Posted in

Ele Apostou Que Ela Voltaria Implorando — Mas Valeria Sumiu-naomi

Pouco antes da meia-noite, Valeria descobriu que Adrián não pretendia aceitar o desaparecimento dela como resposta: ele havia avisado Irene que, se ela não aparecesse no aniversário, tentaria encontrá-la de qualquer maneira.

Valeria ficou sentada no chão do apartamento alugado, com as costas apoiadas em uma das malas ainda fechadas.

O sexto andar parecia mais alto depois de um dia inteiro carregando peso pela escada, e o tapete de ioga que serviria de cama naquela noite já estava estendido perto da parede.

Image

Ela releu a mensagem de Irene.

Depois leu mais uma vez.

Durante três anos, uma frase dessas teria produzido exatamente o efeito que Adrián esperava.

Ansiedade.

Culpa.

Urgência.

Valeria teria imaginado todas as versões possíveis do reencontro, escolhido a menos dolorosa e, antes do amanhecer, provavelmente teria enviado alguma mensagem tentando consertar uma situação que não havia criado sozinha.

Dessa vez, guardou o celular.

Não respondeu a Adrián porque Adrián não tinha o número.

Não pediu a Irene que explicasse nada.

Não publicou indireta.

Não abriu uma conta nova para verificar o aniversário dele.

A única coisa que fez foi levantar, abrir uma das malas e procurar uma camiseta limpa para usar como travesseiro.

Na manhã seguinte, acordou com as costas doendo e alguém batendo duas vezes à porta.

Valeria se levantou assustada.

Por alguns segundos, a frase de Adrián voltou inteira à cabeça.

Iria atrás dela.

Custasse o que custasse.

Ela chegou perto da porta sem abrir.

— Quem é?

— Mateo. Do 602.

Valeria reconheceu a voz do vizinho que havia ajudado com a última mala.

Quando abriu apenas o necessário, encontrou Mateo segurando uma pequena caixa de ferramentas.

— Ontem você comentou que a janela da cozinha não fechava direito — disse ele. — Tenho uma chave que talvez sirva para apertar o trinco.

Valeria quase recusou por reflexo.

Aceitar ajuda ainda parecia perigoso quando ela estava tentando provar a si mesma que conseguia fazer tudo sozinha.

Mas olhou para a janela, depois para a caixa.

— Cinco minutos.

— Cinco minutos.

Mateo entrou, mexeu apenas no trinco e foi embora antes que os cinco minutos terminassem.

Não perguntou de onde ela tinha vindo.

Não perguntou por que havia duas malas no meio da sala.

Não perguntou se ela tinha namorado.

Antes de sair, apenas avisou que o registro geral de água do apartamento estava fechado e mostrou onde ficava.

Valeria girou a pequena válvula.

Pouco depois, a torneira da cozinha finalmente funcionou.

Ela ficou olhando a água cair por alguns segundos.

Era uma coisa mínima.

Mesmo assim, naquela manhã pareceu a primeira coisa que funcionava porque ela havia escolhido ficar.

Às 10h13, Irene ligou.

— Ele voltou.

Valeria fechou a torneira.

— Adrián?

— Sim.

— O que ele queria?

Irene hesitou antes de responder.

— Primeiro, saber seu endereço. Depois, saber se você tinha deixado alguma mensagem. Quando eu disse que não, perguntou se você estava fazendo isso para assustá-lo.

Valeria encostou a mão na pia.

Aquilo doeu mais do que ela gostaria de admitir.

Não porque Adrián estivesse preocupado.

Justamente porque ele ainda interpretava a decisão dela como uma estratégia em torno dele.

— E você respondeu o quê?

— Que sua demissão tinha sido voluntária e que eu não passaria informações pessoais.

— Obrigada.

— Vale… ele realmente acreditava que você apareceria ontem.

Era o aniversário dele.

Valeria havia passado quase todo o dia resolvendo um contrato de aluguel, comprando produtos básicos e subindo seis andares com sacolas.

Em nenhum momento percebeu a hora exata em que o aniversário começara.

— Ele perguntou se eu tinha certeza de que você não estava esperando ele ir atrás — continuou Irene.

Valeria soltou uma risada curta, sem humor.

— Claro que perguntou.

Naquele mesmo dia, Irene enviou a ela uma captura de tela que uma colega em comum havia recebido.

Era uma conversa no grupo de amigos de Adrián.

Marco perguntava se alguém sabia onde Valeria estava.

Outro amigo escreveu que talvez ela tivesse ido para a casa da mãe.

Adrián respondeu que não.

Ele já tinha tentado descobrir.

Mais abaixo, Marco escreveu:

“Então ela realmente não veio?”

Adrián respondeu somente:

“Ela vai aparecer.”

