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Uma Pasta na Festa de 60 Anos Revelou o Plano do Meu Marido-silas

A primeira página era uma autorização para transferir o nome, o portfólio e a carteira de clientes do meu estúdio para uma empresa ligada a Renata.

O logotipo no cabeçalho era meu.

A assinatura no rodapé também parecia ser minha.

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Mas eu nunca havia visto aquele documento.

—Essa assinatura é falsa —eu disse.

Julián empurrou a cadeira para trás, como se precisasse criar distância entre ele e a pasta.

Renata limpou o molho do rosto com o guardanapo e tentou recuperar a expressão de superioridade que usara durante todo o jantar.

—É apenas uma minuta preliminar —ela respondeu—, ninguém estava tentando prejudicar você.

Beatriz virou a segunda página.

Ali estava o acordo que transferia sete dos maiores clientes da agência de Julián para a nova empresa de Renata, levando junto campanhas em andamento, arquivos criativos e contratos que dependiam do meu trabalho.

Meu nome aparecia como diretora responsável pela transição.

—Eu não autorizei nada disso.

—Você teria autorizado depois que entendesse a situação —Julián murmurou.

A frase doeu mais do que uma confissão direta.

Ele não dizia que eu havia concordado.

Dizia que minha vontade seria corrigida quando deixasse de atrapalhar os planos dele.

Beatriz retirou mais três folhas da pasta e as alinhou sobre a mesa manchada de molho.

Eram cópias de mensagens enviadas do endereço profissional do meu estúdio para três clientes, informando que eu havia aceitado a transferência e trabalharia ao lado de Renata.

As mensagens tinham sido disparadas naquela manhã.

Uma delas terminava com uma frase que eu usava em quase todas as minhas propostas comerciais.

Renata não conhecia aquela frase.

Julián conhecia.

—Você entrou no meu e-mail? —perguntei.

Ele apertou os lábios.

Renata respondeu por ele.

—Os clientes já receberam o comunicado, Mariana, e dois deles confirmaram que querem participar da nova estrutura.

Foi então que entendi que aquela festa não era apenas o cenário de uma humilhação conjugal.

Era parte do plano.

Eles precisavam que todos nos vissem juntos, sentados à mesma mesa, para que no dia seguinte ninguém estranhasse a notícia de que Renata havia sido acolhida pela família e aprovada por mim.

A cadeira ao meu lado, o vestido parecido com o meu e até o pedido para que eu descascasse o camarão tinham uma função.

Se eu obedecesse, pareceria submissa e de acordo.

Se eu reagisse, poderiam me apresentar como uma esposa ciumenta tentando sabotar uma negociação empresarial.

Renata não esperava apenas que eu descascasse um camarão.

Ela esperava que eu entregasse minha reputação sem perceber.

—Foi por isso que você a trouxe? —perguntei a Julián.

Ele olhou rapidamente para os convidados antes de responder.

—A agência está passando por uma crise que você nunca quis compreender.

—Eu reduzi meu estúdio para acompanhar você em reuniões, recepções e jantares durante quatro anos.

—E mesmo assim continuou pensando como uma profissional independente, não como parte da família.

Beatriz fechou os olhos por um instante.

Eu já havia escutado versões daquela frase muitas vezes, algumas pronunciadas pelo próprio Julián e outras sugeridas por ela.

Uma esposa precisava apoiar.

Uma esposa precisava esperar.

Uma esposa não devia competir com o marido.

O que nenhum dos dois dizia era que meu trabalho só era tratado como competição quando começava a dar certo.

Renata se levantou, ainda coberta de molho, e estendeu a mão para recolher os documentos.

—Essa conversa não deveria acontecer diante de convidados.

Beatriz colocou a palma sobre a pasta.

—Foi você quem transformou meus convidados em figurantes do seu anúncio.

Renata lançou um olhar para Julián.

Ele tentou pegar a pasta, mas a mãe a puxou para perto do corpo.

