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O Presente de Aniversário Foi Para a Amante — e o Hospital Ligou-silas

— Entregue onde sempre. E garanta que ela mesma abra a caixa.

Regina Montemayor ouviu aquelas palavras a menos de dez metros do marido.

Sebastián Cárdenas estava na garagem, de costas para a porta, falando com Emilio, o motorista de confiança da família, sem imaginar que Regina havia parado no corredor no exato momento em que ele dava a ordem.

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Ela não entrou.

Também não perguntou nada.

Ficou onde estava, segurando a bolsa com as duas mãos, enquanto Emilio recebia uma caixa de madeira decorada com um laço vermelho.

— Diretamente nas mãos dela — acrescentou Sebastián. — Tome cuidado para não bater e não deixe mais ninguém abrir.

Emilio assentiu com a naturalidade de quem já conhecia aquele tipo de tarefa.

— Sim, senhor. Como sempre.

Foram essas duas últimas palavras que fizeram Regina sentir que alguma coisa dentro de sua vida acabava de mudar de lugar.

Como sempre.

Aquilo significava que não era a primeira entrega.

Significava que Emilio não precisava perguntar o endereço.

E significava, acima de tudo, que Sebastián mantinha uma rotina que a própria esposa desconhecia.

Doze horas antes, nada daquilo parecia possível para quem olhasse os dois de fora.

Na noite anterior, Regina e Sebastián tinham posado diante de dezenas de câmeras em um salão do St. Regis, no Paseo de la Reforma.

Regina, aos 34 anos, acabara de receber um reconhecimento profissional pela transformação da imobiliária que herdara do pai.

Quando assumiu o negócio, muita gente esperava que ela simplesmente preservasse o patrimônio da família.

Ela fizera mais.

Reorganizou operações, assumiu decisões difíceis e transformou a empresa em um dos grupos mais sólidos da Cidade do México.

Naquela noite, empresários, jornalistas e convidados se aproximavam para cumprimentá-la, e Sebastián parecia determinado a representar perfeitamente o papel de marido orgulhoso.

Ele a segurou pela cintura diante das câmeras e sorriu.

— Minha esposa é extraordinária. Meu único trabalho é fazer com que ela se sinta segura e amada.

A frase provocou aplausos.

Regina olhou para ele e sorriu também.

Naquele instante, não havia motivo para transformar uma declaração pública em suspeita.

Sebastián sabia falar com as pessoas.

Sabia ocupar uma sala.

Sabia quando tocar o braço de Regina, quando elogiar sua inteligência e quando deixar claro, diante dos outros, que admirava a mulher com quem havia se casado.

Por isso, poucas horas depois, a distância entre aquela frase e o que Regina começaria a descobrir seria ainda mais difícil de ignorar.

Quando voltaram para a casa da família em Lomas de Chapultepec, Sebastián estava meio bêbado.

Tirou os sapatos de qualquer jeito, caiu sobre a cama ainda vestido e adormeceu rapidamente.

Regina ficou acordada por mais algum tempo.

Ainda pensava no evento, nas conversas que teria de retomar no dia seguinte e nas mensagens acumuladas no celular quando ouviu uma batida discreta na porta.

Era Dona Teresa.

Ela trabalhava com a família Montemayor desde que Regina era criança e raramente entrava no quarto daquele jeito, especialmente tão tarde.

Trazia o paletó de Sebastián dobrado sobre os braços.

Seu rosto parecia mais preocupado do que o necessário para simplesmente devolver uma peça de roupa esquecida.

— Dona Regina… encontrei isto no bolso dele.

Regina recebeu primeiro um papel dobrado.

Era um recibo relacionado ao aluguel de um apartamento de luxo em Polanco.

O contrato estava no nome de Camila Ríos.

Regina leu o nome uma vez.

Depois novamente.

Não conhecia nenhuma Camila Ríos que justificasse um pagamento daquele tipo na vida do marido.

Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, Dona Teresa mostrou os outros itens que havia encontrado.

