Naquele instante, Gabriel deixou de procurar o motivo de uma traição que julgava certa e passou a encarar uma possibilidade muito pior: alguém poderia ter construído, peça por peça, tudo o que o fizera acreditar em Clara.
A pistola permanecia no chão do apartamento enquanto ele olhava para a cicatriz que atravessava o corpo grávido dela.
Oito meses de raiva tinham levado Gabriel Russo até aquela porta.

Oito meses seguindo rastros, pagando informantes, revendo registros e tentando descobrir onde Clara Hayes havia desaparecido depois da noite em que parte de sua organização foi destruída.
Durante todo esse tempo, as provas pareciam apontar para a mesma conclusão.
Clara o havia traído.
Agora, porém, uma marca irregular começando abaixo das costelas dela e avançando em direção à barriga mudava o peso de cada certeza que ele carregara até ali.
Gabriel ergueu os olhos.
— Você disse que fui eu.
Clara segurou a barra do suéter com uma das mãos e tentou cobrir novamente a cicatriz.
Seus dedos tremiam.
— Foi o que eu disse.
Ele não se moveu para pegar a arma.
Até poucos minutos antes, aquilo teria sido impensável.
Gabriel chegara ao prédio de Pilsen convencido de que aquela seria a última vez que veria Clara viva.
Daniel Shaw, seu tenente, insistira para acompanhá-lo até o apartamento.
Gabriel recusara.
Daniel conhecia o perigo daquela conversa.
Conhecia também o que Clara havia significado para o chefe antes de desaparecer.
— Nós fazemos isso — ele dissera antes de Gabriel subir.
Gabriel respondeu apenas:
— Não.
Daniel insistiu que Clara poderia usar o passado entre os dois para hesitar.
Gabriel olhou para a escada estreita à sua frente.
— É exatamente por isso que preciso ser eu.
Quatro lances depois, ele arrombou a porta.
Clara estava perto da pequena sala, usando roupas largas demais para o corpo que havia perdido peso durante os meses escondida.
A gravidez, porém, não podia ser escondida.
Foi a primeira coisa que Gabriel viu.
E foi também a primeira coisa que pareceu irritá-lo ainda mais.
— De quem é esse bebê?
Clara sentiu o corpo inteiro endurecer.
A pergunta não era apenas ciúme.
Era acusação.
Era a maneira como Gabriel encaixava a gravidez na história que já havia decidido aceitar.
— É do Connor Bell?
Connor era o nome que aparecia em quase todas as peças usadas contra ela.
Um homem ligado ao grupo rival que Gabriel acreditava ter recebido informações sobre rotas, depósitos e dinheiro.
Clara respirou fundo.
— Como você consegue me perguntar uma coisa dessas?
Gabriel avançou.
Ela se virou imediatamente, protegendo o lado do corpo abaixo das costelas.
O movimento foi tão automático que ele percebeu.
— Não encosta em mim — ela pediu. — Por favor… ainda dói aqui.
A mão de Gabriel parou antes de tocá-la.
A raiva permaneceu em seu rosto, mas alguma coisa diferente surgiu por baixo dela.
— O que ainda dói?
Clara tentou afastar a pergunta.
Queria que ele fosse embora.
Queria que aquela conversa terminasse antes de chegar ao único ponto que ela havia passado meses tentando esconder até de si mesma.
Gabriel segurou a barra do suéter.
Desta vez, não houve violência no gesto.
Ele puxou o tecido devagar.
A cicatriz apareceu.
Longa.
Irregular.
A pele ao redor ainda estava avermelhada e repuxada pela gravidez avançada.
Não parecia o resultado limpo de um procedimento médico.
Era a lembrança física de alguém tentando feri-la de maneira brutal.
Gabriel soltou o tecido.
A arma caiu de sua mão e bateu no chão.
Durante oito meses, ele havia revisitado mentalmente tudo o que acontecera na noite em que sua estrutura começou a ruir.
Um dos depósitos havia sido atacado pouco depois da meia-noite.
Três homens próximos a ele morreram.
Registros desapareceram.
Rotas que deveriam ser conhecidas por poucas pessoas deixaram de ser seguras.
E Clara desapareceu praticamente ao mesmo tempo.
Depois vieram as provas.
O crachá dela, ligado ao hospital onde trabalhava, surgiu perto de informações sensíveis relacionadas ao transporte da organização.
Uma câmera registrou uma mulher com porte parecido com o de Clara entrando em um veículo associado a Connor Bell.
Havia registros telefônicos conectando o número dela a pessoas do grupo rival.
Dinheiro também desaparecera de uma conta que Gabriel havia aberto em nome dela.
Separadamente, cada elemento poderia levantar dúvidas.
Juntos, criavam uma história quase impossível de ignorar.
A mulher que conhecia parte de sua rotina havia conseguido acesso suficiente para traí-lo.
Depois ajudara seus inimigos.
