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A Empregada Que Dormiu na Cama de Victor Russo Mudou Sua Única Regra-naomi

Parte 3: Chloe fez uma pergunta simples, e Victor percebeu que a resposta expunha muito mais do que pretendia.

Chloe acordou depois daquelas cinco horas com um dos pés encostado em alguma coisa quente. Ainda febril e desorientada, abriu os olhos devagar — e encontrou Victor Russo deitado ao lado dela, acordado, observando-a.

Ela gritou.

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Não foi alto. Foi um som sufocado, como se sua alma tivesse abandonado o corpo por alguns segundos.

Chloe recuou depressa.

— Meu Deus.

Victor ergueu uma sobrancelha.

— Meu Deus.

— Você já disse isso.

— Desculpa.

— Isso também eu já ouvi.

Ela olhou em volta e finalmente entendeu onde estava.

— Eu adormeci.

— Eu percebi.

— Eu não queria…

— Obviamente.

Chloe saltou da cama tão rápido que quase caiu.

Victor segurou seu cotovelo antes que ela atingisse o chão.

O contato fez os dois pararem.

Chloe baixou os olhos para a mão dele, e Victor a soltou imediatamente.

— Estou demitida — disse ela.

— Não.

Chloe piscou, certa de que não tinha ouvido direito.

— O quê?

— Você está com febre.

— Estou bem.

— Você está balançando mesmo parada.

— Ainda consigo trabalhar.

— Isso não foi um elogio.

Victor se levantou, com os cabelos escuros bagunçados pelo sono e a camisa social branca amarrotada.

Pela primeira vez, Chloe percebeu algo que a incomodou mais do que a reputação dele.

Victor parecia humano.

Ele colocou água de uma garrafa de vidro em um copo e entregou a ela.

Chloe hesitou.

Victor soltou um suspiro.

— Se eu pretendesse matar você, Bennett, água envenenada seria dramaticamente constrangedora.

O rosto dela ficou vermelho, mas ela bebeu.

Então segurou o copo junto ao peito e fez a pergunta que Victor não parecia preparado para responder:

— Por que você não me acordou?

Victor demorou um pouco mais do que deveria para responder.

Ele poderia ter dito que ela estava doente, que acordá-la seria desnecessário ou que a senhora Gable teria feito perguntas demais ao encontrá-la cambaleando pelos corredores no meio da madrugada.

Todas seriam respostas razoáveis.

Nenhuma seria verdadeira.

— Porque você estava dormindo — disse ele, por fim.

Chloe apertou os lábios.

— Isso normalmente é o motivo para acordar alguém que está dormindo na cama do patrão.

Quase contra a própria vontade, Victor sentiu o canto da boca se mover.

— Você sempre discute quando está com febre?

— Só quando estou tentando entender se vou continuar recebendo salário.

A resposta mudou alguma coisa no rosto dele.

Não foi pena.

Chloe conhecia pena e odiava o jeito como ela fazia as pessoas inclinarem a cabeça antes de oferecer ajuda que vinha acompanhada de perguntas.

Victor simplesmente a observou com mais atenção.

— Por que veio trabalhar desse jeito?

— Eu já disse que estou bem.

— E eu já disse que isso não é verdade.

Ela colocou o copo sobre a mesa de cabeceira.

— Preciso terminar o turno.

— Não vai terminar.

— Senhor Russo…

— Victor.

Chloe ficou imóvel.

Ele próprio pareceu perceber tarde demais o que tinha dito.

Durante três semanas, ela ouvira todos naquela casa chamá-lo de senhor Russo, inclusive homens muito mais velhos que ele.

— Certo — disse ela com cautela. — Victor. Eu preciso trabalhar.

— Por quê?

A pergunta saiu simples demais para um homem acostumado a mandar.

Chloe desviou o olhar.

— Porque pessoas normais precisam de dinheiro.

— Eu sei como dinheiro funciona.

