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O Segredo Na Bolsa Da Idosa Que Pediu Um Casamento Antes De Morrer-silas

O último pedido de Hazel não parecia caber dentro de uma frase.

Muito menos dentro de um quarto de hospital.

A luz da tarde entrava pela janela sem pressa, batendo no lençol branco, no metal frio da cama e na xícara de chá que eu tinha preparado havia quase uma hora.

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O chá já não soltava vapor.

Hazel também parecia estar se apagando daquele jeito, aos poucos, em silêncio, sem reclamar da dor, sem pedir que chamassem ninguém, sem fingir que ainda havia muito tempo.

Eu tinha trinta e quatro anos quando a conheci.

Trabalhava como auxiliar de enfermaria numa pequena casa de repouso particular, desses lugares limpos, silenciosos e organizados, onde a tristeza costuma usar sapatos macios para não fazer barulho no corredor.

Eu fazia troca de lençol, ajudava nos banhos, levava bandejas, anotava horários de remédio, buscava cobertor quando alguém sentia frio e fingia não perceber quando os residentes olhavam para a porta esperando filhos que não vinham.

Com o tempo, a gente aprende que abandono tem som.

Às vezes é o telefone que não toca.

Às vezes é a cadeira vazia ao lado da cama.

Às vezes é uma enfermeira dizendo, com cuidado, que talvez a família venha no fim de semana, mesmo sabendo que ninguém confirmou nada.

Hazel não esperava o fim de semana.

Ela não esperava ninguém.

Desde o primeiro dia, havia algo nela que fazia as pessoas manterem uma distância respeitosa.

Não era grosseria simples.

Era defesa.

Hazel tinha oitenta e dois anos, olhos atentos e uma boca incapaz de enfeitar verdades desagradáveis.

Se o café estava fraco, ela dizia.

Se alguém entrava sorrindo demais, ela perguntava o que queria.

Se um funcionário tentava tratá-la como criança, ela levantava o queixo e deixava claro que velhice não era autorização para condescendência.

Mesmo assim, eu gostava dela.

Talvez porque, por trás da aspereza, havia uma dignidade rara.

Hazel não implorava por carinho.

Ela fingia que não precisava dele.

Foi isso que me prendeu.

No começo, eu só era o funcionário que lembrava como ela gostava do chá.

Pouca água, nada de açúcar, uma colher pequena apoiada do lado direito da xícara, não dentro.

Depois virei o homem que parava para ouvir quando ela começava a falar sobre o passado.

Ela contava histórias de bailes, viagens de ônibus, vestidos costurados à mão, empregos que largou por orgulho e pessoas que amou sem explicar se tinham amado de volta.

Quando eu perguntava sobre família, ela mudava o assunto.

Não de forma dramática.

De forma final.

— Família é uma palavra grande demais para gente pequena, Julian — ela disse uma vez.

Eu ri, achando que era mais uma frase afiada.

Ela não riu comigo.

Depois disso, parei de insistir.

Só uma coisa sempre quebrava a aparente tranquilidade dela.

A bolsa.

Era uma bolsa velha de lona, desbotada, com as alças gastas e uma marca escura perto do fundo.

Parecia uma daquelas bolsas de hospital antigas, grandes o suficiente para guardar roupa, documento, remédio e o tipo de lembrança que ninguém mais quer carregar.

Hazel nunca a deixava longe.

Se mudavam o quarto dela, a bolsa ia junto.

Se levavam a cadeira para limpeza, ela exigia que colocassem a bolsa na cama.

Se uma enfermeira se aproximava demais do zíper, Hazel mudava.

A voz endurecia.

Os dedos fechavam.

Os olhos perdiam qualquer brilho de humor.

— Não toque nisso.

Era sempre a mesma frase.

Não era pedido.

Era ordem.

Uma vez, uma técnica nova tentou tirar a bolsa do caminho para trocar a fronha.

Hazel agarrou o pulso da moça com uma força surpreendente para uma mulher tão magra.

A menina quase deixou a fronha cair.

— Isso não é seu — Hazel disse.

Depois soltou a mão dela, virou o rosto para a janela e não falou com ninguém pelo resto do dia.

Naquela noite, eu levei chá.

Ela olhou para mim de canto.

— Veio me dar sermão?

— Vim trazer chá.

— Então faça uma coisa útil e sente.

Sentei.

