abri a porta naquela noite de quinta, Ernesto ocupava o corredor, e Valeria permanecia logo atrás dele, sem a pasta do restaurante e sem a segurança que tivera ao empurrar 180.000 pesos na minha direção.

Meu primeiro impulso foi fechar a porta.

Ernesto percebeu.

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— Antes que faça isso, me dê cinco minutos.

Olhei para Valeria.

— Eu bloqueei seu número por um motivo.

— Eu sei — Ernesto respondeu. — Por isso vim pessoalmente.

— E como conseguiu meu endereço?

Ele virou o rosto para a filha.

Valeria apertou os lábios.

— Estava na pesquisa que fiz sobre você.

Eu ri sem vontade.

— Ótimo. Isso melhora muito as coisas.

Ernesto levantou uma das mãos.

— Mateo, eu não vim defender o que ela fez.

Valeria olhou para o pai, mas não interrompeu.

Ernesto então explicou por que nunca aparecera durante meu encontro com ela: a velha Ford vermelha não quis pegar naquele dia, ele chegou ao restaurante 27 minutos atrasado e encontrou apenas Valeria, que disse que a conversa tinha terminado mal.

Nos dias seguintes, ele havia me mandado mensagens perguntando o que acontecera, mas eu estava tão irritado que respondi apenas duas vezes e, depois, bloqueei o número.

Naquela quinta-feira, cansado das respostas vagas da filha, Ernesto insistiu até ouvir a história inteira.

Inclusive a parte do cheque.

— Cento e oitenta mil pesos — repetiu ele, olhando para Valeria. — Para comprar o desaparecimento de uma pessoa que você nem conhecia.

— Eu achei que estivesse protegendo você.

— De quê?

— De alguém que podia estar se aproximando por dinheiro.

Ernesto apontou para mim.

— Ele recusou seu dinheiro.

— Depois que eu o confrontei.

— Exatamente — Ernesto respondeu. — E você ainda está tentando transformar isso em prova contra ele.

Valeria ficou calada.

Eu queria terminar aquela conversa.

Eu queria voltar para dentro.

Eu queria esquecer os dois.

Mas Ernesto tinha sido o único naquela história inteira que nunca me tratara como alguém quebrado que precisava ser comprado ou como suspeito que precisava ser investigado.

Então abri mais a porta.

— Cinco minutos.

Meu apartamento não ajudava minha imagem.

Havia caixas de parafusos perto da parede, duas extensões enroladas numa cadeira e uma fatura vencida sobre a pequena mesa da cozinha.

Valeria viu tudo.

Dessa vez, não comentou.

Ernesto se sentou e foi direto ao assunto.

— Preciso que você faça uma reforma para mim.

Soltei uma risada curta.

— Não.

— Você nem sabe qual é.

— O senhor tem bilhões de pesos e uma empresa inteira de logística, Ernesto, então pode contratar alguém sem transformar isso numa continuação daquele restaurante.

— É justamente por eu poder contratar qualquer pessoa que quero contratar alguém que me mandaria parar antes de tentar levantar sozinho uma serra de mais de 90 quilos.

Olhei para Valeria.

— Foi ideia sua?

— Não.

A resposta veio rápida.

Ernesto explicou que mantinha uma oficina antiga, um espaço que usara muitos anos antes de sua empresa crescer e que continuava servindo para seus móveis, ferramentas e projetos pessoais.

O lugar precisava de reparos.

Nada relacionado ao Grupo Salgado.

Nada de cargo.

Nada de sociedade.

Nada de presente.

— Você olha, faz um orçamento e cobra o que cobraria de qualquer cliente — disse Ernesto. — Se não quiser o serviço depois disso, acaba ali.

Valeria cruzou os braços.

— E eu quero ver o orçamento.

Olhei para ela.

— Você não é minha cliente.

Ernesto quase sorriu.

— Agora você entende por que gostei dele.

— Pai.

— Estou falando sério.

Valeria respirou devagar e então me encarou.

— Eu também vim por outro motivo.

Esperei.

— Eu ultrapassei um limite no restaurante.

Aquilo ainda não era exatamente um pedido de desculpas.

Ela sabia.