— Imagino que funcione de maneira diferente quando você tem muito.

Victor poderia ter encerrado a conversa ali.

Em vez disso, apoiou uma mão na cômoda e perguntou:

— Quanto?

Ela olhou de novo para ele.

— Quanto o quê?

— Quanto dinheiro faz você vir trabalhar com febre?

Chloe endureceu.

— Isso não é da sua conta.

Era uma resposta perigosa naquela casa.

Ela soube disso no instante em que as palavras saíram.

Victor também.

Mas ele não levantou a voz.

— Certo.

A aceitação foi tão inesperada que Chloe não soube o que fazer com ela.

Nesse momento, alguém bateu duas vezes à porta.

A voz da senhora Gable veio do corredor.

— Senhor Russo?

Chloe ficou pálida.

Victor percebeu.

— Entre.

A governanta abriu a porta e parou assim que viu Chloe ao lado da cama, ainda com o uniforme amarrotado, o cabelo desfeito e o copo de água sobre a mesa.

Se ficou surpresa, quase não demonstrou.

Quase.

Os olhos dela passaram do edredom amassado para a camisa amarrotada de Victor e depois voltaram para Chloe.

— Senhorita Bennett — disse ela, num tom cuidadosamente neutro.

— Ela está doente — afirmou Victor.

— Eu posso explicar — começou Chloe.

— Não precisa — interrompeu ele.

A senhora Gable olhou diretamente para Victor.

— Devo chamar um carro para levá-la para casa?

Victor ia concordar quando Chloe deu um passo à frente.

— Não.

Os dois olharam para ela.

— Preciso ficar até o fim do turno.

— Não precisa — disse Victor.

— Preciso, sim.

A governanta parecia desconfortável com a discussão, mas Chloe já estava cansada demais para ter medo de hierarquia.

— Se eu perder horas, perco dinheiro. Se perder dinheiro, não compro os remédios do meu irmão na sexta-feira. Então agradeço a preocupação, mas só preciso de alguns minutos e depois volto ao trabalho.

Ela não pretendia dizer tanto.

Talvez a febre tivesse afrouxado alguma trava dentro dela.

Victor ficou completamente imóvel.

— Seu irmão está doente?

Chloe fechou os olhos por um instante.

— Esqueça.

— Que remédios?

— Eu disse para esquecer.

— E eu estou perguntando.

— Isso não significa que eu tenha obrigação de responder.

A senhora Gable baixou os olhos, como se de repente estivesse muito interessada no tapete.

Victor encarou Chloe por alguns segundos.

Depois assentiu uma única vez.

— Leve-a para casa e pague o turno completo.

Chloe abriu a boca.

— Não quero caridade.

— Ótimo. Porque estou pagando por um turno para uma funcionária que ficou doente durante o trabalho. Não é caridade.

— Eu não terminei o serviço.

— E eu não quero uma pessoa com febre tocando em tudo que existe nesta casa. Considere uma questão de higiene, se isso preservar seu orgulho.

A senhora Gable virou ligeiramente o rosto, escondendo algo que poderia ter sido um sorriso.

Chloe percebeu e ficou ainda mais vermelha.

— Está bem.

Victor fez um gesto discreto para a governanta.

— E amanhã ela não vem.

— Amanhã eu venho, sim.

— Não vem.

— O senhor não pode…

Ela parou.

Victor levantou uma sobrancelha.

— Eu definitivamente posso.

Chloe queria discutir, mas outra onda de tontura atravessou seu corpo.

Ela segurou a ponta da cômoda.

Victor avançou um passo por reflexo.

Dessa vez, não tocou nela.

— Vá para casa, Bennett.

A voz estava mais baixa.

— Só por hoje, faça o que alguém está mandando sem transformar isso numa batalha.

Chloe soltou uma respiração cansada.

— Não prometo.

A senhora Gable conduziu Chloe para fora do quarto.

Victor ficou observando a porta fechada por alguns segundos antes de olhar para a cama.