—Você não entende os riscos, mãe.

—Entendo o bastante para saber que deixou esses papéis no meu escritório e pediu que eu assinasse uma declaração de ciência sem ler.

Julián empalideceu ainda mais.

Naquela manhã, ele havia levado a documentação até a casa de Beatriz e dito que precisava apenas da assinatura dela como fundadora do Grupo Salgado.

Afirmara que se tratava de uma reorganização interna para preservar empregos.

Beatriz desconfiou porque a folha reservada para sua assinatura não mencionava valores, clientes nem o nome de Renata.

Em vez de assinar, soltou o grampo que unia as páginas e leu o restante.

Encontrou o nome do meu estúdio, a assinatura falsa e um cronograma que começava na segunda-feira seguinte.

Mesmo assim, não telefonou para mim.

—Eu queria ver até onde ele iria —Beatriz admitiu.

—Você me deixou sentar ao lado dela para fazer um teste?

A indignação no rosto de Beatriz cedeu lugar a algo parecido com vergonha.

—Eu precisava ter certeza de que Renata viria e de que Julián participava disso conscientemente.

—Você poderia ter me avisado.

—Poderia.

Ela não tentou se justificar.

O reconhecimento simples do erro me impediu de dizer coisas que eu não conseguiria recolher depois.

Renata aproveitou o silêncio.

—Julián estava tentando salvar a empresa, e eu fui a única pessoa disposta a apresentar uma solução.

—Uma solução que começa roubando meus clientes.

—Seus clientes procuraram o Grupo Salgado porque confiavam no sobrenome dele.

—Quatro deles chegaram ao grupo por indicação minha.

—E continuaram porque nós oferecemos uma estrutura que o seu estúdio jamais teria.

Renata dizia nós como se já ocupasse um lugar dentro da empresa e dentro da família.

Julián não a corrigiu.

A ausência daquela correção revelou mais do que qualquer fotografia dos dois juntos.

—Há quanto tempo vocês estão planejando isso? —perguntei.

—Não existe nós dois —Julián respondeu depressa—, existe uma negociação.

Apontei para a pulseira no pulso de Renata.

—A negociação também usava joias compradas com dinheiro da agência?

Ele desviou o olhar.

Renata tentou esconder o pulso sob o guardanapo manchado.

—Foi um presente de agradecimento.

—Ele disse que a pulseira havia desaparecido no aeroporto.

—Porque você teria feito exatamente esta cena.

Renata abriu os braços, exibindo o vestido coberto de camarões, como se a comida tivesse caído sobre ela sem qualquer provocação anterior.

—Esta cena foi feita pela mãe dele —respondi—, eu ainda estou tentando decidir qual será a minha.

Alguns convidados baixaram os olhos.

Outros seguravam os celulares debaixo da mesa.

Eu poderia ter saído naquele instante, deixando Beatriz enfrentar o filho e Renata limpar o próprio vestido.

Seria a escolha mais fácil de explicar e talvez a mais confortável para todos.

Mas, se eu fosse embora, Julián continuaria controlando a história.

Na manhã seguinte, ele diria que eu havia interpretado mal os documentos, que a discussão fora provocada pelo ciúme e que minha ausência confirmava minha instabilidade.

Eu conhecia o vocabulário dele porque ajudara a escrevê-lo para clientes em crise.

—Guardem os celulares —eu disse aos convidados.

Ninguém se moveu imediatamente.

Beatriz repetiu a ordem.

Dessa vez, as telas desapareceram.

—Não preciso que ninguém publique esta noite —continuei—, mas alguns de vocês trabalham com empresas citadas nesses documentos e precisam ouvir isto de mim: eu não autorizei nenhuma transferência, não assinei esses papéis e não concordei em trabalhar com Renata.

Um homem sentado duas mesas adiante levantou a mão com cautela.

Era responsável por uma das empresas que haviam recebido o comunicado falso.

—A mensagem chegou do seu endereço.

—Eu sei, e vou corrigi-la agora.