Por quase dez minutos, nenhum de nós falou.

O relógio de parede fazia um tique-taque baixo, e do corredor vinha o som distante de uma televisão ligada em volume baixo.

Então Hazel disse:

— Algumas coisas, quando caem na mão errada, viram sentença.

Eu olhei para a bolsa.

Ela percebeu.

— Não pergunte.

— Não ia perguntar.

— Ia sim.

— Talvez.

Pela primeira vez naquele dia, ela sorriu.

Era assim que nossa relação foi acontecendo.

Sem anúncio.

Sem emoção bonita demais.

Com chá, silêncio, teimosia e pequenas confianças.

Eu comecei a ficar depois do expediente quando sabia que ela estava inquieta.

Às vezes, ela fingia dormir para eu ir embora.

Às vezes, quando eu me levantava, ela abria os olhos e dizia:

— Já vai abandonar a velha?

Eu respondia:

— Só até amanhã.

E ela fechava os olhos de novo, satisfeita demais para admitir.

A linha entre cuidado profissional e afeto familiar não se rompeu de uma vez.

Ela foi se desfazendo como fio velho.

Um dia, eu me peguei comprando o chá dela no meu caminho para o trabalho.

Outro dia, percebi que ela sabia quando eu estava cansado antes de qualquer colega notar.

— Você sorri menos quando dorme mal — ela disse.

— A senhora repara demais.

— Alguém precisa reparar em você também.

Aquilo ficou comigo.

Mais do que deveria.

Porque pessoas como eu, naquele tipo de trabalho, costumam ser lembradas pelo que fazem, não pelo que sentem.

Hazel via.

Talvez por isso, quando ela piorou, eu senti como se um parente meu tivesse sido internado.

A transferência para o hospital aconteceu numa manhã abafada.

O pulmão dela estava fraco.

A pressão oscilava.

Os médicos falavam com cuidado, usando palavras que pareciam gentis apenas porque evitavam a palavra morte.

Hazel não se deixou enganar.

Na ambulância, ela segurou minha manga.

— A bolsa.

— Já está aqui.

— Com você?

— Comigo.

Só então ela fechou os olhos.

No hospital, colocaram Hazel num quarto pequeno, com parede clara, cama metálica e uma janela que dava para um pedaço estreito de céu.

A bolsa ficou numa cadeira ao lado.

Nem ali ela permitiu que a levassem para um armário.

O médico perguntou se havia algum parente a ser chamado.

Hazel abriu os olhos.

— Não.

Ele olhou para mim.

Eu não expliquei.

Não havia explicação simples para aquele tipo de ausência.

Nos dias seguintes, ela alternava lucidez e cansaço.

Em alguns momentos, fazia piadas secas sobre a comida do hospital.

Em outros, ficava olhando para a bolsa como se esperasse que ela falasse primeiro.

Eu tentava fingir normalidade.

Ajustava o travesseiro.

Molhava os lábios dela.

Checava se o chá estava morno.

Mas havia um peso no quarto que nenhum gesto pequeno conseguia levantar.

Naquela tarde, Hazel me chamou com dois dedos.

A voz dela quase não saiu.

— Sente aqui.

Sentei na beira da cama.

A mão dela procurou a minha.

Era fria, fina, manchada pelo tempo, mas apertou meus dedos com uma urgência que me assustou.

— Tenho um último pedido antes da minha vela apagar de vez.

Eu senti algo prender no peito.

— Não fala assim.

— Não me trate como criança, Julian.

A frase veio fraca, mas ainda era Hazel.

Eu assenti.

Ela respirou devagar.

O monitor ao lado marcou um ritmo irregular.

No corredor, alguém ria baixo, talvez uma enfermeira, talvez uma família comemorando uma alta.

Dentro daquele quarto, porém, o ar parecia parado.

— Eu sei que vai parecer absurdo — ela disse.

— Hazel…

— Deixe eu terminar.

Calei.

Ela virou o rosto para mim.

Os olhos dela estavam úmidos, mas não havia vergonha ali.

Havia uma coragem antiga, cansada de se esconder.

— Eu vivi tempo demais sem ser escolhida por ninguém — ela disse.

A frase não veio como reclamação.

Veio como fato.

E fatos, quando são ditos no fim da vida, pesam mais.