— Investigar seus dados pessoais daquela forma foi invasivo, e oferecer dinheiro para você desaparecer da vida do meu pai foi ofensivo.

Ernesto não ajudou.

Não completou a frase por ela.

Valeria precisou fazer isso sozinha.

— Desculpe.

Eu não disse que estava tudo bem.

Porque não estava.

— Aceito o pedido de desculpas — respondi. — Mas aceitar não significa fingir que não aconteceu.

Ela assentiu.

Era pouco.

Mas era diferente.

Dois dias depois, fui ver a oficina.

Ernesto chegou na velha Ford, que fazia um barulho metálico cada vez que ele reduzia a velocidade, e eu tive vontade de perguntar como um homem com patrimônio de mais de 9 bilhões de pesos continuava dirigindo aquilo.

Não perguntei.

Ele respondeu mesmo assim.

— Minha filha já tentou comprar outra para mim quatro vezes.

— E o senhor recusou?

— Cinco vezes.

— Você disse quatro.

— Uma eu aceitei, dirigi durante dois dias e devolvi.

A oficina ficava num imóvel antigo que Ernesto ainda conservava para uso pessoal.

Não era luxuosa.

Tinha paredes marcadas, bancadas pesadas, armários de madeira, uma parte do piso irregular e uma cobertura que precisava de atenção antes da próxima temporada de chuva.

No centro estava a serra.

A mesma.

O ferro ainda tinha a marca deixada quando nós a empurramos para dentro da caçamba naquele estacionamento molhado.

— Então foi para isso — falei.

Ernesto passou a mão pela lateral da máquina.

— Foi aqui que comecei a trabalhar sério com madeira.

Ele contou que, muito antes de a logística dominar sua vida profissional, fazia peças, consertava móveis e construía coisas porque gostava de terminar o dia conseguindo apontar para algo concreto e dizer que aquilo não existia pela manhã.

A empresa crescera.

A oficina ficara.

— Quero continuar usando o lugar — disse ele. — Mas Valeria acha que tudo que é antigo está tentando me matar.

— Depois de ver o senhor tentando levantar essa serra sozinho, talvez ela tenha um argumento.

Ernesto riu.

Fiz as medições e passei quase três horas olhando o que realmente precisava ser substituído e o que só precisava de reparo.

Quando terminei, disse que enviaria o orçamento na manhã seguinte.

Valeria estava presente quando entreguei o documento.

O total era bem menor do que Ernesto esperava.

Ela leu duas vezes.

— Está faltando coisa.

— Não.

— Meu pai pediu para reformar tudo.

— E metade de tudo ainda funciona.

Apontei para uma das bancadas.

— Isso aqui não precisa ser trocado; precisa ser nivelado, lixado e protegido.

Depois mostrei os armários.

— As portas estão ruins, mas as caixas estão boas.

Valeria continuou passando os olhos pelos itens.

— Você ganharia mais substituindo tudo.

— Ganhar mais não é a mesma coisa que fazer o trabalho certo.

Ernesto encostou na serra.

— Posso usar enquanto vocês trabalham?

— Não.

Ele ergueu as sobrancelhas.

— Não?

— Até eu terminar a área e deixar a máquina instalada de forma segura, ela fica desligada.

— A serra é minha.

— A oficina também, mas enquanto eu estiver trabalhando nela, não vou fingir que está tudo bem só porque o cliente é teimoso.

Valeria abaixou o orçamento.

Pela primeira vez desde que nos conhecemos, vi algo parecido com diversão no rosto dela.

— Agora você entende — Ernesto disse.

O trabalho começou três dias depois.

Eu estava precisando daquele dinheiro, mas fiz questão de usar o mesmo contrato simples que utilizava com qualquer cliente, com etapas, materiais e datas escritos de forma clara.

Ernesto assinou sem negociar uma linha.

Valeria leu tudo.

Naturalmente.

Na primeira semana, apareceu duas vezes.

Na segunda, apareceu quatro.

Na terceira, já não fingia que estava ali apenas para verificar o serviço.

Às vezes levava café para o pai.

Às vezes ficava vinte minutos discutindo com ele sobre a caminhonete.

Às vezes simplesmente se sentava numa das bancadas e respondia mensagens de trabalho enquanto Ernesto lixava alguma peça a poucos metros dela.