Pegara dinheiro.
E fugira.
Gabriel acreditou nisso porque tudo parecia encaixar.
Também acreditou porque estava ferido demais para procurar uma explicação que doesse de outra maneira.
Clara não era apenas alguém que conhecia seus segredos.
Ela era a mulher por quem ele havia permitido que sua vida saísse do controle cuidadosamente mantido durante anos.
Eles se conheceram dois anos antes.
Na época, Clara trabalhava como enfermeira de trauma no St. Catherine Medical Center.
Na noite em que Gabriel chegou, ele havia sido atingido durante uma emboscada e perdeu tanto sangue que os homens ao redor dele começaram a discutir entre si antes mesmo de a equipe terminar de atendê-lo.
Clara não se intimidou.
Mandou os homens armados saírem da sala.
Um deles protestou.
Ela apontou para a porta.
— Ou vocês saem, ou atrapalham o atendimento.
Gabriel estava consciente apenas por alguns momentos.
Em um deles, abriu os olhos e encontrou Clara trabalhando sobre o ferimento.
— Eu vou morrer?
Ela nem levantou a cabeça.
— Não, se parar de falar.
Gabriel lembraria daquela resposta por muito tempo.
Semanas depois, quando já conseguia andar normalmente, apareceu novamente no hospital.
Não estava ferido.
Clara percebeu imediatamente.
— O que aconteceu agora?
— Vim agradecer.
— Já agradeceu quando pagou a conta.
Ele tentou enviar presentes.
Ela devolveu alguns e ignorou outros.
Tentou convidá-la para jantar.
Ela recusou.
Tentou aparecer por acaso em lugares próximos ao hospital.
Clara deixou claro que não acreditava em coincidências daquele tipo.
Mesmo assim, ele continuou voltando.
Com o tempo, a insistência virou conversa.
A conversa virou confiança.
E a confiança acabou criando um relacionamento que nenhum dos dois sabia muito bem como encaixar nas próprias vidas.
Clara conhecia partes de Gabriel que seus homens nunca viam.
Ele, por outro lado, começou a descobrir uma rotina completamente diferente da sua.
Turnos longos.
Café ruim tomado às pressas.
Pacientes difíceis.
Dias em que Clara chegava cansada demais para discutir qualquer coisa.
Durante quase um ano, os dois viveram entre mundos que não deveriam se cruzar.
Gabriel nunca fingiu ser um homem comum.
Clara nunca fingiu aprovar tudo o que ele fazia.
Isso tornava a relação complicada.
Também tornava a traição, quando aparentemente aconteceu, ainda mais devastadora para ele.
Porque não parecia apenas uma operação contra sua organização.
Parecia uma escolha pessoal.
Na cabeça de Gabriel, Clara tivera inúmeras oportunidades de ir embora.
Poderia ter terminado a relação.
Poderia ter dito que não suportava mais aquela vida.
Em vez disso, segundo as provas, ficara perto o bastante para descobrir informações valiosas e depois as entregara a Connor Bell.
Foi essa versão que alimentou oito meses de perseguição.
Foi essa versão que o colocou diante dela com uma pistola.
Mas a cicatriz não pertencia a essa versão.
Gabriel encarou Clara novamente.
— Quem fez isso?
— Eu já respondi.
— Não respondeu.
A voz dele tinha perdido o tom de ameaça usado quando entrou.
— Você disse que fui eu.
Clara respirou com dificuldade.
— E foi.
Gabriel aproximou um passo, mas parou ao perceber que ela recuava.
Dessa vez, respeitou a distância.
— Eu nunca encostei uma lâmina em você.
— Não precisava.
A frase atingiu um ponto diferente.
Clara sabia que aquelas palavras podiam ser entendidas de várias maneiras.
Não estava dizendo que Gabriel havia segurado a arma que causara a cicatriz.
Estava dizendo que tudo aquilo acontecera porque alguém conseguira usar o nome, a estrutura e a confiança dele contra ela.
E, principalmente, porque Gabriel acreditara nas provas antes de procurar Clara.
Ela havia passado oito meses imaginando se algum dia teria a chance de explicar isso.
Agora que a chance existia, parecia pior do que qualquer ensaio que fizera sozinha.
Gabriel apontou para a cicatriz sem tocá-la.
— Você está dizendo que alguém fez isso por minha causa?
Clara desviou os olhos por um instante.
— Estou dizendo que quem fez isso sabia exatamente no que você acreditaria depois.
Ele ficou imóvel.
A frase não apagava as provas.
Não fazia o crachá desaparecer.
Não eliminava os registros telefônicos.
Não devolvia o dinheiro.
Não explicava a mulher vista entrando no veículo ligado a Connor Bell.
Mas criava uma pergunta que nenhuma daquelas peças respondia.
Se Clara realmente planejara fugir com um rival e milhões de dólares, por que passara os meses seguintes vivendo em um apartamento minúsculo, enfraquecida, grávida e com uma cicatriz causada por uma tentativa de matá-la?