— Tive companhia, tive conhecidos, tive gente interessada em partes da minha história. Mas marido, Julian… marido eu nunca tive. Nunca tive alguém que pudesse dizer, nem que fosse por pouco tempo, que ficou ao meu lado porque quis.

Tentei responder.

Não consegui.

Ela apertou minha mão.

— Eu não estou pedindo romance. Não estou pedindo mentira bonita. Estou pedindo uma última gentileza.

A luz da janela marcou as rugas ao redor dos olhos dela.

Cada linha parecia guardar um ano que ninguém tinha testemunhado.

— Case-se comigo antes de eu morrer.

Meu primeiro pensamento foi o mundo.

Não Deus.

Não amor.

Não lei.

O mundo.

O que diriam.

O que pensariam.

O que cochichariam no corredor.

Um homem de trinta e quatro anos se casando com uma idosa de oitenta e dois.

Auxiliar de enfermaria casando com paciente terminal.

Bondade transformada em suspeita antes mesmo de alguém perguntar a verdade.

Eu via as manchetes imaginárias.

Via os olhares.

Via meus colegas mudando o tom quando eu entrasse na sala.

Hazel também via.

— Eu sei — ela sussurrou.

Duas palavras.

Só isso.

Mas nelas havia toda a consciência do julgamento.

Eu olhei para a bolsa na cadeira.

Depois olhei para ela.

— Por que eu?

Hazel demorou a responder.

Quando falou, a voz saiu quase sem som.

— Porque você nunca tentou abrir o que eu mantive fechado.

Aquilo me desarmou.

Durante meses, talvez anos, eu tinha achado que a confiança dela vinha do chá, das conversas, das horas extras, da presença constante.

Mas talvez o amor, para alguém ferido demais, comece no limite que a outra pessoa respeita.

Eu não disse sim imediatamente.

Segurei a mão dela e fiquei em silêncio.

O rosto de Hazel não implorava.

Isso doía mais.

Ela tinha passado a vida protegendo alguma coisa, e agora me oferecia o único pedido que podia fazer antes de ir embora.

— Se isso puder te dar paz — eu disse por fim — eu aceito.

Ela fechou os olhos.

Uma lágrima escorreu devagar pela lateral do rosto e se perdeu no travesseiro.

— Então, por uma vez, vou sair deste mundo com alguém ao meu lado.

Foi assim.

Nada de música.

Nada de vestido branco.

Nada de festa.

Uma semana depois, numa cerimônia pequena dentro do hospital, Hazel e eu nos casamos.

Havia duas testemunhas.

Um funcionário do cartório acompanhou a formalidade necessária.

O advogado dela estava presente, sério demais, observando tudo como se soubesse que aquela assinatura não encerrava uma história, apenas abria outra.

Hazel usava um casaco claro sobre a roupa do hospital.

Eu comprei uma aliança simples.

Quando coloquei no dedo dela, os dedos estavam tão finos que a aliança parecia grande demais.

Mesmo assim, Hazel sorriu.

Não um sorriso irônico.

Não uma provocação.

Um sorriso limpo.

Quase jovem.

Naquele instante, entendi que dignidade não é o mesmo que felicidade.

Uma pessoa pode manter a cabeça erguida a vida inteira e ainda assim morrer esperando uma mão que a chame de sua.

Depois da cerimônia, Hazel dormiu por horas.

Quando acordou, me chamou de marido uma única vez.

— Julian.

— Sim?

— Meu marido.

Ela disse como se testasse a palavra na boca.

Depois riu baixinho.

— Que escândalo.

Eu ri com ela.

E, por alguns segundos, o quarto deixou de parecer um lugar onde alguém estava morrendo.

Três dias depois, Hazel partiu durante a madrugada.

A enfermeira me ligou antes do sol nascer.

Eu já sabia antes de atender.

Existem chamadas que chegam com um peso diferente.

Quando cheguei ao hospital, o quarto estava arrumado demais.

A cama tinha sido refeita.

A xícara não estava mais na bandeja.

A bolsa continuava na cadeira.

Foi isso que me quebrou.

Não o lençol.

Não a ausência.

A bolsa.

Aquele objeto que tinha sobrevivido a quartos, mudanças, crises, tosses, noites ruins e mãos curiosas agora estava parado ali, sem a mulher que o protegia.

Eu toquei a alça.

Pela primeira vez, Hazel não reclamou.