Havia uma cobrança de dívida de quase 10 milhões de pesos com agiotas.

E havia um lenço manchado por um tom de batom vermelho que Regina jamais usava.

Separadamente, cada objeto poderia exigir uma explicação.

Juntos, formavam perguntas demais.

Dona Teresa começou a chorar antes mesmo que Regina dissesse qualquer coisa.

— Eu já desconfiava. Ele sai de madrugada, recebe ligações no jardim… mas eu não queria acusá-lo sem ter provas.

Regina olhou para Sebastián.

O homem que poucas horas antes dissera diante das câmeras que seu único trabalho era fazê-la se sentir segura e amada continuava dormindo, alheio à conversa.

Ela poderia tê-lo acordado naquele momento.

Poderia ter colocado o recibo diante dele, exigido uma explicação sobre Camila e perguntado por que uma cobrança de quase 10 milhões de pesos estava escondida dentro de seu paletó.

Não fez nada disso.

Guardou os documentos em uma gaveta.

Trancou-a.

E ficou com a chave.

— Não diga nada a ele — pediu a Dona Teresa. — Se descobrir que já sabemos, vai esconder o que ainda falta.

Dona Teresa hesitou, mas concordou.

A decisão de Regina não veio de tranquilidade.

Veio da percepção de que ela ainda conhecia apenas pedaços de uma história.

O apartamento explicava uma possível relação escondida.

A dívida revelava um problema financeiro enorme.

O lenço apontava para outra mulher.

Mas nenhuma dessas coisas explicava por que Sebastián estava escondendo tudo ao mesmo tempo.

Naquela mesma madrugada, Regina ouviu o marido se mexer.

Sebastián abriu os olhos, levantou-se e disse, num tom casual, que iria buscar água.

Ela esperou alguns segundos antes de sair atrás dele.

Manteve distância suficiente para não ser percebida.

Sebastián não foi até a cozinha.

Atravessou o jardim.

Seguiu até uma porta lateral que dava para um beco.

Regina parou antes de chegar perto demais.

Havia uma mulher esperando do outro lado.

Ela estava vestida de preto e carregava uma caixa de madeira com um laço vermelho.

Regina não conseguia ouvir o que os dois diziam.

Conseguia apenas ver.

A mulher entregou a caixa a Sebastián.

Sebastián, em troca, passou a ela um envelope grosso.

A transação durou pouco.

Não houve abraço, despedida demorada nem nada que permitisse a Regina concluir quem era aquela mulher ou qual era a relação entre os dois.

Ela permaneceu escondida enquanto Sebastián retornava para dentro de casa.

Depois o viu levar a caixa até o quarto e escondê-la no fundo do closet.

Regina voltou para a cama antes dele.

Quando Sebastián entrou, ela permaneceu imóvel, fingindo dormir.

Ele não comentou a saída.

Não comentou a mulher.

Não comentou a caixa.

Na manhã seguinte, parecia outra vez o mesmo homem controlado que sorrira para os fotógrafos.

Desceu impecável.

Sentou-se para o café e falou sobre clientes, projetos e reuniões como se a madrugada tivesse sido absolutamente comum.

Regina respondeu apenas o necessário.

Observava cada gesto.

O telefone dele.

A maneira como evitava deixá-lo longe da mão.

As pausas entre uma frase e outra.

A pressa cuidadosamente disfarçada.

Depois do café, Sebastián anunciou que precisava sair.

Subiu para buscar sua pasta de trabalho.

Quando reapareceu, carregava também a caixa de madeira.

O mesmo laço vermelho continuava preso à tampa.

Regina decidiu fazer uma pergunta simples.

— O que é isso?

Por apenas um instante, Sebastián hesitou.

Foi pouco.

Talvez outra pessoa nem percebesse.

Regina percebeu.

— Um presente para a esposa de um cliente.

Ele disse aquilo sem oferecer nome, ocasião ou qualquer outro detalhe.