O lado em que Chloe dormira ainda guardava uma pequena depressão no colchão.

Ele odiou perceber isso.

Odiou ainda mais perceber que, pela primeira vez em anos, não estava cansado.

Naquela manhã, Victor cancelou duas reuniões.

Não porque Chloe estivesse doente, disse a si mesmo.

Era apenas uma coincidência conveniente.

Às nove e quarenta, porém, perguntou à senhora Gable se a funcionária tinha chegado em casa.

Ao meio-dia, perguntou novamente.

Às três, perdeu a paciência com a própria curiosidade e chamou a governanta ao escritório.

— O que sabe sobre o irmão dela?

A senhora Gable permaneceu de pé diante da mesa.

— Apenas o que a senhorita Bennett informou na contratação. Quinze anos. Dependente dela. Tratamento médico contínuo.

Victor virou lentamente uma caneta entre os dedos.

— Ela colocou isso no formulário?

— Era necessário para o plano de saúde, embora a cobertura ainda esteja no período inicial previsto pelo contrato.

Aquilo explicou a urgência melhor do que ele gostaria.

— E ela trabalha só aqui?

A senhora Gable hesitou.

Victor percebeu.

— Fale.

— Quando foi contratada, disse que manteria outro emprego pela manhã até organizar as despesas da casa.

Victor ergueu os olhos.

— Outro emprego?

— Hotelaria, pelo que lembro.

Ele fez uma conta silenciosa.

Hotel de manhã.

Casa dele à noite.

Um adolescente doente em casa.

E ainda assim Chloe passara três semanas sem reclamar uma única vez.

— Por que contratou alguém com dois empregos?

— Porque ela foi a candidata mais qualificada para a vaga e porque o senhor sempre disse que não queria saber da vida pessoal dos funcionários, desde que fizessem o trabalho.

A frase atingiu Victor com uma precisão desagradável.

Era verdade.

Ele havia construído aquela regra.

Não saber significava não se envolver.

Não se envolver significava não dever nada a ninguém.

— Obrigado, senhora Gable.

Ela se virou para sair, mas Victor falou novamente.

— Ela recebe amanhã normalmente.

A governanta olhou para ele.

— Todos recebem na sexta-feira.

— Chloe recebe amanhã.

— Posso perguntar por quê?

Victor pousou a caneta.

— Pode.

A senhora Gable esperou.

Ele não respondeu.

Ela assentiu e saiu.

Na manhã seguinte, Chloe acordou no sofá do apartamento com Tommy colocando uma toalha fria em sua testa.

— Você está péssima — disse ele.

— Obrigada.

— Seu chefe ligou?

Chloe abriu os olhos.

— Meu chefe não tem meu número.

Tommy apontou para o celular dela sobre a mesa.

— Então alguém da casa dele mandou mensagem três vezes dizendo que você está proibida de trabalhar hoje.

— A senhora Gable.

— Também disseram que seu pagamento caiu antecipado.

Chloe sentou-se tão depressa que a cabeça latejou.

Pegou o celular.

O depósito estava lá.

Turno completo.

Sem desconto.

Ela ficou olhando para a tela.

— Isso é ruim? — perguntou Tommy.

— Eu ainda não sei.

— Você trabalha para um mafioso e essa é a parte que ainda está avaliando?

Chloe lançou um olhar para ele.

— Não fale isso.

— Todo mundo sabe.

— Todo mundo acha que sabe.

Tommy deu de ombros e voltou para a cozinha.

— Seja o que for, ele pagou antes. Eu gosto dele.

— Você não conhece ele.

— Você conhece?

Chloe abriu a boca e percebeu que não tinha uma resposta simples.

Conhecia o quarto sem fotografias.

Conhecia o café preto que ele quase nunca terminava.

Conhecia a maneira como ele parecia dormir sem realmente descansar.

Agora também conhecia o homem que poderia tê-la demitido, mas passara cinco horas ao lado dela sem exigir nada.