Julián deu um passo na minha direção.

—Não faça isso antes de conversarmos em particular.

—Você usou meu nome em público antes de conversar comigo em particular.

Peguei meu celular e tentei entrar no e-mail do estúdio.

A senha havia sido alterada.

Renata observou a tela e, por um segundo, não conseguiu esconder um pequeno sorriso.

Aquilo confirmou que ela sabia mais sobre o acesso à minha conta do que alegava.

—Quem mudou minha senha?

—Talvez o sistema tenha bloqueado a conta —Julián respondeu.

—Você sempre foi péssimo mentindo quando não preparava a resposta antes.

Caminhei até a mesa em que ele deixara o celular.

Julián o pegou antes que eu alcançasse.

—Não toque nas minhas coisas.

—Meu e-mail está nas suas coisas?

Ele permaneceu imóvel.

Renata percebeu que todos haviam entendido a resposta e tentou mudar o foco.

—Mesmo que as mensagens tenham sido enviadas cedo demais, a proposta continua sendo vantajosa para todos.

Beatriz riu sem humor.

—Vantajosa para você, que recebe os clientes, e para ele, que ganha um cargo na empresa nova depois de esvaziar a antiga.

Ela retirou outra página da pasta.

Era uma lista de funções previstas para a nova estrutura.

No topo aparecia o nome de Renata como presidente.

Logo abaixo, Julián era descrito como diretor de expansão.

O meu nome surgia na terceira linha, acompanhado da expressão consultora criativa durante o período de transição.

Não havia participação, poder de decisão nem garantia de permanência.

Eles pretendiam usar meu trabalho para levar os clientes e me afastar assim que a migração terminasse.

—Você disse que precisava que eu reduzisse o estúdio porque estávamos construindo algo juntos —falei.

—Estávamos, mas as circunstâncias mudaram.

—Para mim, mudaram agora.

Julián se aproximou e baixou a voz.

—Mariana, não destrua tudo por orgulho.

Durante quatro anos, aquela palavra aparecera sempre que eu tentava proteger alguma parte da minha vida.

Orgulho era aceitar um projeto sem consultá-lo.

Orgulho era viajar para apresentar meu trabalho.

Orgulho era reclamar quando ele usava meus contatos e esquecia de mencionar meu nome.

Naquela noite, orgulho significava não colaborar com o próprio desaparecimento.

—Abra seu celular —eu disse.

—Não.

—Então diga diante de todos que não entrou na minha conta.

Ele olhou para a mãe.

Beatriz não o salvou.

Renata também não.

—Eu tinha sua senha porque somos casados —ele respondeu por fim—, e a mensagem precisava sair antes que um concorrente descobrisse a negociação.

—Você enviou o comunicado.

—Eu autorizei o envio.

Renata apertou o guardanapo entre os dedos.

A distinção importava para ele, embora não mudasse nada para mim.

—E a minha assinatura?

—Foi digitalizada de uma proposta antiga.

—Por quem?

Julián demorou a responder.

Renata se antecipou.

—Por uma pessoa da minha equipe, sem entender que você ainda não tinha sido informada.

—Sua equipe recebeu minha assinatura de quem?

Renata olhou para Julián.

Ele não precisava confessar novamente.

O silêncio já tinha dono.

Senti algo se desprender dentro de mim, mas não foi o amor que eu ainda acreditava sentir.

Foi a obrigação de protegê-lo das consequências.

—Beatriz, há um computador no seu escritório?

—Há.

—Quero usar sua conexão e recuperar minha conta.

Julián tentou bloquear minha passagem.

Beatriz ficou entre nós.

—Você já ocupou espaço demais esta noite.

Pela primeira vez, ele pareceu enxergar a mãe não como uma mulher de sessenta anos que poderia ser convencida, mas como a fundadora da empresa que ainda carregava o sobrenome dele.

—Se Mariana enviar uma retratação agora, podemos perder todos os clientes —ele alertou.