Regina não insistiu.

Se demonstrasse que sabia mais, poderia perder a oportunidade de entender para onde a caixa iria.

Ela o acompanhou até a garagem sem parecer estar acompanhando.

Sebastián chamou Emilio.

O motorista se aproximou imediatamente.

Regina abriu a bolsa e fingiu procurar alguma coisa enquanto ouvia.

Então vieram as palavras que mudaram a manhã.

— Entregue onde sempre. E garanta que ela mesma abra a caixa.

Emilio segurou o pacote.

Sebastián reforçou a orientação.

— Diretamente nas mãos dela. Tome cuidado para não bater e não deixe mais ninguém abrir.

Emilio não perguntou o endereço.

— Sim, senhor. Como sempre.

Regina sentiu o peso daquela resposta.

Se Emilio sabia onde sempre significava, Sebastián já havia usado o motorista para outras entregas.

E, se o recibo encontrado no paletó era o que parecia ser, havia uma possibilidade óbvia demais para ignorar.

Polanco.

Camila Ríos.

A caixa não parecia destinada à esposa de cliente nenhum.

Regina observou Emilio colocar cuidadosamente a encomenda no carro.

Não tentou impedi-lo.

Naquele momento, ainda acreditava que estava diante de mais uma peça da possível traição do marido.

Talvez fosse joia.

Talvez algum presente caro.

Talvez algo que Sebastián não queria que ninguém além de Camila recebesse.

O que incomodava Regina era a forma como aquele pacote havia aparecido.

A mulher no beco.

O envelope grosso.

O pagamento em dinheiro.

A entrega feita durante a madrugada.

O cuidado exagerado ao transportar a caixa.

A ordem para que apenas a destinatária a abrisse.

Nada combinava com um presente comum.

O carro saiu da garagem.

Sebastián permaneceu olhando por alguns segundos antes de entrar novamente em casa.

Regina fez o mesmo.

Ela ainda não sabia o que faria com o recibo de Camila.

Também não havia decidido quando confrontaria o marido sobre a dívida de quase 10 milhões de pesos.

Mas sabia que, naquele momento, perguntar cedo demais seria permitir que Sebastián preparasse respostas para perguntas que ela ainda nem conhecia.

As horas seguintes avançaram com uma aparência desconfortável de normalidade.

Sebastián atendia ligações.

Respondia mensagens.

Falava de compromissos profissionais.

Regina permanecia por perto sem revelar nada.

Por mais que tentasse organizar os acontecimentos, a caixa continuava sendo a peça que não se encaixava.

O apartamento poderia explicar Camila.

A dívida poderia explicar o envelope de dinheiro.

Mas a ordem de que aquela mulher abrisse pessoalmente a encomenda exigia outra resposta.

Então o telefone de Sebastián tocou.

Não foi o toque que chamou a atenção de Regina.

Foi o rosto dele.

Ela estava perto o bastante para perceber a mudança antes mesmo de saber quem estava do outro lado da linha.

Sebastián atendeu com a mesma voz controlada de sempre.

Nos primeiros segundos, apenas ouviu.

Depois se levantou.

Sua postura endureceu.

A mão que segurava o celular apertou o aparelho com força.

Ele fez uma pergunta baixa demais para Regina entender.

A resposta veio do outro lado.

Era uma ligação do hospital.

Camila Ríos havia sido levada às pressas para atendimento depois de abrir a caixa recebida naquela manhã.

Seu estado era gravíssimo.

Ela estava entre a vida e a morte.

Sebastián empalideceu.

Regina não precisava mais perguntar se ele conhecia Camila.

A reação dele respondia pelo menos essa parte.

Também não precisava perguntar se o motorista levara a caixa para o apartamento associado ao recibo encontrado por Dona Teresa.

A sequência dos acontecimentos tornava aquela ligação impossível de tratar como coincidência.

Mesmo assim, Regina não gritou.

Não o acusou imediatamente de ter uma amante.