Valeria olhou para aquelas três palavras.

Não eram um pedido.

Não eram uma pergunta.

Eram uma certeza antiga.

Durante anos, Adrián havia aprendido a esperar.

Bastava prolongar o silêncio.

Bastava deixar Valeria desconfortável o suficiente.

Bastava fazer com que ela acreditasse que perder o relacionamento seria pior do que engolir qualquer humilhação.

Depois, ela voltava.

Aquela fórmula tinha funcionado tantas vezes que ele nem parecia considerar outra possibilidade.

Valeria salvou a nova captura junto das anteriores.

Depois fechou a pasta.

Ela não precisava olhar todos os dias para lembrar por que tinha ido embora.

Precisava apenas impedir que a saudade reorganizasse os fatos.

Nos dias seguintes, a vida ficou menos dramática e mais difícil de um jeito quase banal.

Valeria precisava de cama.

Precisava de panelas.

Precisava descobrir como pagaria o aluguel depois de ter abandonado o emprego sem outro trabalho garantido.

Também precisava acostumar o corpo ao sexto andar.

Na terceira subida carregando compras, parou no quarto andar e prometeu nunca mais comprar água demais de uma vez.

Mateo passou descendo.

— Ainda está viva?

— Por enquanto.

— Depois de duas semanas, você para de odiar a escada.

— Isso parece mentira.

— É mentira.

Ele continuou descendo.

Valeria riu sozinha pela primeira vez desde a foto de Adrián com Sofía.

Não significava que estava curada.

Também não significava que Mateo seria alguma coisa além de um vizinho.

Era só uma conversa normal numa escada.

E justamente por ser normal, fez Valeria perceber quanto tempo havia passado interpretando cada interação da própria vida em função do humor de Adrián.

Na semana seguinte, Irene mandou outro recado.

Adrián tinha parado de aparecer na agência.

Agora enviava mensagens.

Como não tinha o novo número de Valeria, escrevia para Irene, para conhecidos e para pessoas que poderiam ter alguma pista.

As versões mudavam.

Para alguns, dizia que Valeria havia desaparecido sem explicação.

Para outros, afirmava que os dois só tinham dado um tempo e que ela estava exagerando.

A uma amiga em comum, escreveu que Valeria certamente estava esperando um pedido de desculpas grandioso.

A palavra “desapareceu” incomodou Valeria.

Ela não havia desaparecido.

Havia saído.

Deixara as chaves do apartamento.

Pedira demissão.

Levado apenas o que era dela.

Não devia a Adrián uma localização para que a decisão de terminar fosse considerada válida.

Ainda assim, uma parte antiga dela queria responder.

Queria escrever uma mensagem enorme explicando exatamente por que havia ido embora.

Queria listar cada comentário, cada silêncio, cada pedido de desculpas arrancado pelo medo de ser abandonada.

Queria fazê-lo entender.

Foi então que abriu novamente as capturas salvas na madrugada.

Na legenda, Adrián dizia que com Sofía finalmente se sentia completo.

Nos comentários, ria da expectativa de Valeria voltar chorando.

Ali estava a explicação que ela precisava.

Mas não era uma explicação para ele.

Era para ela mesma.

Adrián já conhecia o suficiente para saber que a publicação a machucaria.

Tanto conhecia que havia previsto a reação dela em público.

O problema nunca fora falta de informação.

Era o que ele fazia com essa informação.

Valeria apagou o rascunho antes de enviá-lo.

Duas semanas depois, conseguiu o primeiro trabalho temporário de revisão para uma pequena editora que aceitava serviço remoto.

O pagamento era menor do que o antigo salário.

Mesmo assim, quando recebeu o primeiro depósito, sentou no chão da cozinha e fez as contas três vezes.

Aluguel.

Comida.

Internet.

Transporte.

Sobrou pouco.

Mas sobrou.

A diferença parecia insignificante no papel e enorme na cabeça dela.

No apartamento de Adrián, ele pagava o aluguel e repetia que isso provava quanto carregava o relacionamento nas costas.

Valeria cobria quase todo o resto e nunca tinha transformado isso em argumento.

Luz, água, internet, comida, supermercado, limpeza e consertos pequenos desapareciam dentro da expressão “ele paga o aluguel”.

Agora cada despesa tinha o nome dela.

E cada conta paga também.

Certa noite, Irene ligou sem mandar mensagem antes.

— Preciso contar uma coisa antes que chegue até você por outra pessoa.

Valeria fechou o notebook.

— Fala.

— Sofía procurou você.

Valeria demorou alguns segundos para responder.

— Como assim?

— Ela me mandou mensagem perguntando se eu ainda falava com você.

O primeiro impulso foi desligar.

O segundo foi perguntar tudo.