O funeral aconteceu dois dias depois.

Foi pequeno.

Pequeno demais para uma vida inteira.

O céu estava fechado, e uma chuva fina fazia o tecido do meu paletó pesar nos ombros.

O advogado dela ficou ao meu lado sem dizer muito.

Nenhum parente apareceu.

Nenhuma mulher chorou como irmã.

Nenhum homem abaixou a cabeça como filho.

Só eu, o advogado, duas pessoas da casa de repouso e o barulho da chuva contra o toldo.

Depois que tudo terminou, ele me chamou para um canto.

O rosto dele parecia mais velho do que na cerimônia.

— Senhor Julian.

Eu ainda estranhava aquele tratamento.

— Sim?

Ele segurava a bolsa.

A bolsa de Hazel.

Por um instante, tive a sensação absurda de que ele deveria devolvê-la ao túmulo, como se aquele objeto não pertencesse ao mundo dos vivos.

Mas ele estendeu as mãos.

— Ela pediu que eu entregasse isto ao senhor somente depois do enterro.

Peguei a bolsa.

Era mais pesada do que eu lembrava.

O tecido estava úmido nas bordas por causa da chuva, e a lona áspera arranhou minha palma.

— Ela deixou testamento? — perguntei.

O advogado não respondeu de imediato.

Olhou para o cemitério, depois para mim.

— Há documentos.

— Sobre dinheiro?

Ele balançou a cabeça lentamente.

— Sobre destino.

Aquilo teria soado teatral em qualquer outra boca.

Na dele, soou como aviso.

Ele se aproximou um pouco, baixando a voz.

— Hazel colocou o destino nas suas mãos por causa de um segredo profundo. Um segredo que vai desafiar tudo o que o senhor acreditava ser verdade.

Eu senti um arrepio subir pela nuca.

— Que segredo?

O advogado olhou para a bolsa.

— Ela disse que o senhor entenderia melhor se visse primeiro.

Minhas mãos apertaram as alças.

O zíper estava enferrujado.

Por anos, eu tinha respeitado aquele limite.

Por anos, eu tinha aceitado não saber.

Agora Hazel estava morta, a chuva caía sobre os nossos sapatos e a única ordem que ela deixara era que eu finalmente abrisse o que ninguém pôde tocar.

Fui para uma pequena sala reservada no próprio cemitério, usada para assinaturas e conversas rápidas depois de cerimônias.

Havia uma mesa simples, duas cadeiras, uma garrafa de água, uma caixa de lenços e uma janela embaçada pela chuva.

O advogado fechou a porta.

Não se sentou.

Eu coloquei a bolsa sobre a mesa.

O som do objeto batendo na madeira foi baixo, mas definitivo.

O zíper não abriu de primeira.

Puxei com cuidado.

Nada.

Tentei outra vez.

O metal raspou, preso no tecido gasto.

O advogado observava sem respirar direito.

— O senhor sabe o que tem aqui? — perguntei.

Ele apertou os lábios.

— Sei partes.

— Partes?

— Hazel só permitia que eu soubesse o necessário para cumprir as instruções dela.

— E quais eram?

Ele finalmente puxou uma cadeira e se sentou, mas ficou na ponta, como se pudesse se levantar a qualquer momento.

— Que a bolsa fosse entregue ao senhor. Que o senhor abrisse em particular. E que, quando lesse o primeiro documento, eu não deixasse o senhor tomar nenhuma decisão impulsiva.

A frase fez meu estômago se fechar.

— Que tipo de decisão?

— A que muda uma vida inteira.

Forcei o zíper mais uma vez.

Dessa vez, ele cedeu.

O cheiro que saiu de dentro da bolsa era antigo.

Papel guardado, tecido fechado, um resto de perfume quase desaparecido.

Havia um lenço dobrado.

Uma pulseira hospitalar antiga.

Um pequeno envelope com fotografias.

Um maço de documentos amarelados preso por elástico.

E, por baixo de tudo, um envelope grosso com meu nome escrito à mão.

Julian.

Eu conhecia aquela letra.

Tremida, pequena, inclinada para a direita.

Hazel tinha escrito meu nome como se ainda estivesse me chamando.

Fiquei alguns segundos sem tocar no envelope.

O advogado desviou o olhar.

— Abra — ele disse.

— O senhor parece querer que eu não abra.