Não perguntou quantas vezes Emilio havia ido àquele endereço.

Não mencionou o aluguel.

Não mencionou o lenço.

Não mencionou a dívida.

Havia uma pergunta mais urgente do que todas as outras.

Sebastián continuava segurando o celular quando Regina se aproximou.

Os olhos dele finalmente encontraram os dela.

Por alguns segundos, nenhum dos dois tentou fingir que aquela era apenas mais uma ligação de trabalho.

Regina falou com uma calma que contrastava com tudo o que acabara de ouvir.

— O que havia realmente naquela caixa?

Sebastián abriu a boca, mas não respondeu imediatamente.

Até aquele momento, Regina tinha provas de mentiras, sinais de uma relação escondida e uma dívida gigantesca que o marido jamais mencionara.

Agora existia algo muito mais grave.

Uma mulher estava hospitalizada em estado crítico depois de abrir exatamente o pacote que Sebastián comprara às escondidas durante a madrugada e mandara entregar pessoalmente.

A frase dita na garagem voltava inteira à memória de Regina.

Garanta que ela mesma abra a caixa.

Antes, aquilo parecera apenas uma instrução estranhamente específica.

Depois da ligação do hospital, passou a significar outra coisa.

Sebastián desviou o olhar por um instante.

E foi então que Regina percebeu que a questão já não era apenas descobrir se o marido mantinha uma amante.

Também não era apenas entender por que ele devia quase 10 milhões de pesos a agiotas.

A pergunta agora era por que Sebastián tinha tanto interesse em garantir que Camila, e somente Camila, abrisse aquela encomenda.

Regina voltou mentalmente ao momento em que vira a mulher de preto entregar a caixa.

Lembrou-se do envelope grosso trocado no beco.

Lembrou-se do cuidado de Sebastián ao escondê-la no fundo do closet.

Lembrou-se da mentira sobre a esposa de um cliente.

E lembrou-se principalmente de Emilio dizendo como sempre.

Se o motorista já havia feito outras entregas, talvez aquela rotina fosse mais antiga do que Regina imaginava.

Mas aquela caixa era diferente.

Sebastián havia insistido para que ninguém mais a abrisse.

O hospital acabara de confirmar o que aconteceu quando Camila obedeceu àquela instrução.

Regina ainda não tinha todas as respostas.

Sabia apenas que havia passado a noite acreditando estar descobrindo uma traição.

Na manhã seguinte, percebeu que a possível amante era apenas uma parte de um problema muito maior.

A imagem do marido perfeito construída diante das câmeras já havia desaparecido.

No lugar dela estavam um apartamento secreto, uma dívida milionária, uma mulher escondida, uma compra feita de madrugada, uma caixa com um laço vermelho e uma paciente lutando pela vida.

Sebastián tentou dizer alguma coisa.

Regina não permitiu que ele mudasse de assunto.

Manteve os olhos nele.

— Eu perguntei o que havia naquela caixa.

Dessa vez, o silêncio de Sebastián não pareceu hesitação.

Pareceu medo.

E, naquele instante, Regina soube que a resposta para aquela pergunta poderia explicar não apenas o que havia acontecido com Camila, mas também por que o marido vinha escondendo tanto dinheiro, tantas saídas e tantas mentiras.

Ela ainda não sabia que existia uma gravação ligada àquela sequência de acontecimentos.

Uma gravação capaz de colocar em risco tudo o que Sebastián vinha tentando manter separado: a vida que mostrava publicamente, a relação escondida com Camila e os segredos que circulavam em torno daquela caixa.

Mas, antes que essa gravação pudesse revelar qualquer coisa, Regina precisava entender o fato que estava diante dela.

O homem que prometera publicamente mantê-la segura e amada havia enviado às escondidas uma encomenda para outra mulher.

A mulher abrira o pacote.

Agora estava entre a vida e a morte.

E Sebastián parecia aterrorizado com uma única pergunta.

O que havia realmente naquela caixa?

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