Valeria escolheu o meio.

— Ela disse por quê?

— Disse que precisava esclarecer uma coisa.

— E você passou meu contato?

— Não.

Valeria respirou melhor.

— Obrigada.

— Mas tem mais.

Irene explicou que Sofía parecia ter descoberto somente depois da publicação que Adrián ainda falava de Valeria como namorada para algumas pessoas poucas semanas antes.

Valeria ficou imóvel.

Não sentiu satisfação.

Também não sentiu pena.

A foto daquela madrugada não mudava porque Sofía talvez tivesse recebido uma versão conveniente da história.

Sofía estivera perto demais durante tempo suficiente para saber que existia uma relação complicada ali.

Mas a responsabilidade principal continuava sendo de Adrián.

Era Adrián quem tinha vivido três anos com Valeria.

Era Adrián quem sabia como usava o silêncio contra ela.

Era Adrián quem tinha transformado a humilhação em aposta diante dos amigos.

— Ela quer que eu responda? — perguntou Valeria.

— Não sei.

— Então não responda por mim.

— Certo.

No dia seguinte, outra mensagem chegou por Irene.

Sofía não insistiria.

Tinha apenas deixado uma frase para Valeria:

Adrián havia dito que os dois estavam separados havia meses, embora ainda dividissem o apartamento por conveniência.

Valeria releu a informação.

Aquilo explicava uma parte.

Não explicava tudo.

E, pela primeira vez, ela percebeu que não precisava resolver todas as contradições para seguir em frente.

Talvez Sofía tivesse acreditado nele.

Talvez tivesse acreditado apenas no que era confortável acreditar.

Talvez soubesse mais do que dizia.

Nenhuma dessas possibilidades mudava a decisão tomada às 2h06 da madrugada.

Quase um mês depois da mudança, Valeria recebeu um envelope encaminhado pela antiga proprietária.

Dentro havia apenas uma pequena correspondência que chegara depois de sua saída e um bilhete curto informando que Adrián tinha voltado ao apartamento naquela mesma tarde e ficado surpreso ao descobrir que as chaves haviam sido devolvidas.

Valeria segurou o envelope durante alguns minutos.

A imagem da proprietária fechando os dedos sobre as chaves voltou à memória.

Naquele momento, entregar aquele objeto tinha parecido um gesto simples.

Agora ela entendia o que realmente tinha feito.

Adrián podia discutir uma mensagem.

Podia reinterpretar uma briga.

Podia dizer aos amigos que ela estava exagerando.

Mas não podia transformar um apartamento esvaziado e uma chave devolvida em mais uma discussão temporária.

A ausência tinha forma.

Tinha peso.

Tinha consequência.

Naquela noite, Valeria recebeu a primeira tentativa direta de contato.

Não veio pelo celular.

Chegou por e-mail.

O assunto dizia apenas:

“Precisamos conversar.”

Valeria ficou olhando para a tela.

O texto começava acusando-a de ter ido longe demais.

Adrián dizia que a publicação com Sofía havia acontecido num momento de raiva, porque ele acreditava que Valeria já tinha terminado a relação ao passar quase um mês sem falar com ele.

Depois afirmava que os comentários dos amigos eram brincadeira.

Mais adiante, dizia que a troca de número tinha sido cruel.

No final, perguntava onde ela estava.

Valeria leu uma vez.

A segunda leitura foi diferente.

Ela percebeu uma ausência curiosa.

Adrián explicava a foto.

Explicava os amigos.

Explicava o próprio comportamento.

Explicava o que Valeria havia feito de errado ao sumir.

Mas não havia uma única frase perguntando como ela tinha se sentido ao ver a mulher que sempre fora motivo de conflito deitada sobre o peito dele.

Não havia uma única menção às 27 ligações de meses antes.

Nem às 43 mensagens.

Nem ao padrão de silêncio que ele conhecia tão bem a ponto de apostar publicamente no momento em que ela voltaria.

Valeria abriu uma resposta.

Dessa vez, escreveu pouco.

“Não quero retomar o relacionamento. Não informe outras pessoas de que estamos dando um tempo. Terminamos. Não procure meu endereço nem peça a terceiros que façam isso.”

Leu duas vezes.

Enviou.

Adrián respondeu onze minutos depois.

A mensagem era muito maior.

Valeria não abriu.

Criou uma pasta automática para qualquer novo e-mail dele e voltou ao trabalho.

Não porque não doesse.

Doía.

Mas havia uma diferença entre sentir dor e obedecer a ela.

Nos meses seguintes, Puebla deixou de parecer um esconderijo e começou a parecer endereço.

Valeria comprou uma cama usada.

Depois uma mesa pequena.

Consertou a prateleira da cozinha.