Isso era pouco.

E, ao mesmo tempo, já era mais do que ela queria saber.

Dois dias depois, Chloe voltou ao trabalho.

A senhora Gable tentou mandá-la para tarefas no andar térreo, mas perto das dez da noite Victor apareceu no corredor de serviço.

Ele nunca aparecia ali.

As conversas pararam discretamente.

Victor não pareceu notar ninguém além de Chloe.

— Bennett.

— Senhor Russo.

— Achei que tínhamos avançado dessa parte.

A senhora Gable decidiu que havia alguma tarefa urgente em outro cômodo e desapareceu.

Chloe cruzou os braços.

— Obrigada pelo pagamento antecipado.

— Não foi favor.

— Eu sei.

— Então por que está me agradecendo?

— Porque minha mãe me ensinou educação antes de morrer.

O rosto dele mudou por uma fração de segundo.

Chloe percebeu e se arrependeu de ter falado.

Victor apontou para o corredor principal.

— Venha comigo.

Ela não se moveu.

— Isso costuma funcionar com todo mundo?

— O quê?

— Mandar e esperar que as pessoas obedeçam sem perguntar para onde estão indo.

Victor considerou a pergunta.

— Quase sempre.

— Deve ser confortável.

— Está começando a entender por que mantenho você por perto.

Chloe franziu a testa.

— Eu achei que me mantinha porque limpo bem.

— Isso também.

Ele a levou até o escritório.

Sobre a mesa havia um envelope simples.

Chloe ficou imediatamente desconfiada.

Victor percebeu.

— Não contém dinheiro.

— Ótimo.

— Você parece decepcionada.

— Pareço desconfiada.

— Justo.

Dentro havia apenas uma folha impressa com informações administrativas do plano de saúde oferecido aos funcionários.

Victor apontou para uma linha.

— A senhora Gable disse que seu irmão está registrado como dependente.

Chloe levantou os olhos devagar.

— O senhor perguntou sobre ele?

— Perguntei sobre os benefícios dos funcionários.

— Isso não foi o que perguntei.

Ele sustentou o olhar dela.

— Sim.

A resposta direta a desarmou mais do que qualquer desculpa teria feito.

— Por quê?

Victor apoiou as duas mãos na mesa.

— Porque você quase desmaiou tentando ganhar algumas horas de salário.

— Eu consigo cuidar do Tommy.

— Eu não disse que não consegue.

— Parece que está tentando resolver minha vida.

— Não estou.

— Homens com dinheiro sempre acham que conseguem resolver tudo pagando.

— E mulheres orgulhosas sempre acham que aceitar algo previsto no próprio contrato é perder uma guerra imaginária?

Chloe estreitou os olhos.

Victor quase sorriu outra vez.

— Leia a folha.

Ela leu.

O plano permitiria incluir Tommy quando o período inicial terminasse, mas algumas despesas anteriores não seriam cobertas.

A conta hospitalar continuaria existindo.

Victor não perguntou o valor.

Chloe percebeu isso.

Era a primeira coisa que a fez baixar a guarda.

— Eu posso falar com o setor responsável para garantir que não haja atraso na inclusão dele — disse Victor. — Nada além disso.

— Sem pagar conta escondido?

— Sem pagar conta escondido.

— Sem telefonar para hospital nenhum?

— Sem telefonar para hospital nenhum.

— Sem mandar alguém investigar minha vida?

Victor ficou em silêncio por um instante.

— Isso eu já fiz quando você foi contratada.

Chloe arregalou os olhos.

— O quê?

— Verificação básica de antecedentes. Todos passam por ela.

— Você podia ter escolhido uma maneira melhor de dizer isso.

— Provavelmente.

Ela soltou uma pequena risada antes de conseguir impedir.

Victor ficou olhando para ela como se o som tivesse acontecido em um idioma desconhecido.

Foi naquele momento que a porta do escritório se abriu sem aviso.