— Eu quero que a verdade pare de apodrecer dentro dessa bolsa.

Aquilo me fez olhar para ele.

A máscara profissional tinha rachado.

Havia culpa ali.

Ou medo.

Talvez os dois.

Abri o envelope.

A primeira folha era uma carta de Hazel.

A data no topo era recente, escrita poucas semanas antes da morte.

Mas havia outro documento por baixo, muito mais antigo.

Papel amarelado.

Carimbo quase apagado.

Assinatura em tinta azul.

E um nome que eu reconheci antes mesmo de entender por quê.

Meu próprio sobrenome.

Minha garganta secou.

— O que é isso?

O advogado inclinou o corpo para frente.

— Leia a carta primeiro.

Mas meus olhos já tinham descido até a segunda linha do documento antigo.

Havia uma data de muitos anos atrás.

Mais de três décadas.

A sala pareceu se estreitar.

Eu tinha trinta e quatro anos.

A data estava perigosamente perto do ano em que nasci.

Segurei a folha com mais força.

O papel tremeu.

— Por que Hazel teria isso?

O advogado ficou pálido.

— Senhor Julian, antes de continuar, preciso avisar que o nome que vai aparecer nesse documento não é apenas importante.

Ele engoliu em seco.

— É impossível.

Olhei de novo.

A carta de Hazel estava dobrada em três partes.

Abri.

A primeira frase parecia simples.

Depois destruiu tudo.

“Meu querido Julian, se você está lendo isto, então eu finalmente consegui morrer sabendo que, ao menos uma vez, escolhi certo.”

Parei.

O advogado não disse nada.

Continuei.

“Eu pedi que você se casasse comigo não por capricho, nem por solidão apenas, embora a solidão tenha sido uma sombra comprida na minha vida. Pedi porque precisava dar a você uma posição que ninguém pudesse contestar quando a verdade viesse à tona.”

Minha respiração falhou.

Posição.

Não afeto.

Não cerimônia.

Posição legal.

“Como meu marido, ainda que por poucos dias, você teria direito de receber o que outros tentaram enterrar comigo.”

Senti o sangue drenar do rosto.

O advogado fechou os olhos.

Como se já soubesse o peso daquela frase.

Continuei lendo, mas as letras começaram a se mexer diante de mim.

“Há pessoas que roubaram de mim mais do que dinheiro. Roubaram nomes, documentos, memória e a chance de reparar um erro que cometi quando ainda acreditava que silêncio protegia alguém.”

Uma foto caiu de dentro da carta.

Deslizou pela mesa e parou perto da minha mão.

Era antiga, desbotada, com as bordas gastas.

Mostrava Hazel muito mais jovem.

Ao lado dela, uma mulher que eu nunca tinha visto.

E nos braços dessa mulher, um bebê.

Virei a foto.

Havia uma anotação no verso.

A letra não era de Hazel.

Era firme, inclinada, escrita com pressa.

“O menino precisa desaparecer do nome dela.”

Meu peito apertou.

— Que menino? — perguntei.

O advogado passou a mão pelo rosto.

— Continue lendo.

— Não. Responda.

Ele abriu uma pasta própria, que tinha trazido junto ao corpo desde o funeral.

Tirou de dentro uma cópia autenticada, um recibo antigo e uma anotação de atendimento hospitalar.

Não havia nomes de instituições chamativas.

Só papéis velhos, carimbos genéricos, datas e assinaturas.

Coisas sem emoção.

Coisas que, justamente por isso, pareciam mais perigosas.

— Hazel me procurou há anos — ele disse. — Não para fazer um testamento comum. Ela queria deixar uma trilha.

— Trilha para quê?

— Para provar que alguém foi apagado.

A sala ficou sem ar.

Li a próxima parte da carta.

“Você me conheceu como uma velha sem família. Isso foi o que permitiram que você visse. Durante muitos anos, aceitei esse castigo porque achei que merecia. Mas uma vida construída sobre medo sempre cobra juros.”

Minha mão foi até a foto de novo.

O bebê não tinha nada de reconhecível além da idade.

Ainda assim, senti uma náusea estranha.

Como se meu corpo tivesse entendido antes da minha cabeça.