Eu me lembrei do que tinha dito no restaurante.

Acompanhe seu pai.

Passe tempo com ele.

Ela estava fazendo exatamente isso.

Sem anunciar.

Sem transformar em favor.

Numa terça-feira, Ernesto saiu para buscar uma peça e Valeria ficou na oficina enquanto eu ajustava duas portas de armário antigas.

— Por que você abandonou arquitetura? — perguntou.

Parei por um instante.

Ela percebeu o problema imediatamente.

— Não estou investigando você desta vez.

— Você já sabe que cursei três anos.

— Sei.

— Então sabe mais do que a maioria das pessoas com quem saí para tomar café.

— Isso foi uma piada?

— Talvez.

Ela esperou.

Contei que estudar e manter as contas funcionando ao mesmo tempo tinha deixado de ser sustentável, então comecei a aceitar cada vez mais serviços até o trabalho ocupar o lugar que antes pertencia às aulas.

Eu sempre imaginara que voltaria.

Depois parei de prometer uma data a mim mesmo.

— Você sente vergonha disso? — ela perguntou.

— Às vezes.

Ela apoiou o celular na bancada.

— Meu pai fala como se largar alguma coisa fosse sempre covardia.

— Seu pai tenta erguer serra de 90 quilos sozinho.

Valeria riu.

Foi a primeira vez que a ouvi rir de verdade.

Naquela tarde, Ernesto voltou carregando uma pequena caixa e encontrou nós dois trabalhando lado a lado nas portas do armário.

Ele não comentou.

Isso foi pior.

Três dias depois, o cliente que segurava meus 24.000 pesos voltou a ligar.

Queria que eu retornasse ao banheiro, refizesse parte do acabamento e ainda aceitasse um desconto porque, segundo ele, a tonalidade continuava não sendo exatamente marfim.

Eu precisava do pagamento.

Muito.

Minhas ferramentas compradas a crédito não tinham adquirido o hábito de se pagar sozinhas.

Valeria ouviu parte da ligação porque estava perto.

Quando desliguei, ela perguntou quanto aquele cliente devia.

— Não interessa.

— Vinte e quatro mil?

Olhei para ela.

— Meu pai contou.

— Claro que contou.

Ela pegou o celular.

— Posso adiantar essa quantia do serviço da oficina.

— Não.

— Não estou oferecendo um presente.

— Eu sei.

— Então qual é o problema?

— O problema é que eu combinei uma forma de pagamento com Ernesto, e não vou mudar porque minha conta está apertada.

Ela guardou o aparelho.

— Você torna tudo mais difícil do que precisa ser.

— Engraçado ouvir isso da mulher que fez uma investigação completa antes de tomar água comigo.

Ela aceitou o golpe.

— Justo.

Voltei ao cliente no fim do dia, mostrei novamente o que havia sido contratado, corrigi um pequeno ponto que realmente precisava de ajuste e recusei refazer gratuitamente um trabalho inteiro por uma exigência que não constava do acordo original.

Ele ameaçou continuar segurando o dinheiro.

Eu disse que então nossa conversa teria de permanecer limitada ao que estava documentado entre nós.

Dois dias depois, recebi os 24.000 pesos.

Não foi uma vitória espetacular.

Foi melhor.

Era dinheiro que eu tinha trabalhado para ganhar.

Quando contei a Ernesto, ele apenas levantou a caneca de café.

Valeria não disse nada naquele momento.

Mais tarde, encontrou minha velha escada apoiada na caminhonete e perguntou por que eu ainda não tinha trocado aquilo.

— Porque pagar dívida vem antes.

— Você prometeu trocar há quanto tempo?

— Dois anos.

— Então talvez segurança venha antes da dívida.

Fiquei olhando para ela.

— Isso foi uma crítica ou preocupação?

— Não se acostume.

Comprei uma escada nova na semana seguinte.

Paguei sem usar crédito.

A oficina ficou pronta em 23 dias.

No último, Ernesto entrou cedo e passou os dedos pela bancada restaurada, abriu os armários que antes prendiam e caminhou até a serra.

— Agora posso?

— Agora pode.