Um homem grisalho entrou, bem vestido, com expressão severa.

Chloe o reconheceu do jantar três noites antes de sua febre.

Era o pai de Victor.

O mesmo homem que aparecera acompanhado da mulher de vestido vermelho.

Ele olhou para Chloe, depois para a folha sobre a mesa.

— Então é verdade — disse.

Victor se endireitou.

— O que é verdade?

— Você está deixando uma funcionária entrar em lugares onde ninguém entra.

Chloe começou a recuar.

— Eu posso voltar ao trabalho.

— Fique — disse Victor.

O pai dele soltou uma risada curta.

— É justamente esse o problema.

Victor não levantou a voz.

— Escolha as próximas palavras com cuidado.

— Passei anos apresentando mulheres adequadas, famílias adequadas, alianças que fariam sentido. Você rejeitou todas. Agora descubro que uma empregada dormiu na sua cama e continua trabalhando aqui como se nada tivesse acontecido.

Chloe sentiu o rosto queimar.

— Ela estava com febre — disse Victor.

— Não importa.

— Para mim importa.

A frase mudou o ar entre os três.

O pai de Victor olhou para Chloe com uma atenção fria.

— Você sabe quem ele é?

Chloe respondeu antes que Victor pudesse impedir.

— Sei quem é meu empregador.

— Não foi isso que perguntei.

— Foi o que eu respondi.

Victor virou o rosto para esconder uma reação que o pai não deixou passar.

— Entendo — disse o homem. — É por isso.

— Saia — disse Victor.

— Você acha que ela não quer nada porque ainda não pediu.

Victor caminhou até a porta e a abriu.

— Saia.

O pai parou ao lado dele.

— Quando pedir, lembre-se de que eu avisei.

Depois foi embora.

Chloe permaneceu perto da mesa, rígida.

Victor fechou a porta.

— Desculpe.

Ela soltou uma respiração incrédula.

— Você está se desculpando comigo?

— Não se acostume.

— Impossível. Este já é o segundo acontecimento estranho da semana.

Mas ela não estava sorrindo.

Victor percebeu.

— O que foi?

— Ele acha que eu estou tentando conseguir alguma coisa de você.

— Ele acha isso de todo mundo.

— E você?

A pergunta era quase igual àquela que ela fizera no quarto.

Dessa vez, Victor respondeu sem demora.

— Eu também achava.

— Achava?

Ele olhou para a folha do plano de saúde.

— Até você discutir comigo para não aceitar coisas que já eram suas por direito.

Chloe ficou quieta.

— Isso não significa que eu confie em você — acrescentou Victor.

— Que alívio. Eu estava preocupada que estivéssemos ficando sentimentais.

Ele sorriu de verdade dessa vez.

Foi pequeno e desapareceu rápido, mas Chloe viu.

Nas semanas seguintes, nada mudou oficialmente.

Chloe continuou trabalhando.

Victor continuou comandando seus negócios.

A senhora Gable continuou fingindo que não percebia quantas vezes ele aparecia casualmente nos cômodos onde Chloe estava.

Mas pequenas coisas começaram a mudar.

Victor passou a deixar o café pela metade porque, segundo Chloe, ninguém precisava de quatro xícaras depois das oito da noite.

Chloe parou de aceitar turnos extras no hotel quando o salário da propriedade começou a estabilizar as despesas de casa.

Tommy entrou no plano assim que o período previsto terminou.

Nada milagroso aconteceu com a doença dele.

Continuou precisando de tratamento, medicação e cuidados.

A diferença era que Chloe já não precisava calcular cada comprimido contra o aluguel.

Então, numa noite de janeiro, ela estava arrumando a biblioteca quando Victor entrou carregando dois livros.

— Você reorganizou isso?

— Sim.

— Por quê?

— Porque estava errado.

Victor olhou para as estantes.

— Está em ordem alfabética.

— Exatamente.

— Antes estava por assunto.