—Você deveria ter pensado nisso antes de falsificar a assinatura dela.

—Eu fiz isso para proteger os funcionários.

—Você negociou um cargo para si mesmo.

—Porque alguém precisava conduzir a transição.

—E decidiu que esse alguém seria você.

Beatriz abriu caminho para mim.

No escritório, a música da festa chegava abafada pelas paredes grossas do casarão.

As fotografias antigas do Grupo Salgado ocupavam uma estante inteira, mostrando inaugurações, premiações e jantares em que quase todas as pessoas importantes eram homens.

Numa imagem mais recente, eu aparecia atrás de Julián, segurando uma pasta enquanto ele apertava a mão de um cliente que eu havia apresentado.

Eu me lembrava daquele dia.

A proposta visual era minha, a pesquisa era minha e o contato inicial também.

Mesmo assim, a legenda publicada pela agência dizia que Julián havia liderado pessoalmente toda a conquista.

Na época, ele prometera corrigir o texto.

Nunca corrigiu.

Sentei diante do computador de Beatriz e iniciei a recuperação da conta.

O código de segurança ainda chegava ao meu número, o que significava que Julián alterara apenas a senha, confiando que eu demoraria horas para perceber.

Ele havia calculado que eu estaria ocupada na festa, sorrindo para fotografias e tentando não reagir à presença de Renata.

Recuperei o acesso em poucos minutos.

Na pasta de mensagens enviadas estavam os três comunicados.

Havia também um rascunho destinado aos demais clientes, programado para a manhã seguinte.

O texto anunciava uma aliança estratégica entre meu estúdio, o Grupo Salgado e a empresa de Renata.

Dizia que a união contava com o apoio da família e surgia de uma relação de confiança construída ao longo de anos.

Anexada ao rascunho estava uma fotografia ainda não publicada.

Tinha sido tirada na entrada da festa.

Julián e Renata apareciam de braços dados, com Beatriz ao fundo e a fachada do casarão iluminada.

O enquadramento fazia parecer que ela os recebia sorrindo.

Na realidade, minha sogra estava cumprimentando convidados que chegavam atrás deles.

A legenda já estava pronta.

Celebrando novos começos ao lado de quem sempre acreditou em nós.

Renata não havia vindo apenas para ser vista.

Ela trouxera uma narrativa completa.

Faltava apenas me encaixar nela.

Beatriz leu a mensagem por cima do meu ombro.

—Eles usariam meu aniversário como anúncio.

A voz dela saiu mais baixa do que antes.

—E usariam sua imagem como aprovação.

—Eu passei anos dizendo que você deveria aparecer menos e apoiar mais meu filho.

Não respondi.

—Eu ajudei a ensiná-lo que o trabalho de uma mulher da família podia ser usado sem ser reconhecido.

A confissão não apagava o que ela havia feito, mas era a primeira vez que Beatriz nomeava o próprio papel sem transformá-lo em tradição ou boa intenção.

—Você o ensinou —eu disse—, mas ele escolheu continuar.

—Eu sei.

Redigi uma mensagem curta para os clientes.

Informei que os comunicados anteriores haviam sido enviados sem minha autorização, que nenhuma transferência estava aprovada e que qualquer proposta relacionada ao meu estúdio deveria ser confirmada diretamente comigo.

Não acusei Renata de ser amante.

Não descrevi a pulseira.

Não mencionei o camarão.

Eu queria impedir o plano, não oferecer distrações que permitissem a Julián transformar uma fraude profissional em fofoca conjugal.

Antes de enviar, mostrei o texto a Beatriz.

—Não precisa da minha autorização —ela disse.

—Não estou pedindo autorização, estou garantindo que você saiba o que acontecerá quando eu apertar este botão.

Ela assentiu.

Enviei a mensagem para todos os contatos alcançados pelo anúncio falso.

Depois alterei as senhas do e-mail, dos arquivos do estúdio e do armazenamento em que eu guardava propostas antigas.

Encontrei registros de acesso feitos durante a madrugada a partir do computador de Julián.

Não precisei procurar mais provas.

A pasta já explicava o plano, e o histórico confirmava a execução.

Quando voltamos ao salão, Renata havia limpado parte do vestido e prendido o cabelo molhado num coque improvisado.

Julián caminhava de um lado para outro, respondendo a mensagens que começavam a chegar.

—O que você fez? —ele perguntou.

—Contei aos meus clientes que eu não assinei os documentos.

—Dois deles suspenderam a negociação.

—Então leram minha mensagem.

—Você acabou de colocar dezenas de empregos em risco.

—Você colocou esses empregos em risco quando tentou esvaziar a empresa para garantir seu cargo na próxima.

Renata soltou uma risada curta.

—Não seja ingênua, Mariana, o Grupo Salgado já estava afundando antes de eu aparecer.

—Então por que você queria tanto os clientes dele?

Ela perdeu o sorriso.

—Porque os contratos ainda têm valor.

—A empresa não, mas a carteira sim.

—Negócios exigem decisões desagradáveis.

—Falsificar meu consentimento não foi uma decisão desagradável, foi uma decisão conveniente para você.

Julián segurou o braço de Renata.

—Pare de falar.

Ela se soltou.

—Não me dê ordens agora, depois de prometer que sua esposa aceitaria tudo sem criar dificuldade.

A frase atravessou o salão com clareza.

Julián ficou imóvel.

Renata percebeu tarde demais que, ao tentar se defender, havia destruído a última versão em que ele poderia alegar que agira sozinho para salvar a empresa.

—Você disse isso? —perguntei.

Ele não respondeu.

—Disse que eu aceitaria porque havia abandonado oportunidades demais para começar de novo?

Renata cruzou os braços.

—Ele disse que você sempre recuava quando a família pressionava.

Minha sogra respirou fundo, atingida pela palavra família como se ela também estivesse escrita na pasta.

Durante anos, aquela família havia sido apresentada como algo que eu precisava proteger.

Agora eu via que Julián a usava como ferramenta de contenção.

—Saia da minha casa —Beatriz disse a Renata.

—Você ainda precisa de mim para impedir que a agência quebre.

—Talvez quebre.

A resposta surpreendeu todos, principalmente Julián.

—Mãe, você não pode falar assim.

—Posso, porque finalmente entendi que manter o sobrenome na porta não vale qualquer preço.

Renata pegou a bolsa.

Antes de sair, parou diante de mim.

—Você pensa que venceu porque enviou um e-mail, mas os clientes não permanecem por lealdade.

—Eu sei.

—Eles permanecem onde existe estrutura.

—Então terá de convencê-los sem minha assinatura.

Ela sustentou meu olhar por alguns segundos e depois foi embora sem esperar Julián.

O vestido marfim deixou pequenas marcas de molho no piso do pátio.

Ninguém tentou detê-la.

Julián permaneceu no salão, cercado pelas mesas que horas antes deveriam comprovar seu sucesso familiar.

—Precisamos conversar em casa —ele disse.

—Não existe uma conversa capaz de transformar o que aconteceu em mal-entendido.

—Eu estava desesperado.

—Desespero não digitaliza a assinatura de outra pessoa sozinho.

—Eu devolveria o controle do seu estúdio depois da transição.

—Você planejava me deixar como consultora temporária.

—A descrição do cargo poderia ser alterada.

—O problema não é o cargo.

Ele finalmente pareceu compreender que eu não estava negociando uma posição melhor dentro do plano dele.

Eu estava saindo do plano inteiro.

Julián tentou se aproximar, mas recuei.

—Você vai jogar fora quatro anos de casamento por causa de documentos que nem chegaram a entrar em vigor?

—Eles entraram em vigor no momento em que você decidiu que podia falar em meu nome.

Não houve aplauso.

Não houve grito.

Apenas uma sequência de olhares desviados por pessoas que, durante o jantar, haviam preferido assistir à minha humilhação como se ela não lhes dissesse respeito.

Peguei minha bolsa e a pasta preta.

Julián tentou impedir que eu a levasse.

Beatriz colocou a mão sobre o braço dele.

—A pasta fica com Mariana.

—Os documentos pertencem à empresa.

—A assinatura pertence a ela.

Dessa vez, ele não discutiu.

Naquela noite, não voltei para o apartamento onde morávamos.

Fui para o pequeno espaço acima do meu estúdio, onde durante meses eu havia guardado caixas, amostras e uma cama dobrável usada em semanas de entrega.

O lugar tinha cheiro de papel, tinta e madeira antiga.

Não era confortável, mas tudo ali havia sido escolhido por mim.

Às três da manhã, começaram a chegar respostas dos clientes.

Um pediu uma reunião urgente.

Outro informou que suspenderia qualquer decisão até entender o que acontecera.

O terceiro escreveu que só aceitara a proposta porque acreditava que eu lideraria a equipe criativa.

Nenhum prometeu ficar comigo.

Mesmo assim, cada resposta retirava de Julián e Renata a certeza de que meu nome poderia ser separado da minha voz.

Beatriz apareceu no estúdio na manhã seguinte.

Não trouxe conselhos, comida nem uma solução pronta.

Trouxe uma caixa com cópias dos registros financeiros que Julián deixara em sua casa e a chave do arquivo onde estavam guardados os contratos antigos.

—Você pode precisar disso para separar o que é seu do que pertence ao grupo.

—Não vou assumir a agência.

—Eu não vim pedir isso.

—Ainda não.

Ela aceitou a desconfiança sem se ofender.

—Passei anos acreditando que preservar a empresa era o mesmo que preservar a família.

—E agora?

—Agora estou tentando descobrir o que ainda merece ser preservado.

Beatriz contou que afastaria Julián das decisões da agência enquanto revisava os compromissos assumidos por ele.

Não pediu que eu o perdoasse e não prometeu impedir todas as consequências.

Alguns contratos poderiam ser perdidos.

Alguns funcionários poderiam sair.

A reputação do grupo seria atingida.

Pela primeira vez, ela não me ofereceu a obrigação de consertar o dano produzido pelo filho.

—Há algo que preciso dizer —Beatriz continuou—, e não espero que você responda hoje.

Ela apoiou as mãos sobre a mesa de trabalho.

—Quando Julián pediu que você reduzisse o estúdio, eu o incentivei porque temia que seu sucesso revelasse as limitações dele.

Eu já suspeitava disso, mas ouvir a verdade sem disfarce tornou a ferida mais precisa.

—Você não desconfiava da minha independência —respondi—, você desconfiava do que ele faria diante dela.

—Sim.

—E preferiu diminuir a mim.

—Sim.

Beatriz não chorou nem pediu que eu reconhecesse sua coragem por admitir o erro.

Apenas permaneceu diante de mim, suportando o peso da resposta que escolhera dar.

—Não sei se vou perdoar você.

—Eu sei.

—E jogar a travessa em Renata não apaga os anos anteriores.

—Eu sei disso também.

Depois que ela saiu, abri as gavetas que não tocava havia meses.

Encontrei projetos interrompidos, propostas recusadas e cadernos cheios de ideias que eu havia chamado de impraticáveis porque não cabiam na agenda de Julián.

A primeira decisão do meu retorno não foi aceitar um grande contrato.

Foi ligar para duas antigas colaboradoras e perguntar se ainda tinham interesse em trabalhar comigo.

Uma delas respondeu no mesmo dia.

A outra pediu uma semana.

Foi assim que o estúdio começou de novo, sem anúncio dramático e sem a falsa segurança de que tudo terminaria bem.

Nas semanas seguintes, quatro clientes escolheram continuar comigo.

Dois permaneceram com o Grupo Salgado depois que Beatriz apresentou uma nova direção temporária.

