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O Noivo Encontrou Os Pais Reais Dela Antes Do Casamento-silas

Minha noiva me proibiu de procurar os pais dela e disse: “Eles não estarão no casamento”. Encontrei o endereço verdadeiro numa cópia do documento e viajei escondido. Quando o pai dela abriu a porta e viu a aliança, começou a chorar… mas a mensagem que ela me mandou minutos depois revelou que ela já tinha preparado uma família falsa.

Daniel Oliveira aprendeu cedo que silêncio em família raramente significava paz.

Às vezes, era só uma mesa inteira escolhendo fingir que não tinha visto o incêndio começar.

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Naquela tarde de domingo, a sala de jantar dos Oliveira estava cheia demais para uma pergunta tão simples.

Havia arroz, feijão, carne assada, salada, copos suando sobre a toalha de plástico e o ventilador fazendo um ruído seco no canto.

O cheiro de café recém-passado vinha da cozinha, misturado ao tempero quente da comida e ao perfume discreto que Renata sempre usava quando queria parecer intocável.

Daniel estava sentado ao lado dela, a mão quase encostando na dela por baixo da mesa, tentando se convencer de que tudo estava normal.

Não estava.

A ausência da família de Renata tinha virado uma cadeira invisível naquela casa.

Todo mundo via.

Ninguém sabia como tocar no assunto.

Até o tio Marcelo tocar.

— Se seus pais não vêm ao casamento, pelo menos conta o que você fez para eles apagarem você da vida deles — disse ele, pousando o garfo com um cuidado falso.

Dona Teresa fechou os olhos por meio segundo.

Seu Ernesto parou de mastigar.

Daniel sentiu a garganta apertar antes mesmo de olhar para Renata.

Ela não piscou.

Sorriu.

Era o tipo de sorriso que Daniel tinha amado no começo, porque parecia força.

Naquele dia, pela primeira vez, pareceu ensaio.

— Eu não fiz nada — respondeu Renata. — Meu pai controlava cada passo meu. Minha mãe sempre ficava do lado dele. Eu saí de casa porque precisava respirar. Eles não falam comigo, e eu também não quero falar com eles. Já expliquei isso ao Daniel.

A frase saiu limpa, sem tropeço, sem raiva visível.

Talvez por isso tenha assustado mais.

Uma pessoa ferida costuma deixar alguma marca na voz.

Renata não deixou nenhuma.

O garfo de Dona Teresa ficou suspenso por tempo demais sobre o prato.

O copo de seu Ernesto bateu de leve na mesa quando ele o colocou de volta.

A empregada, que vinha trazendo mais uma travessa, fingiu não ouvir e voltou para a cozinha com passos menores.

O relógio da parede marcava 13h47.

Daniel lembraria daquele horário depois.

Mentiras grandes costumam cair em detalhes pequenos.

O tio Marcelo abriu a boca de novo, mas Daniel o cortou.

— Já chega, tio.

Renata virou o rosto para Daniel como quem agradece em silêncio.

Ele apertou a mão dela por baixo da mesa.

Queria que aquele gesto dissesse: estou do seu lado.

Queria que fosse verdade sem nenhuma rachadura.

O casamento estava marcado para dali a um mês.

Mais de duzentos convidados já tinham confirmado presença.

O salão era caro, a decoração já estava paga, o buffet tinha enviado três versões do cardápio, e Dona Teresa já tinha separado uma caixa inteira de lembrancinhas para parentes que Daniel mal reconhecia.

Do lado de Renata, não havia lista.

Zero nomes.

No começo, Daniel achou estranho, mas respeitou.

Depois, achou triste.

Então, começou a achar conveniente demais.

Renata dizia que era filha única.

Dizia que os pais eram frios.

Dizia que tinha passado anos sendo vigiada, corrigida, diminuída.

Daniel nunca pediu provas.

Amar alguém, ele pensava, era justamente não tratar dor como processo judicial.

Mas Daniel trabalhava com documentos, contratos e assinaturas havia tempo suficiente para saber que a verdade tem uma textura.

E a história de Renata, embora dolorosa, era lisa demais.

Depois daquele almoço, ela ficou quieta no carro.

Mexia no celular com o polegar rápido, mas toda vez que Daniel olhava para a tela, ela bloqueava.

— Você ficou chateada com meu tio? — perguntou ele.

— Eu fiquei cansada — respondeu ela.

— Ele foi grosseiro.

— Sua família é curiosa demais.

A frase veio leve, quase brincando.

Mas Daniel sentiu o peso escondido nela.

Naquela noite, quando Renata tomou banho e depois se deitou dizendo que estava com dor de cabeça, Daniel ficou na sala olhando as caixas de convite empilhadas sobre o aparador.

O nome dela estava ali.

Renata Vieira.

Era bonito.

Era o nome que ela usava nas redes, no trabalho, nos convites e nas conversas com a família dele.