— Um sistema ruim.

— Era meu sistema.

— Continua sendo ruim.

Victor deixou os livros sobre a mesa.

— Você realmente não tem medo de mim.

Chloe parou de limpar a prateleira.

— Tenho.

Ele pareceu surpreso.

— Tem?

— Claro que tenho. Não sou idiota.

— Então por que fala comigo assim?

Ela pensou antes de responder.

— Porque medo não transforma você em alguém que sempre está certo.

Victor não disse nada.

A frase poderia ter vindo como desafio.

Em vez disso, chegou como uma verdade simples.

Ele se aproximou da estante e recolocou um livro onde Chloe havia decidido que pertencia.

— Esse fica aqui.

Ela tirou o livro e devolveu à posição anterior.

— Não fica.

Victor olhou para a mão dela.

Depois para seu rosto.

— Bennett.

— Russo.

Foi a primeira vez que ela o chamou apenas pelo sobrenome.

E foi também a primeira vez que Victor percebeu com clareza a diferença entre ser desafiado e ser desrespeitado.

Chloe não queria poder sobre ele.

Queria apenas o direito de permanecer inteira diante dele.

Era precisamente o que nenhuma das pessoas ao redor de Victor parecia fazer.

O pai queria controlar suas escolhas.

Os associados queriam prever suas reações.

As mulheres apresentadas a ele sabiam sua fortuna antes de saberem de que livros gostava.

Chloe sequer sabia quais empresas ele realmente possuía.

E não parecia interessada em descobrir.

Poucos dias depois, Victor recebeu uma ligação durante o jantar.

Quando desligou, encontrou Chloe no corredor levando toalhas limpas para o andar de cima.

— Seu irmão está bem?

Ela parou.

— Está. Por quê?

— Você parece cansada.

— Isso é praticamente minha personalidade.

— Não deveria ser.

Chloe apoiou as toalhas contra o quadril.

— Você também parece cansado quase sempre.

— Eu durmo.

Ela levantou uma sobrancelha.

— Cinco horas uma vez não contam como tratamento.

Victor ficou imóvel.

Nenhum dos dois mencionara aquela noite desde então.

Chloe percebeu tarde demais o que havia dito.

— Desculpa.

— Você já disse isso.

Ela reconheceu a frase e sorriu.

Ele também.

Naquela madrugada, Victor entrou no quarto às duas e pouco e ficou olhando para a cama vazia.

Durante anos, aquele vazio tinha sido exatamente como ele queria.

Seguro.

Controlado.

Sem testemunhas para seus pesadelos e sem ninguém perto o bastante para ser usado contra ele.

Só então compreendeu o que havia mudado naquela primeira noite.

Não tinha dormido porque Chloe fosse especial por não querer seu dinheiro.

Dormira porque, febril e inconsciente da própria ousadia, ela entrara no único lugar onde Victor nunca permitia que ninguém existisse e não tentara tomar nada dele.

Nem informação.

Nem promessa.

Nem proteção.

Nem um pedaço de futuro.

Apenas dormira.

E ele tinha feito algo ainda mais estranho.

Deixara que ela ficasse.

Na semana seguinte, o pai de Victor voltou à propriedade.

Dessa vez não trouxe mulher alguma.

Trouxe uma proposta de casamento disfarçada de acordo entre famílias.

Victor leu apenas a primeira página e devolveu os papéis.

— Não.

— Você nem terminou.

— Não preciso.

— Por causa dela?

Victor recostou-se na cadeira.

— Por minha causa.

O pai pareceu irritado.

— Você vai destruir uma oportunidade importante por uma funcionária?

— Chloe não pediu nada.

— Ainda.

Victor pensou na palavra.

Ainda.

Era exatamente assim que ele havia vivido durante quinze anos: esperando a segunda intenção chegar.

Sempre acreditando que gentileza era investimento, aproximação era estratégia e afeto era uma dívida cujo boleto apareceria depois.