“Quando você entrou no meu quarto pela primeira vez”, a carta continuava, “achei que era só mais um funcionário gentil. Depois vi seu jeito de franzir a testa quando se concentrava, igual ao dele. Vi a cicatriz pequena perto da sua sobrancelha. Vi a data no seu crachá antigo quando você deixou cair a carteira. E comecei a desconfiar que o mundo, por crueldade ou misericórdia, tinha colocado você de volta diante de mim.”

O chão pareceu inclinar.

— Não — eu disse.

Foi a única palavra que saiu.

O advogado não tentou me consolar.

Talvez porque consolo, naquele momento, seria uma ofensa.

Voltei ao documento antigo.

Meu sobrenome estava ali.

Mas não exatamente como eu conhecia.

Havia uma alteração.

Um registro.

Uma assinatura autorizando transferência de guarda.

Um nome riscado numa cópia e substituído por outro em documento posterior.

Processo.

Registro.

Autorização.

Termos frios para coisas quentes demais.

A carta de Hazel continuava.

“Eu tive uma filha.”

Minha boca ficou seca.

“Ela morreu jovem. E antes de morrer, teve um menino.”

O advogado respirou fundo.

Eu parei de ler.

Havia um som na sala, mas demorei a entender que era minha própria respiração.

— Isso não pode ser sobre mim.

— Eu não posso afirmar nada sem o restante da conferência documental — ele disse.

Era uma frase de advogado.

Cautelosa.

Limpa.

Covarde o bastante para sobreviver ao choque.

— Mas Hazel acreditava que sim — completou.

As palavras bateram em mim uma por uma.

Hazel acreditava.

A mulher que eu tinha tratado como alguém abandonado podia ter passado os últimos meses olhando para mim como para sangue perdido.

Não um estranho gentil.

Não um funcionário.

Possivelmente família.

A bolsa, a teimosia, o pedido absurdo, a pressa no casamento.

Tudo mudou de forma.

Nada era menor.

Tudo era mais grave.

Continuei lendo com a visão borrada.

“Eu não tenho o direito de pedir perdão, porque talvez o perdão dependa de verdades que você ainda nem recebeu. Mas tinha o dever de impedir que outros destruíssem os últimos papéis. Por isso guardei a bolsa. Por isso nunca deixei ninguém tocar. Por isso precisei que você se tornasse meu marido antes que eu morresse.”

A cadeira rangeu quando me afastei da mesa.

— Ela achava que alguém viria atrás disso?

O advogado olhou para a porta.

Foi rápido.

Mas eu vi.

— Hazel tinha medo de que, quando ela morresse, certos documentos fossem considerados sem destino legal claro.

— E como meu casamento mudava isso?

— Dava ao senhor legitimidade imediata para receber os bens pessoais dela e contestar qualquer tentativa de recolhimento por terceiros.

— Terceiros quem?

Ele não respondeu.

Naquele segundo, ouvimos passos do lado de fora.

Não passos casuais.

Passos apressados.

Alguém bateu na porta.

Três batidas secas.

O advogado ficou de pé tão rápido que a cadeira quase caiu.

— O senhor estava esperando alguém? — perguntei.

Ele pegou os papéis mais próximos e empurrou na minha direção.

— Coloque de volta na bolsa.

— Quem é?

Outra batida.

Mais forte.

Uma voz masculina falou do corredor.

— Doutor, sabemos que ele está aí.

Meu sangue gelou.

O advogado fechou os dedos na borda da mesa.

Toda a cor tinha sumido do rosto dele.

— Julian — ele disse, baixo. — Não abra essa porta antes de guardar a carta.

— Quem está aí fora?

Ele olhou para a bolsa.

Depois para mim.

E, pela primeira vez desde que o conheci, o advogado pareceu não apenas preocupado.

Pareceu assustado.

— Pessoas que passaram anos acreditando que Hazel morreria levando essa verdade com ela.

A maçaneta se mexeu.

Eu agarrei a bolsa contra o peito.

E naquele instante entendi que o último pedido de Hazel não tinha sido uma despedida.

Tinha sido proteção.

A porta abriu apenas alguns centímetros.

O advogado deu um passo à frente, bloqueando a fresta.

Mas eu já tinha visto o suficiente.

Do outro lado, havia uma mão segurando uma pasta preta.

Na capa, presa por um clipe, estava uma cópia da mesma fotografia que tinha acabado de cair da carta de Hazel.

Só que naquela versão havia algo escrito em letras vermelhas sobre o rosto do bebê.

Meu nome.

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