Gabriel observou o lugar ao redor.
As paredes rachadas.
A janela por onde entrava vento frio.
Os poucos objetos pessoais.
Nada lembrava a vida de alguém que acabara de enriquecer traindo um homem poderoso.
Clara percebeu para onde ele olhava.
— Está procurando os milhões?
Gabriel voltou os olhos para ela.
Ela não sorriu.
— Eu nunca vi aquele dinheiro.
— A conta estava no seu nome.
— Você abriu a conta.
— E o dinheiro sumiu.
— Eu sei.
— Então para onde foi?
Clara apertou a mão contra a lateral da barriga.
— Se eu soubesse tudo, Gabriel, você acha que eu teria passado oito meses aqui?
Ele não respondeu.
Essa era a parte que começava a desmontar a narrativa com mais força.
Durante meses, Gabriel procurara Clara como quem procurava uma fugitiva protegida por inimigos.
Quando finalmente a encontrara, não havia guarda na porta.
Não havia carros esperando.
Não havia sinais de uma rede financiando sua fuga.
Havia apenas uma mulher grávida vivendo com pouco e tentando não ser encontrada.
Clara se apoiou na parede.
Gabriel percebeu o cansaço em seu rosto.
— Senta.
Ela soltou uma risada curta, sem humor.
— Você entrou aqui para me matar e agora está mandando eu sentar?
Gabriel olhou para a pistola caída.
Depois empurrou a arma para mais longe com o pé.
— Eu não vou pegar aquilo.
Clara permaneceu onde estava.
Confiança não voltava porque uma arma havia sido afastada alguns metros.
Gabriel parecia entender.
Ele manteve as mãos visíveis.
— Quero ouvir desde o começo.
— O começo de qual parte?
— Do que aconteceu com você.
Clara fechou os olhos por um momento.
Havia uma ironia dolorosa naquilo.
O homem que passara meses procurando uma confissão de traição finalmente estava diante dela pedindo outra coisa.
A verdade.
Mas a verdade também tinha um preço.
Se Clara contasse tudo o que sabia, Gabriel teria de aceitar que alguém próximo o bastante para compreender seus procedimentos havia antecipado suas reações.
Alguém sabia quais provas seriam suficientes.
Alguém sabia que o desaparecimento de Clara pareceria culpa.
Alguém sabia que Gabriel, ferido pelo ataque e pela perda de três homens, provavelmente acreditaria na história antes de questioná-la.
Ele olhou novamente para a cicatriz.
— Quando aconteceu?
Clara levou alguns segundos para responder.
— Na noite em que tudo começou.
Gabriel ficou tenso.
Ela continuou.
— Você achou que eu desapareci porque estava fugindo de você.
Ele não desviou os olhos.
— Eu desapareci porque precisava sobreviver.
Gabriel absorveu a frase sem interromper.
Clara sabia que aquilo ainda não bastava para inocentá-la completamente.
Também sabia que, pela primeira vez, ele não exigia uma resposta como alguém que já conhecia o veredito.
Ele estava ouvindo.
E isso mudava tudo.
A lembrança dos oito meses anteriores não desapareceu para nenhum dos dois.
Clara ainda se lembrava do medo constante de ouvir passos no corredor.
Gabriel ainda carregava os nomes dos homens mortos no ataque.
Nada seria resolvido naquela sala com uma única explicação.
Nenhum dos dois podia desfazer o que acontecera simplesmente escolhendo acreditar de novo.
Mas uma mudança concreta já havia ocorrido.
Gabriel Russo entrara no apartamento para executar Clara Hayes.
Agora sua arma estava longe de sua mão, e ele já não conseguia olhar para ela como a mulher que destruíra seu império por dinheiro.
Clara puxou uma cadeira e se sentou devagar.
Gabriel não se aproximou.
Permaneceu do outro lado da pequena sala, respeitando a distância que ela havia imposto.
— Se eu contar — Clara disse — você vai ter que aceitar que algumas pessoas que você ainda considera leais talvez tenham querido que eu desaparecesse para sempre.
Gabriel olhou para a porta arrombada, depois para a arma no chão e finalmente para ela.
Por meses, ele acreditara que sua maior ameaça estava escondida naquele apartamento.
Agora começava a perceber que talvez tivesse levado a ameaça consigo durante todo o caminho até ali.
Ele deixou a pistola onde estava.
— Então começa pela primeira mentira que me fizeram acreditar.
Clara apoiou uma mão sobre a barriga e respirou fundo.
A distância entre os dois continuava existindo, mas já não era a distância entre um executor e sua vítima.
Era a distância entre duas pessoas cercadas pelas consequências de uma história que alguém havia preparado para que parecesse verdadeira.
E, pela primeira vez em oito meses, Gabriel estava disposto a descobrir quem a havia escrito.