Ele nunca tinha perguntado muito sobre isso.

Ela dizia que preferia o sobrenome da avó.

Daniel aceitou.

Pessoas têm direito de escolher o que carregam.

O problema é quando alguém escolhe o que os outros vão enxergar.

Na terça-feira, no escritório, ele pediu ao assistente que separasse documentos antigos de um imóvel que Renata tinha alugado antes de morar com ele.

Não foi uma investigação formal.

Foi pior.

Foi um impulso de vergonha.

Daniel se odiou por abrir aquela pasta.

A ficha cadastral estava lá, grampeada ao contrato.

Comprovante de renda.

Assinatura digital.

Cópia do documento.

Endereço de origem.

Renata Almeida Costa.

Ele leu uma vez.

Depois leu de novo, como se as letras fossem mudar por educação.

O sobrenome Vieira não aparecia em lugar nenhum.

O endereço também não combinava com o pouco que ela dizia sobre a infância.

Era uma rua residencial no interior de São Paulo, a menos de duas horas de carro.

Daniel ficou parado diante da mesa, ouvindo o ar-condicionado do escritório e o ruído distante dos carros lá embaixo.

Às 16h12, fotografou o documento com o próprio celular.

Às 16h14, apagou a foto.

Às 16h16, recuperou da lixeira.

Foi ali que entendeu que alguma coisa dentro dele já tinha tomado a decisão que sua boca ainda não tinha coragem de admitir.

Na sexta à noite, Renata falou sobre a prova do vestido.

Mostrou fotos de arranjos florais.

Perguntou se ele preferia luz quente ou luz branca no salão.

Daniel respondia tudo certo, mas por dentro estava em outra estrada.

No sábado de manhã, disse que precisava visitar um galpão.

Renata nem levantou os olhos do celular.

— Volta para jantar? — perguntou.

— Volto.

Ela beijou a bochecha dele.

O beijo foi rápido demais para conter culpa, mas frio demais para parecer descuido.

Daniel entrou no carro com a cópia impressa do documento no banco do passageiro.

A estrada parecia comum.

Postos de gasolina, caminhões, placas, árvores, calor batendo no para-brisa.

Mas cada quilômetro afastava Daniel de uma versão de sua vida e aproximava de outra.

Ele tentou ensaiar o que diria.

Boa tarde, sou noivo da sua filha.

Boa tarde, desculpe aparecer assim.

Boa tarde, eu preciso saber se vocês existem.

Nenhuma frase parecia decente.

Quando chegou ao bairro indicado no comprovante, reduziu a velocidade.

As casas eram simples, com portões baixos, varais aparecendo em algumas áreas de serviço, vasos perto das portas e cachorros latindo como se conhecessem todos os segredos da rua.

Daniel parou diante de uma casa de parede marcada pelo tempo.

Havia roseiras cuidadas na frente.

Um homem mais velho segurava uma mangueira remendada e regava as plantas com uma paciência que doía de ver.

Daniel desligou o carro.

Não desceu imediatamente.

Olhou para a aliança na própria mão.

Olhou para a caixinha que tinha trazido sem saber por quê.

Talvez quisesse uma prova.

Talvez quisesse proteção.

Talvez ainda acreditasse que um anel podia transformar uma invasão em pedido de permissão.

Quando abriu o portão baixo, o homem levantou os olhos.

— Boa tarde — disse Daniel, a voz mais baixa do que pretendia. — Eu sou Daniel Oliveira… o noivo da Renata.

A mangueira caiu.

A água continuou saindo, batendo na calçada e escorrendo para a rua.

O homem não perguntou qual Renata.

Não perguntou se Daniel tinha errado a casa.

Ele apenas olhou para a mão esquerda de Daniel.

Viu a aliança.

E o rosto dele se desfez.

Não foi susto.

Não foi raiva.

Foi alívio.

Um alívio tão fundo que parecia ter atravessado anos antes de chegar ali.

— Marta! — gritou o homem, com a voz quebrada. — Vem aqui, por favor. Alguém veio falar da nossa filha.

Daniel sentiu o estômago afundar.

Da porta surgiu uma mulher de cabelos presos, blusa simples e olhos que já pareciam assustados antes mesmo de entender a cena.

Quando viu Daniel, levou a mão à boca.

— Ela está viva? — perguntou.

A pergunta acertou Daniel com mais força do que qualquer acusação.

Ele tinha chegado preparado para encontrar pais cruéis.

Encontrou pais que nem sabiam se ainda tinham filha.

O homem se apresentou como Paulo.

A mulher era Marta.

Eles não puxaram Daniel para dentro de imediato, como gente ensaiada faria.

Ficaram no portão, com medo de que qualquer movimento brusco fizesse aquela notícia desaparecer.

— Ela vai casar? — Marta perguntou.

Daniel assentiu.

— Daqui a um mês.

Marta cobriu o rosto com as duas mãos.