Aprendeu quais compras valiam a subida de seis andares e quais poderiam esperar.

Conseguiu mais clientes de revisão.

Irene continuou amiga, agora sem precisar servir de ponte entre duas pessoas que não tinham mais nada para negociar.

Mateo continuou sendo Mateo, o vizinho do 602 que às vezes segurava a porta do prédio quando ela chegava com sacolas e que certa vez apareceu pedindo açúcar porque tinha esquecido de comprar.

Valeria lhe entregou um pote.

— Quanto eu devo?

— Um pote de açúcar.

— Isso parece dívida com juros.

— Aqui no sexto andar, tudo tem juros.

Ela riu.

Mais tarde, percebeu que não tinha passado os dez minutos seguintes analisando se rira alto demais, se parecera interessada demais ou se Adrián acharia aquilo inadequado.

Essa constatação foi mais importante que a conversa.

Cerca de quatro meses depois, Marco enviou uma mensagem para Irene e pediu que ela repassasse um pedido de desculpas.

Não de Adrián.

Dele mesmo.

Disse que os comentários no aniversário tinham parecido engraçados porque todos do grupo estavam acostumados com o ciclo dos dois.

Adrián sumia.

Valeria procurava.

Eles voltavam.

Depois repetiam.

Marco admitiu que transformar aquilo em piada tinha sido cruel.

Valeria não respondeu.

Mas guardou a informação por uma razão diferente das capturas.

Durante muito tempo, ela acreditara que aquela dinâmica existia apenas entre quatro paredes.

Agora sabia que outras pessoas a enxergavam.

Mais do que isso: algumas tinham aprendido a tratá-la como parte da personalidade dela.

A garota que sempre voltava.

Essa ideia a incomodou durante dias.

Até que percebeu algo simples.

Talvez ela tivesse sido essa pessoa muitas vezes.

Não precisava continuar sendo.

Passaram-se quase sete meses antes de Valeria abrir por acaso a pasta onde os e-mails de Adrián eram arquivados.

Havia dezenas.

Os primeiros eram irritados.

Depois vinham os conciliadores.

Alguns lembravam viagens, jantares, planos e aniversários antigos.

Outros culpavam Sofía.

Mais tarde, havia mensagens dizendo que ele finalmente entendia determinadas coisas.

Valeria não tentou descobrir se a mudança era sincera.

Essa era outra liberdade nova.

Ela não precisava avaliar Adrián para decidir o próprio futuro.

Mesmo que ele tivesse mudado completamente, ela continuava autorizada a não voltar.

Fechou a pasta.

Não apagou os e-mails.

Também não respondeu.

No primeiro aniversário dela depois da mudança, a mãe enviou uma caixa pequena.

A irmã mandou áudio cedo demais.

Irene ligou durante o almoço.

Mateo apareceu à noite com um pedaço de bolo comprado na padaria e reclamou que subir com refrigerante devia contar como atividade esportiva.

Não houve grande festa.

Não houve discurso.

Valeria gostou assim.

Depois que todos foram embora, abriu a gaveta onde guardava documentos importantes e encontrou o arquivo das capturas daquela madrugada.

A primeira mostrava Adrián com Sofía sobre o peito.

A segunda trazia a aposta.

A terceira repetia a certeza de que ela apareceria chorando no aniversário dele.

Valeria ficou olhando para a tela.

Durante meses, aquelas imagens tinham funcionado como prova contra a saudade.

Agora pareciam pertencer a uma vida distante.

Ela não as apagou.

Mas também não precisou lê-las novamente.

Fechou a pasta.

Então abriu a mochila que usava todos os dias e procurou o chaveiro do apartamento.

Havia duas chaves ali.

A da porta do prédio.

E a da própria casa.

Valeria as segurou na palma da mão por alguns segundos.

Quase um ano antes, ela tinha entregado outro conjunto de chaves à proprietária de um lugar que passara três anos chamando de lar sem nunca saber ao certo quanto daquele espaço realmente lhe pertencia.

Naquela noite, ninguém podia pedir aquelas duas chaves de volta porque ela havia decepcionado alguém.

Ninguém podia usar o aluguel como argumento para decidir se ela tinha direito de ficar.

Ninguém podia transformar silêncio em castigo e esperar que ela corresse para consertá-lo.

Valeria apagou a luz da cozinha e caminhou até a porta.

Do corredor, ouviu Mateo reclamando sozinho porque tinha esquecido alguma coisa no térreo.

Ela sorriu, trancou a fechadura e colocou as chaves de volta na mochila.

Adrián estivera certo sobre uma coisa durante três anos: Valeria sempre acabava voltando.

Só que, dessa vez, ela finalmente tinha um lugar para onde voltar que não pertencia a ele.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *