Daniel virou o relógio antigo no pulso e mostrou a Emily uma costura azul quase escondida na parte interna da pulseira de couro.
— Sua mãe fez isso há vinte e seis anos — disse ele. — Ela usou linha hospitalar porque a pulseira tinha arrebentado e eu não podia pagar outra.
Emily aproximou o rosto, sem saber se acreditava nele ou se deveria correr de volta para o terminal cheio de gente.

Margaret consertava tudo com linha azul.
Bolsas, casacos, o estojo de óculos e até as alças das mochilas que Emily levava para a escola tinham pequenas costuras daquela cor.
— Onde você a conheceu?
— Num hospital em Chicago. Eu tinha dezenove anos e havia sofrido um acidente no depósito onde trabalhava. Enquanto estava internado, recebi a notícia de que meu pai tinha sido levado às pressas para St. Louis.
Daniel passou o polegar sobre o vidro riscado do relógio.
— Eu não tinha dinheiro para chegar até ele. Sua mãe comprou minha passagem, devolveu este relógio e ficou ao meu lado até eu embarcar. Quando prometi pagar tudo, ela disse que não queria o dinheiro. Só queria que, um dia, eu ajudasse outra pessoa a chegar aonde precisava.
Emily sentiu as pernas perderem a força.
A frase que Daniel dissera no balcão não havia sido improvisada por um homem rico tentando parecer generoso.
Era uma promessa antiga.
Antes que ela pudesse fazer outra pergunta, o celular vibrou.
A ligação vinha do hospital para onde Margaret havia sido levada.
Emily atendeu imediatamente e ouviu uma funcionária confirmar seu nome antes de falar depressa:
— Sua mãe está sendo preparada para um procedimento urgente. Tentamos falar com você, mas outra familiar disse à equipe que você provavelmente não viria e tentou assumir a conversa sobre as decisões necessárias.
— Quem fez isso?
— Uma mulher chamada Madison.
Emily apertou o telefone com tanta força que os dedos doeram.
— Não aceitem nenhuma orientação dela. Sou a filha de Margaret. Estou a caminho. Passe a ligação para a médica de plantão.
A pequena sala do terminal particular desapareceu ao redor de Emily enquanto ela ouvia a explicação sobre o estado da mãe.
Margaret havia sofrido um infarto grave e apresentava uma obstrução que precisava ser tratada imediatamente.
A equipe não estava esperando a chegada de Emily para agir, mas precisava confirmar informações sobre medicamentos, alergias e o histórico recente de sintomas.
Emily respondeu a tudo com a precisão automática de quem passara anos trabalhando em hospital.
Disse quais remédios a mãe tomava, mencionou a reação alérgica que ela tivera durante uma cirurgia antiga e explicou que Margaret vinha reclamando de cansaço havia alguns dias.
Só quando a médica agradeceu foi que sua voz falhou.
— Ela vai sobreviver?
Houve uma pausa cuidadosa do outro lado.
— Estamos fazendo tudo o que podemos. As próximas horas serão muito importantes.
Emily fechou os olhos.
Daniel permaneceu a poucos passos, sem tocar nela e sem tentar preencher o silêncio com promessas que não podia cumprir.
Quando a ligação terminou, ele indicou a porta de embarque.
— O avião está pronto.
— Madison tentou dizer que eu não iria.
— Então você vai chegar antes que essa mentira se transforme na versão aceita por todos.
Emily entrou na aeronave ainda segurando a bolsa contra o peito.
O interior era confortável, mas não tinha o luxo exagerado que ela imaginara ao ouvir as palavras avião particular.
Havia seis assentos, uma mesa estreita e uma pequena área com água e café.
Daniel colocou a mala dela no compartimento, sentou-se do outro lado do corredor e pediu que a equipe partisse assim que fosse possível.
Emily manteve o celular ligado até o último instante permitido.
Nenhuma nova mensagem do hospital apareceu.
Madison, porém, enviou três.
Na primeira, afirmou que só estava tentando ajudar.
Na segunda, disse que a tia Diane havia pedido que ela fosse ao hospital porque Emily estava longe demais para ser útil.
Na terceira, perguntou quem era o homem rico que havia sido visto acompanhando Emily no aeroporto.
Emily não respondeu.
Daniel olhou pela janela enquanto o avião começava a se mover.
— Ela sempre fala com você dessa forma?
— Nem sempre. Quando precisa de alguma coisa, ela consegue ser muito carinhosa.
Emily contou que havia pagado três meses do aluguel de Madison quando o marido da prima perdera o emprego.
Não fizera aquilo esperando reconhecimento eterno.
Mesmo assim, não conseguia compreender como alguém que recebera tanta ajuda podia responder à notícia de uma mulher entre a vida e a morte com uma frase sobre despesas de funeral.
— Talvez ela esteja assustada — disse Daniel.
— Estar assustada não obriga ninguém a ser cruel.
— Não. Mas às vezes a crueldade aparece quando uma pessoa está tentando empurrar a própria culpa para alguém.
Emily virou o rosto para ele.
— Por que você disse isso?
— Porque ela não se limitou a negar dinheiro. Ela tentou convencê-la de que qualquer desfecho seria responsabilidade sua.
Emily releu mentalmente a mensagem enviada por Madison.
Se sua mãe morrer esta noite, você não pode me culpar por não ter emprestado dinheiro.
Naquele momento, a frase passou a soar diferente.
Não parecia apenas uma recusa.
Parecia uma defesa preparada antes de qualquer acusação.
— Você acha que ela sabe de alguma coisa?
— Acho que vale a pena perguntar quando você chegar. Mas não deixe que essa pergunta roube o tempo que pertence à sua mãe.
O avião ganhou altura, e as luzes de Chicago ficaram menores sob as nuvens.
Emily respirou fundo e apontou para o relógio.
— Você conseguiu chegar a tempo de ver seu pai?
Daniel demorou a responder.
Quando falou, não olhou para ela.
— Não.
A palavra foi simples, mas mudou tudo.
Emily havia imaginado que a história terminara com um reencontro emocionante e que, por isso, Daniel passara vinte e seis anos tentando recompensar Margaret.
A verdade era mais dolorosa.
— Ele morreu pouco antes de meu ônibus chegar — continuou Daniel. — Mas sua mãe tornou possível que eu chegasse naquela noite. Pude vê-lo, segurar a mão dele e dizer tudo o que eu teria carregado pelo resto da vida se tivesse ficado preso em Chicago.
Daniel girou o relógio no pulso.
— Durante muito tempo, eu achei que ela tinha falhado porque meu pai não sobreviveu até minha chegada. Depois entendi que Margaret nunca me prometeu salvar meu pai. Ela apenas se recusou a deixar que eu desistisse dele por causa do preço de uma passagem.
Emily sentiu as lágrimas voltarem, mas não tentou escondê-las.
— Ela nunca me contou sobre você.
— Provavelmente porque, para ela, não foi uma história extraordinária. Era apenas uma noite em que alguém precisava de ajuda.
Daniel explicou que havia procurado Margaret anos depois, quando finalmente conseguiu estabilidade financeira.
Ele só conhecia o primeiro nome, o sobrenome que aparecia no crachá e o hospital onde ela trabalhava naquela época.
Quando voltou, descobriu que Margaret havia se casado, mudado de sobrenome e deixado aquela unidade.
As buscas feitas nos anos seguintes levaram a várias pessoas com o mesmo nome, mas nunca a ela.
— E você a reconheceu numa fotografia tirada às pressas?
— Reconheci os olhos. Depois vi a mão dela perto da maca.
Na imagem enviada pela senhora Parker, os dedos de Margaret estavam parcialmente fechados, como se ainda tentassem segurar alguma coisa.
Daniel tocou a pulseira costurada.
— Ela fazia o mesmo movimento quando estava preocupada. Apertava o polegar contra a lateral do indicador.
Emily conhecia aquele gesto.
A mãe o fazia ao conferir contas, aguardar exames e ouvir notícias difíceis.
A coincidência que parecera impossível no terminal começou a adquirir detalhes que nenhum desconhecido poderia inventar em poucos minutos.
— Por que estava viajando para St. Louis hoje?
— Eu participaria de uma reunião amanhã cedo. Quando ouvi seu destino, achei que fosse apenas uma oportunidade de cumprir a promessa. Só depois vi a fotografia.
— Então você me ofereceu o voo antes de saber que eu era filha dela.
— Sim.
Emily encostou a cabeça no assento.
Aquilo importava mais do que Daniel parecia perceber.
Ele não ajudara porque reconhecera uma dívida antiga.
Ajudara uma desconhecida primeiro.
A dívida apenas explicara por que aquela escolha parecia tão natural para ele.
O celular de Daniel recebeu uma mensagem da equipe do aeroporto de destino assim que o avião começou a descer.
Um carro já os esperava para levá-los ao hospital.
— Eu pago o que for necessário — disse ele. — Tratamento, hospedagem, qualquer despesa.
Emily se endireitou.
— Não aceitei seu voo porque queria encontrar alguém para sustentar minha vida.
— Eu sei.
— E minha mãe não é uma conta que você precisa quitar.
Daniel assentiu, sem se ofender.
— Então me diga o que você aceita.
Emily pensou por alguns segundos.
— Aceito chegar até ela. O resto nós decidiremos depois, quando ela puder participar.
— Combinado.
O carro atravessou as ruas de St. Louis enquanto Emily acompanhava cada mudança de rota no mapa do celular.
Quando chegaram ao hospital, a senhora Parker estava perto da recepção, usando um casaco por cima do pijama e segurando a própria bolsa com as duas mãos.
Ela correu até Emily.
— Graças a Deus você chegou.
Emily a abraçou e sentiu o corpo da vizinha tremer.
— Onde está minha mãe?
— Ainda no procedimento. Disseram que alguém viria falar com você.
A senhora Parker olhou por cima do ombro de Emily e viu Daniel.
— Quem é ele?
— Um homem que conheceu minha mãe há muito tempo.
Antes que pudesse explicar, Madison apareceu no fim do corredor.
Ela vestia um casaco elegante, segurava um copo de café e caminhava com a expressão de quem havia sido injustamente convocada para resolver o problema de outras pessoas.
— Finalmente — disse ela. — Todos estavam perguntando por você.
Emily ficou imóvel.
— Você disse à equipe que eu não viria.
— Eu disse que talvez você não chegasse a tempo. É diferente.
— Você tentou falar sobre decisões médicas no meu lugar.
— Alguém precisava fazer alguma coisa.
Madison desviou os olhos para Daniel e, ao perceber o terno, o relógio e o funcionário que carregava a mala de Emily, suavizou imediatamente o tom.
— Não vai nos apresentar?
Daniel não ofereceu a mão.
— Daniel Bennett.
— Bennett? — repetiu Madison, como se reconhecesse o sobrenome. — Da Bennett Holdings?
— Estou aqui por Margaret.
A resposta encerrou a tentativa de aproximação.
Emily deu um passo na direção da prima.
— Por que você me escreveu sobre o funeral antes mesmo de sabermos se minha mãe sobreviveria?
— Você ligou exigindo dinheiro.
— Eu pedi um empréstimo para uma passagem.
— E eu não tinha obrigação de pagar.
— Não estou perguntando por que você recusou. Estou perguntando por que parecia tão preocupada em garantir que ninguém culpasse você.
O rosto de Madison mudou por uma fração de segundo.
A senhora Parker baixou os olhos.
Emily percebeu.
— Senhora Parker, o que aconteceu antes de a ambulância chegar?
A vizinha apertou a alça da bolsa.
— Margaret me telefonou dizendo que estava com uma dor forte no peito. Quando cheguei, ela estava sentada no chão da cozinha. O telefone dela estava perto da mesa.
— Ela ligou para mais alguém?
A senhora Parker olhou para Madison.
— Disse que tinha ligado primeiro para sua prima.
O corredor pareceu estreitar ao redor de Emily.
— O que minha mãe disse a você?
Madison cruzou os braços.
— Ela falou que não estava se sentindo bem.
— Que sintomas ela descreveu?
— Não lembro.
— Você lembra.
Madison abriu a boca, mas nenhuma resposta saiu.
A senhora Parker falou com cuidado:
— Sua mãe me contou que havia dito a Madison que sentia pressão no peito e dor no braço. Disse também que estava suando e com dificuldade para respirar.
Emily conhecia cada um daqueles sinais.
Qualquer pessoa poderia desconfiar de uma emergência.
Madison, porém, sabia que Emily era enfermeira e tinha ouvido inúmeras vezes a família comentar sobre sintomas cardíacos.
— O que você disse a ela? — perguntou Emily.
— Eu achei que fosse ansiedade.
— O que você disse?
Madison perdeu a postura ensaiada.
— Falei para ela deitar um pouco e parar de transformar tudo em tragédia.
Emily sentiu uma onda de raiva subir pelo peito.
Por alguns segundos, imaginou todas as coisas que poderia gritar.
Imaginou arrancar o copo das mãos de Madison, expor suas mensagens diante de todos e fazê-la sentir uma parte da humilhação que Emily suportara no aeroporto.
Então as portas do corredor se abriram, e uma médica se aproximou.
Emily virou as costas para a prima antes de dizer algo que desviaria sua atenção da única pessoa que importava naquele momento.
— Sou Emily, filha de Margaret.
A médica confirmou sua identidade e explicou que o procedimento havia sido concluído.
A obstrução fora tratada, mas o infarto provocara danos importantes, e Margaret precisaria permanecer sob observação intensiva.
— Ela está viva? — perguntou Emily.
— Está. Ainda não podemos dizer como será a recuperação, mas ela respondeu ao tratamento.
O ar saiu dos pulmões de Emily num soluço.
A senhora Parker a abraçou.
Daniel permaneceu perto da parede, com os olhos fechados e a mão sobre o relógio.
Madison começou a chorar.
Emily não sabia se as lágrimas eram por Margaret, pela culpa ou pelo medo de ser responsabilizada.
Talvez fossem pelas três coisas.
— Posso vê-la? — perguntou Emily.
— Assim que ela estiver instalada, você poderá entrar por alguns minutos.
Enquanto aguardavam, Madison tentou se aproximar.
— Emily, eu não sabia que era um infarto.
— Você não precisava saber. Só precisava chamar ajuda.
— Ela sempre exagerava as coisas.
— Minha mãe estava descrevendo dor no peito, no braço e falta de ar.
— Eu entrei em pânico.
— Não. Você encerrou a ligação, não foi até a casa dela e depois tentou transformar o problema no dinheiro que eu não tinha.
Madison começou a negar, mas Emily ergueu a mão.
— Agora eu entendo sua mensagem. Você não estava tentando me ensinar a ser responsável. Estava tentando garantir que, se ela morresse, eu olhasse para o preço da passagem em vez de olhar para o tempo que você perdeu.
Madison empalideceu.
Emily não esperou resposta.
Quando finalmente entrou na unidade, Margaret parecia menor sob os lençóis brancos.
Havia fios, monitores e equipamentos ao redor da cama, mas Emily obrigou os olhos a permanecerem no rosto da mãe.
Ela puxou uma cadeira e segurou sua mão com cuidado.
Durante anos, Emily falara com pacientes inconscientes porque acreditava que vozes conhecidas podiam alcançar lugares onde os medicamentos não chegavam.
Diante da própria mãe, porém, não encontrou nenhuma das frases treinadas.
— Eu cheguei — sussurrou. — Você não precisa continuar tentando me proteger de tudo. Eu estou aqui.
Margaret não reagiu.
Emily contou que atravessara o aeroporto ainda com o uniforme do plantão.
Contou sobre os treze dólares na conta, os brincos deixados na loja de penhores e o desconhecido que surgira quando ela já não conseguia falar.
Depois falou sobre o relógio.
— Ele disse que você costurou a pulseira com linha azul. Eu sabia que era verdade antes mesmo de ele terminar.
Do lado de fora do quarto, Daniel observava através do vidro, mantendo distância.
Emily fez um gesto para que ele entrasse.
Daniel hesitou.
— Não sei se ela vai me reconhecer.
— Minha mãe guardava o nome de cada criança que cuidei quando comecei a trabalhar. Ela vai lembrar de você.
Ele se aproximou da cama e retirou o relógio do pulso.
A marca deixada pela pulseira era clara, como se ele raramente o tirasse.
Daniel colocou o objeto na mão de Emily, não sobre Margaret.
— Seu pai deu este relógio a você? — perguntou Emily.
— No meu aniversário de dezesseis anos.
— E minha mãe o devolveu quando você estava indo vê-lo.
— Ela o encontrou numa bandeja com meus pertences. A pulseira estava rasgada, então ela a consertou durante o intervalo.
Emily passou o dedo pela costura azul.
— Você o usa há vinte e seis anos por causa dele ou por causa dela?
— Durante muito tempo, por causa do meu pai. Depois, pelos dois.
Daniel revelou então a parte da história que nunca contara a ninguém.
Quando chegou a St. Louis e descobriu que o pai havia morrido, ele se sentou no corredor do hospital e arrancou o relógio do pulso.
Queria jogá-lo fora porque aquele objeto continuava funcionando enquanto o tempo do pai havia terminado.
No último instante, viu a linha azul.
A costura feita por Margaret o lembrou de que alguém que não tinha qualquer obrigação com ele acreditara que a viagem ainda valia a pena.
Foi por isso que guardou o relógio.
Não como lembrança de uma chegada tardia, mas como prova de que ter chegado ainda importava.
Emily colocou o relógio sobre a própria palma e se inclinou na direção da mãe.
— Ele cumpriu a promessa, mãe. Quando ninguém queria esperar mais um minuto por mim, ele me trouxe até você.
Os dedos de Margaret se moveram.
Foi um gesto tão pequeno que Emily pensou ter imaginado.
Então o polegar da mãe pressionou a lateral do indicador.
Daniel prendeu a respiração.
Emily chamou a equipe, e uma profissional entrou para verificar os sinais de Margaret.
Ela pediu que os dois se afastassem um pouco e explicou que a resposta era positiva, embora Margaret ainda estivesse sob efeito dos medicamentos.
Nos minutos seguintes, os olhos dela se abriram apenas o suficiente para procurar a voz da filha.
— Emily?
— Estou aqui.
Margaret tentou levantar a mão, mas Emily a segurou.
— Não precisa fazer esforço.
Os olhos de Margaret passaram pelo rosto da filha e encontraram Daniel.
Ela o observou por alguns segundos, confusa.
Daniel levantou o relógio.
— A pulseira ainda está firme.
Margaret piscou lentamente.
— Daniel?
Ele levou a mão livre ao rosto.
— Você lembra de mim.
A voz dela saiu fraca.
— Você chegou?
Daniel ficou em silêncio por um instante.
Emily compreendeu que Margaret não estava perguntando sobre aquela noite.
Ela queria saber se o rapaz de dezenove anos conseguira chegar ao pai.
— Cheguei — respondeu ele. — Não a tempo de falar com ele, mas cheguei a tempo de me despedir.
Margaret fechou os olhos, e uma lágrima escorreu em direção ao travesseiro.
— Sinto muito.
— Não sinta. Você me deu a única coisa que ainda podia me dar.
A equipe pediu que Daniel saísse para permitir que Margaret descansasse.
Antes de ir, ele colocou o relógio de volta no pulso.
Margaret olhou para a costura azul e murmurou:
— Trabalho malfeito.
Daniel riu entre lágrimas.
— Durou vinte e seis anos.
— Mesmo assim… torto.
Foi a primeira vez que Emily sorriu desde o telefonema da senhora Parker.
Margaret permaneceu internada por vários dias.
A recuperação não foi rápida nem simples.
Ela sentia cansaço após poucos passos, precisava de acompanhamento constante e se irritava com a perda temporária de independência.
Emily pediu afastamento do trabalho, vendeu outros objetos e começou a organizar as despesas.
Quando Daniel soube, voltou ao hospital.
— Você disse que decidiríamos o resto quando Margaret pudesse participar.
Margaret, sentada numa poltrona ao lado da cama, ergueu as sobrancelhas.
— Decidir o quê?
Daniel explicou que queria pagar as despesas provocadas pela emergência e devolver, com juros de vinte e seis anos, o valor da passagem que ela comprara.
— Não — respondeu Margaret.
— Eu sabia que você diria isso.
— Então não deveria ter perguntado.
Emily conteve um sorriso.
Daniel puxou uma cadeira.
— Naquela noite, você me disse para ajudar outra pessoa a chegar onde precisava. Foi o que fiz. Mas agora vejo sua filha vendendo o que possui para cuidar de você.
— Emily não precisa de caridade.
— Concordo — disse ele. — Por isso estou perguntando como posso ajudar sem transformar nenhuma de vocês em devedora.
Margaret olhou para a filha.
Emily pensou no balcão do aeroporto, na atendente constrangida e nas pessoas impacientes atrás dela.
Pensou em quantos profissionais de saúde passavam os dias salvando desconhecidos e, mesmo assim, não tinham uma reserva para alcançar a própria família numa emergência.
— Pague o voo que usamos — disse Emily. — Nada além disso para nós.
Daniel assentiu, embora parecesse desapontado.
— Mas você pode fazer outra coisa.
Emily propôs a criação de uma reserva de transporte emergencial vinculada ao hospital onde trabalhava.
O dinheiro não seria controlado por ela nem entregue por favor pessoal.
Seria destinado a funcionários que precisassem viajar imediatamente por causa de uma emergência familiar e não tivessem condições de comprar a passagem.
Daniel ouviu tudo sem interromper.
— E qual será o nome de Margaret no projeto?
— Nenhum — respondeu Margaret antes de Emily. — Quem estiver desesperado não precisa decorar o nome de quem ajudou. Precisa chegar.
Daniel sorriu.
— Continua dando ordens como naquela noite.
— E você continua precisando delas.
Madison apareceu no hospital duas vezes durante a internação.
Na primeira, levou flores caras e passou mais tempo explicando suas intenções do que perguntando sobre a saúde de Margaret.
Emily pediu que ela fosse embora.
Na segunda, Madison chegou sozinha, sem presentes e sem maquiagem.
Ficou parada perto da porta até Margaret permitir que entrasse.
— Eu estava com medo — disse Madison.
Margaret não respondeu imediatamente.
— Medo de quê?
— De que fosse sério. De ter que resolver alguma coisa. De ligar para Emily e admitir que eu não sabia o que fazer.
— Então você me mandou deitar.
Madison baixou a cabeça.
— Sim.
— E quando soube que eu estava no hospital, atacou Emily antes que ela pudesse perguntar por que você não chamou ajuda.
— Sim.
Emily esperava que a mãe gritasse ou expulsasse a sobrinha.
Margaret apenas pediu que Madison levantasse o rosto.
— Pedir desculpas não apaga o tempo que você perdeu. E chorar não transforma mentira em engano. Você vai precisar conviver com o que fez e decidir se continuará fugindo sempre que alguém precisar de você.
Madison perguntou se poderia voltar no dia seguinte.
Margaret disse que sim, mas não prometeu que tudo seria perdoado.
A confiança não retornou por causa de uma conversa.
Nos meses seguintes, Madison começou a ajudar a senhora Parker com compras e acompanhou Margaret em algumas consultas quando Emily estava em Chicago.
Emily manteve distância e verificava cada compromisso.
Não era vingança.
Era o preço real de uma relação quebrada.
Margaret recuperou forças aos poucos.
Daniel telefonava uma vez por semana, quase sempre no mesmo horário, e ela aproveitava as ligações para reclamar que a pulseira do relógio precisava ser substituída.
Ele sempre respondia que nenhuma pulseira nova teria a mesma história.
Quando a reserva de transporte emergencial começou a funcionar no hospital de Emily, Daniel tentou depositar um valor muito maior do que o combinado.
Emily devolveu o excedente e exigiu regras claras, prestação de contas e limites iguais para todos.
Ele aceitou cada condição.
— Sua mãe também negociava assim? — perguntou.
— Minha mãe teria devolvido tudo e mandado você comprar uma passagem de ônibus.
— Foi exatamente o que ela fez comigo.
Alguns meses depois, Margaret já conseguia caminhar sem ajuda por períodos curtos.
Daniel convidou as duas para acompanhá-lo até o cemitério onde o pai estava enterrado.
Ele nunca havia levado ninguém até lá.
Margaret hesitou, mas Emily segurou sua mão.
— Dessa vez, você não precisa mandar ninguém viajar sozinho.
No dia marcado, os três se encontraram novamente no aeroporto.
Não havia fila hostil, mensagens cruéis nem treze dólares separando Emily da mãe.
Daniel apareceu usando o relógio antigo.
A pulseira continuava costurada com a mesma linha azul, mas Margaret havia reforçado um dos pontos durante a última visita.
— Agora está direito — disse ela, examinando o trabalho.
— Então vai durar mais vinte e seis anos?
— Se você parar de ficar puxando.
Daniel pegou a pequena mala de Margaret e ofereceu o braço para que ela caminhasse sem pressa.
Emily seguiu ao lado dos dois.
Antes de atravessarem a porta de embarque, Daniel olhou para o relógio, depois para Margaret.
— Nós vamos viajar juntos.
Dessa vez, a frase não era uma oferta feita entre desconhecidos nem o pagamento de uma dívida antiga.
Era apenas a verdade sobre três pessoas que haviam conseguido chegar umas às outras antes que o tempo terminasse.