Um deles deixou as duas empresas e procurou outra agência.

Renata tentou retomar as negociações sem meu nome, mas descobriu que parte do valor de sua proposta dependia justamente das relações que ela tratara como simples itens transferíveis.

A empresa dela continuou existindo, porém sem a carteira inteira que esperava receber.

Julián perdeu o cargo de direção e foi obrigado a responder pelas decisões que tomara, sem a proteção da mãe e sem minha presença nas reuniões.

Quando finalmente apareceu no estúdio, quase um mês depois, parecia menor do que na noite da festa.

Colocou sobre minha mesa a caixa de joalheria que trouxera vazia da viagem.

Dentro dela estava a pulseira de platina.

—Renata devolveu.

—Por quê?

—Disse que não queria guardar nada que pudesse ser usado contra ela.

A pulseira brilhava sob a luz da minha mesa, intacta e completamente inútil.

—Você mentiu olhando para mim quando trouxe esta caixa vazia.

—Eu entrei em pânico.

—Você teve um mês para sair do pânico e contar a verdade.

—Eu não queria perder você.

—Então tentou tomar meu trabalho antes que eu pudesse ir embora.

Ele sentou sem que eu oferecesse a cadeira.

—Podemos reconstruir nosso casamento.

—Você ainda fala como se estivesse apresentando uma campanha.

—Estou tentando encontrar as palavras certas.

—As palavras certas não vão mudar a ordem dos fatos.

Ele ofereceu devolver minha parte dos projetos, ajudar com os clientes e assumir publicamente a responsabilidade pelas mensagens.

Algumas dessas ações eram necessárias, mas nenhuma comprava reconciliação.

Expliquei que nossos assuntos financeiros seriam separados e que eu não voltaria para o apartamento.

Julián chorou quando percebeu que minha decisão não era uma estratégia para assustá-lo.

Eu não senti prazer.

Senti apenas a tristeza cansada de quem finalmente enxerga que uma promessa antiga já não descreve a realidade.

Antes de sair, ele empurrou a caixa em minha direção.

—Fique com a pulseira.

—Não é minha.

—Foi comprada com dinheiro que também era nosso.

—Então venda e devolva o valor à agência.

Ele recolheu a caixa.

Dessa vez, saiu carregando o objeto que havia tentado transformar em problema de outra pessoa.

Seis meses depois, o estúdio mudou para um espaço maior no mesmo bairro.

Não havia lustres de cristal nem muros cobertos de flores, apenas janelas amplas, mesas de madeira e uma parede onde cada projeto aparecia acompanhado do nome de quem realmente o criara.

Na pequena confraternização de abertura, Beatriz chegou sozinha.

Ela não tentou ocupar o centro da sala e não apresentou a reforma da própria empresa como se fosse resultado de uma decisão heroica.

Durante aqueles meses, nossa relação avançara por gestos modestos.

Ela perguntava antes de dar conselhos.

Eu respondia quando desejava.

Algumas conversas terminavam cedo.

Outras duravam até o café esfriar.

Ainda havia coisas que eu não conseguia esquecer, mas já não precisava fingir que nada existira para permanecer no mesmo ambiente que ela.

No fim da tarde, uma das colaboradoras colocou sobre a mesa uma travessa de camarões.

Beatriz e eu olhamos para o prato ao mesmo tempo.

Por alguns segundos, nenhuma das duas falou.

Então ela puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado.

—Quer que eu descasque um para você? —perguntou.

Não havia ironia na voz dela.

Também não havia ordem, teste ou plateia esperando para descobrir quem obedeceria.

Peguei dois camarões da travessa e coloquei um no prato de Beatriz.

—Escolha o seu.

Ela sorriu, arregaçou as mangas e começou a retirar a casca.

Eu fiz o mesmo.

As cascas foram se acumulando num pequeno prato entre nós, enquanto a conversa ao redor continuava e nenhuma das duas precisava servir a outra para justificar o próprio lugar.

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