— Talvez o problema — disse Victor — seja que passei tempo demais escolhendo pessoas com base no que elas poderiam me oferecer.

— E agora vai escolher alguém porque ela não oferece nada?

Victor levantou os olhos.

— Não estou escolhendo ninguém.

E naquele momento era verdade.

O que ele fez foi mais difícil.

Decidiu não escolher por Chloe.

Naquela noite, encontrou-a na cozinha de serviço colocando comida em um recipiente para levar para Tommy.

— Bennett.

— O que eu fiz agora?

— Nada.

— Isso parece suspeito.

Victor encostou-se ao batente.

— Meu pai acredita que sua presença aqui está interferindo nas minhas decisões.

Chloe pousou a tampa do recipiente.

— Quer que eu peça demissão?

A pergunta doeu de uma maneira que Victor não esperava.

— Não.

— Então o que quer?

Durante quinze anos, ele sempre soubera responder essa pergunta.

Quero silêncio.

Quero lealdade.

Quero resultado.

Quero que saia.

Dessa vez, não.

— Quero saber o que você quer.

Chloe ficou olhando para ele.

— Agora?

— Agora.

Ela pensou por alguns segundos.

— Quero terminar o curso que abandonei quando meus pais morreram.

Victor não interrompeu.

— Quero que Tommy chegue aos vinte anos reclamando de coisas idiotas, como qualquer garoto deveria poder fazer.

A voz dela baixou.

— Quero trabalhar sem sentir que uma emergência de duzentos dólares pode acabar comigo.

Victor assentiu.

— Mais alguma coisa?

Chloe olhou para ele com cuidado.

— Quero que você pare de tentar descobrir quanto custa cada problema meu.

Aquilo quase o fez rir.

— Justo.

— E você?

— Eu o quê?

— O que você quer?

Victor olhou para o corredor vazio atrás dela.

Quando respondeu, sua voz não tinha nenhuma autoridade.

— Dormir.

Chloe sorriu devagar.

— Isso eu não posso comprar para você.

— Eu sei.

— Nem resolver.

— Eu sei.

— Talvez esse seja o motivo de você gostar de falar comigo.

Victor sustentou o olhar dela.

— Talvez.

Nada aconteceu naquela noite.

E justamente por isso alguma coisa mudou.

Victor não ofereceu dinheiro.

Chloe não ofereceu gratidão.

Nenhum dos dois transformou o momento numa promessa que não estava pronto para cumprir.

Eles apenas continuaram.

Meses depois, Chloe reduziu os outros turnos e voltou a estudar em horário parcial.

Tommy continuou o tratamento com mais estabilidade, e o apartamento ainda era pequeno, as contas ainda chegavam e a vida não se tornou subitamente fácil.

Victor também não virou outro homem da noite para o dia.

Continuou desconfiado.

Continuou perigoso para quem fazia parte do mundo que ele havia construído.

Continuou acordando algumas madrugadas com lembranças que preferia não ter.

A diferença era que agora havia alguém diante de quem ele não precisava fingir que isso não existia.

Certa noite, depois de um jantar particularmente tenso com o pai, Victor voltou para o quarto pouco depois da meia-noite.

A porta estava entreaberta.

Ele parou.

Durante um segundo, a antiga reação voltou inteira: mão perto do paletó, corpo tenso, atenção em cada detalhe.

Então viu Chloe sentada na poltrona, segurando um livro.

Ela estava acordada.

Completamente saudável.

E perfeitamente consciente de onde estava.

— A senhora Gable disse que você não jantou — explicou.

Sobre a mesa havia uma bandeja simples com comida.

Victor olhou para ela.

— Você entrou no meu quarto sem permissão novamente.

— Tecnicamente, a porta estava aberta.

— Bennett.

— Russo.

Ele fechou a porta atrás de si.

Chloe se levantou.

— Eu posso ir embora.

Era a frase mais importante que ela poderia ter dito.