Ele ligou a máquina por alguns segundos, satisfeito com a instalação, e depois desligou.

Valeria estava ao lado dele.

— Valeu a pena não demolir tudo? — Ernesto perguntou.

— Eu nunca disse que queria demolir.

— Você pensou.

— Pensar ainda é permitido.

Ele apontou para nós dois.

— Vocês discutem igual.

— Não — respondemos ao mesmo tempo.

Ernesto sorriu.

Quando fui entregar a última cobrança, ele tentou me oferecer outro serviço.

Dessa vez, era maior.

Algumas reformas de manutenção relacionadas aos imóveis comerciais do grupo precisariam de novos fornecedores, e ele disse que poderia colocar meu nome diretamente na mesa certa.

Valeria interrompeu antes que eu respondesse.

— Não.

Ernesto se virou para ela.

— Agora você é contra ele trabalhar?

— Sou contra você dar um contrato porque gosta dele.

Olhei para Valeria.

Ela continuou.

— Se Mateo quiser participar, apresenta orçamento como os outros.

Eu concordei imediatamente.

Ernesto pareceu ofendido pelos dois.

— Vocês acabaram de formar uma aliança contra mim?

— Temporária — falei.

— Muito temporária — Valeria acrescentou.

Aquilo mudou alguma coisa.

Não porque Valeria finalmente acreditasse em mim sem reservas, mas porque, pela primeira vez, ela confiou o suficiente para não tentar decidir o resultado antes de ele acontecer.

Apresentei uma proposta semanas depois.

Não ganhei o maior serviço disponível.

Ganhei um pequeno trabalho inicial.

Foi suficiente.

Eu ainda tinha dívidas.

Ainda precisava negociar material.

Ainda havia clientes que pagavam tarde e dias em que minha caminhonete parecia determinada a competir com a Ford de Ernesto em número de ruídos inexplicáveis.

Mas a diferença era que eu já não precisava aceitar qualquer condição apenas porque tinha medo da próxima fatura.

Valeria também mudou de uma forma menos visível.

Ela parou de aparecer na oficina para verificar quem estava perto do pai.

Passou a aparecer porque tinha combinado almoço com ele.

Ernesto continuava provocando.

Valeria continuava discutindo.

Só que agora ela ficava.

Certa tarde, enquanto Ernesto procurava madeira numa prateleira, ela se aproximou de mim e tirou um papel dobrado da bolsa.

Reconheci antes que abrisse.

Era o cheque de 180.000 pesos.

O mesmo valor.

A mesma assinatura.

— Por que ainda está com isso?

— Porque eu não sabia o que fazer com ele.

— Rasgar parecia uma opção.

— Eu pensei nisso.

Ela colocou o cheque sobre a bancada.

— Durante anos, eu achei que proteção significava prever o pior antes que ele tivesse chance de acontecer.

Não respondi.

Ela passou o dedo pela borda do papel.

— Depois que a empresa cresceu, comecei a ver gente se aproximar do meu pai querendo emprego, investimento, empréstimo, favor, apresentação, contrato.

— Algumas provavelmente queriam mesmo.

— Muitas queriam.

— E aí você decidiu que todas queriam.

Valeria assentiu.

— Foi mais fácil.

Aquela frase explicou mais do que qualquer discurso que ela pudesse ter feito.

Não absolvia o que acontecera.

Mas dava forma ao problema.

— E o cheque? — perguntei.

Ela o rasgou uma vez no meio.

Depois outra.

Colocou os pedaços na mão.

— Esse foi o dia em que percebi que estava tentando controlar meu pai com o argumento de que outras pessoas queriam controlá-lo.

Ernesto surgiu atrás dela com uma tábua nos braços.

— Demorou.

Valeria se virou.

— Você estava ouvindo?

— Esta é a minha oficina.

— Isso não responde.

— Responde o suficiente.

Ela pegou um pedaço de madeira pequeno e jogou na direção dele.

Ernesto desviou rindo.

Foi ali que percebi que a ferida entre os dois não tinha começado comigo.

Eu só tinha entrado no meio dela carregando metade de uma serra pesada num estacionamento.