Porque daquela vez não estava febril.

Não estava presa ali por trabalho.

Não precisava de nada naquele instante.

Ela estava oferecendo a Victor exatamente aquilo que ele nunca soubera oferecer às pessoas: escolha.

Ele olhou para a cama, depois para ela.

— Pode.

Chloe assentiu e deu um passo em direção à porta.

— Mas não quero que vá — acrescentou ele.

Ela parou.

Victor não tentou transformar aquelas palavras numa ordem.

Não disse fique como dizia a funcionários, associados ou homens que deviam obedecê-lo.

Esperou.

Chloe voltou para a poltrona.

— Então sente e coma antes que esfrie.

Victor soltou uma risada baixa.

— Você realmente é a única pessoa nesta casa que consegue transformar um momento desses numa bronca sobre jantar.

— Alguém precisa fazer isso.

Ele comeu.

Ela leu.

Depois conversaram até tarde sobre assuntos que não davam poder a nenhum dos dois: professores ruins, livros superestimados, a mania de Tommy de deixar pratos no quarto e a incapacidade de Victor de admitir que seu sistema antigo para organizar a biblioteca era péssimo.

Quando Chloe se levantou para ir embora, Victor não tentou impedi-la.

Foi essa ausência de controle que finalmente tornou possível ela voltar na noite seguinte.

O pai de Victor nunca aprovou.

Alguns funcionários especularam.

Alguns associados fizeram perguntas uma única vez e aprenderam pela expressão de Victor que não haveria uma segunda.

Mas Chloe não se tornou uma figura decorativa na vida dele, nem alguém mantida ali por dívida.

Ela terminou o primeiro semestre do curso que havia retomado.

Continuou ajudando Tommy.

Continuou trabalhando por um tempo na propriedade porque escolheu fazê-lo, até que sua rotina mudou e ela já não precisou aceitar tantos turnos.

Quando finalmente entregou à senhora Gable uma solicitação para reduzir oficialmente sua carga de trabalho, Victor encontrou o papel sobre a mesa do escritório.

Ficou olhando para ele por um longo momento.

Meses antes, teria interpretado aquilo como abandono.

Como ingratidão.

Como sinal de que alguém estava prestes a sair assim que tivesse conseguido o que queria.

Dessa vez, apenas assinou.

Naquela noite, Chloe apareceu na porta do quarto.

Não entrou.

— Soube que assinou.

— Você pediu.

— Achei que discutiria.

— Eu também.

Ela sorriu.

Victor caminhou até a porta e parou diante dela.

— Quando você dormiu aqui naquela primeira noite, achei que o problema era ter quebrado uma regra minha.

Chloe cruzou os braços.

— Eu estava com quase quarenta graus de febre. Gostaria que isso constasse na defesa.

— Consta.

Ele olhou para o edredom cinza-escuro, agora dobrado no pé da cama.

— Mas a regra nunca foi sobre a cama.

Chloe esperou.

Victor respirou fundo.

— Era sobre deixar alguém ficar perto o bastante para ter a opção de ir embora.

Dessa vez, ela não respondeu com uma piada.

Apenas estendeu a mão.

Victor olhou para os dedos dela e depois os segurou.

Sem ordem.

Sem dívida.

Sem promessa comprada.

Mais tarde, quando Chloe entrou no quarto, foi ela quem puxou o edredom cinza-escuro para o lado e escolheu onde se deitar.

Victor apagou a luz, deixou quase um metro entre os dois por hábito e fechou os olhos.

Alguns minutos depois, sentiu Chloe puxar discretamente uma parte do edredom porque ele havia ficado com quase tudo.

Victor abriu os olhos no escuro.

— Bennett.

— Russo.

Ele soltou o tecido.

E, pela primeira vez, aquela cama não era o lugar onde Victor mantinha o mundo do lado de fora.

Era apenas uma cama dividida por duas pessoas que podiam partir — e que, naquela noite, escolheram ficar.

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