Nos meses seguintes, Ernesto e Valeria estabeleceram uma regra simples: ele não esconderia problemas apenas para evitar que ela se preocupasse, e ela não investigaria nem afastaria pessoas da vida dele sem uma razão concreta que pudesse explicar olhando para ele.

Não funcionou perfeitamente.

Funcionou de verdade.

Às vezes brigavam.

Às vezes ela ultrapassava a linha.

Às vezes Ernesto fazia alguma coisa absurda sozinho apenas para provar que ainda conseguia.

Mas agora diziam isso um ao outro.

Sem cheques.

Sem pastas.

Sem terceiros decidindo em silêncio.

Quanto a Valeria e eu, demoramos mais.

Talvez porque nenhum dos dois quisesse dar a Ernesto a satisfação de dizer que tinha previsto alguma coisa.

Nosso primeiro almoço sem ele aconteceu quase quatro meses depois do restaurante de Santa Fe.

Valeria escolheu um lugar simples.

Quando o garçom colocou água na mesa, olhei para o copo e depois para ela.

— Quanto custa?

Ela estreitou os olhos.

— Se você fizer uma piada sobre dois tacos, vou embora.

— Eu ia perguntar se preciso vender minha escada nova.

Ela riu.

O almoço durou três horas.

Nenhum de nós chamou aquilo de encontro.

Ernesto chamou.

Na semana seguinte, ele chamou de namoro.

Valeria ameaçou proibi-lo de entrar na própria oficina.

Sete meses depois, já não havia muito sentido em negar.

Ernesto recebeu a notícia como se tivesse fechado o maior contrato da vida, o que fez Valeria avisá-lo de que, se contasse para alguém que tinha planejado aquilo, ela venderia a Ford vermelha enquanto ele estivesse dormindo.

Ele apontou para mim.

— Mateo sabe que eu nunca planejei nada.

— Sei?

Ernesto me encarou.

— Você está ficando muito parecido com ela.

Minha empresa também não virou um império.

E fiquei feliz por isso.

Terminei aquele ano com as dívidas comerciais sob controle, uma escada que não ameaçava minha vida, ferramentas pagas e trabalho suficiente para poder recusar cliente que tentasse mudar as regras depois de concluído o serviço.

O pequeno contrato com o Grupo Salgado terminou bem, mas eu não transformei Ernesto num atalho permanente.

Alguns serviços seguintes vieram por indicação normal.

Outros não vieram.

Continuei cobrando orçamento, comprando material, dirigindo minha caminhonete branca coberta de poeira e chegando em casa cansado.

Só que já não acordava toda manhã calculando qual dívida precisava ser ignorada primeiro.

Quase um ano depois do dia em que ajudei Ernesto no estacionamento, nós três estávamos novamente na oficina.

Valeria tinha deixado o terno no trabalho e estava com as mangas dobradas, anotando medidas de uma pequena estante que queria fazer para o apartamento.

Eu marcava a madeira.

Ernesto supervisionava como se nós dois fôssemos aprendizes particularmente lentos.

— Mais dois milímetros — disse ele.

— Não — respondi.

— Eu faço móveis há mais tempo do que você está vivo.

— E eu medi três vezes.

Valeria levantou a cabeça.

— Mateo está certo.

Ernesto colocou a mão no peito.

— Na minha própria oficina.

— A verdade não muda de endereço — ela disse.

— Vocês realmente ficaram insuportáveis juntos.

Ele puxou a peça para perto da velha serra.

A máquina ainda tinha o arranhão na lateral da caçamba, lembrança daquela manhã de garoa em que eu estava atrasado, endividado e poderia simplesmente ter continuado andando.

Ernesto posicionou a madeira, mas antes de ligar a serra olhou para mim.

— Lembra do estacionamento?

— Lembro.

— Você me mandou esperar até o três.

Valeria colocou o lápis sobre a bancada.

— Vocês vão ficar sentimentais agora?

— Não — dissemos juntos.

Ernesto ligou a serra.

O corte foi limpo.

Quando terminou, desligou a máquina, retirou a tábua e a empurrou pela bancada na nossa direção.

Então ficou de um lado, eu do outro, e Valeria segurou a peça entre nós enquanto Ernesto apontava para a próxima marca.

— Dessa vez — ele ordenou — ninguém levanta nada sozinho.

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