Paulo olhou para o chão.

A água da mangueira já tinha molhado o chinelo dele.

— Ela disse que vocês não falam com ela — continuou Daniel. — Disse que o senhor controlava tudo. Que a senhora sempre ficava do lado dele.

Paulo fechou os olhos.

Marta não se defendeu.

Isso também assustou Daniel.

Pessoas inocentes costumam querer limpar o próprio nome rápido.

Aqueles dois pareciam cansados demais para disputar a própria imagem.

— Ela foi embora há quase três anos — disse Paulo. — Mandou uma mensagem dizendo que precisava sumir por um tempo. Depois bloqueou todo mundo.

— A gente procurou — Marta completou. — Fomos atrás de amigas, antigo trabalho, endereço. Fizemos boletim. Ninguém sabia nada. Quando uma amiga disse que tinha visto uma conta nova dela, a Renata mandou uma única mensagem.

A mulher engoliu seco.

— Disse que, se a gente insistisse, ela ia nos acusar de perseguição.

Daniel ficou quieto.

O vento mexeu as folhas das roseiras.

De dentro da casa vinha cheiro de café velho e sabão em pó.

Aquilo não combinava com a imagem de monstros sofisticados que ele tinha construído na cabeça.

Seu Ernesto tinha razão.

Daniel tinha inventado monstros onde talvez só existisse gente ferida.

Mas então o celular vibrou.

Ele tirou o aparelho do bolso.

Era Renata.

A mensagem apareceu inteira na tela.

“Se você estiver na casa deles, não acredite em nada. Meus pais de verdade chegam amanhã para conhecer sua família.”

Daniel leu devagar.

O corpo inteiro ficou frio.

Paulo viu a expressão dele e perguntou:

— O que foi?

Daniel não respondeu.

Apenas virou a tela.

Paulo leu.

Marta leu por cima do ombro dele.

Por um segundo, nenhum dos dois se mexeu.

Depois Marta soltou um som pequeno, quase animal, e entrou correndo na casa.

Daniel pensou que ela tivesse passado mal.

Paulo segurou o portão com tanta força que os dedos ficaram brancos.

— Família de verdade? — ele repetiu. — Então agora nós somos o quê?

A pergunta ficou no ar.

Marta voltou carregando uma pasta de plástico transparente.

Dentro havia papéis antigos, cópias, fotos, envelopes amarelados, recibos, tudo misturado com o tipo de cuidado desesperado de quem guarda prova porque a memória sozinha já não convence ninguém.

Ela colocou a pasta sobre o capô do carro de Daniel.

As mãos tremiam.

— Eu nunca mostrei isso para ninguém — disse ela. — Porque eu tinha medo de parecer que estava falando mal da minha própria filha.

Daniel abriu a pasta.

Havia uma certidão de nascimento.

Renata Almeida Costa.

Havia fotos dela criança, adolescente, adulta.

Havia mensagens impressas, algumas com data, outras com horário.

Uma delas era de três anos antes, às 22h38.

“Não me procurem. Eu preciso de uma vida sem vocês.”

Outra, de meses depois, às 07h11.

“Se aparecerem onde eu estiver, eu acabo com vocês.”

Daniel sentiu o peito apertar.

Não queria transformar Renata em vilã rápido demais.

Uma vida nunca cabe inteira numa pasta.

Mas aquela pasta tinha peso.

Tinha datas.

Tinha nomes.

Tinha a textura que a história dela nunca teve.

No fundo, havia uma folha mais nova.

Papel de uma agência de eventos.

Sem assinatura formal.

Apenas um orçamento impresso, com anotações feitas à mão.

“Casal 55/60 anos.”

“Roupa social discreta.”

“História familiar alinhada.”

“Domingo, apresentação aos sogros.”

E no canto, em letra apressada:

“Pais contratados — confirmar pagamento.”

Daniel olhou para aquilo por tanto tempo que as palavras começaram a perder forma.

Marta chorava sem som.

Paulo parecia menor do que quando Daniel chegou.

A rua continuava igual.

Um cachorro latiu ao longe.

Alguém fechou uma janela.

O mundo tinha a crueldade de seguir funcionando mesmo quando uma vida acabava de rachar.

— Amanhã ela ia levar duas pessoas à casa dos meus pais — Daniel disse.

Ninguém respondeu.

Não precisava.

Naquela noite, Daniel voltou para São Paulo com cópias dos documentos, fotos da pasta e uma dor que não sabia onde colocar.

Renata estava no apartamento quando ele chegou.

Usava roupa confortável, cabelo preso, uma taça de vinho na mão.

— Você demorou — disse ela.

Daniel deixou a chave sobre a bancada.

— O galpão ficava longe.

Ela sorriu.

— Resolveu?

— Amanhã a gente resolve tudo.

O olhar dela parou nele por um segundo a mais.

Daniel viu ali uma pergunta, mas não uma culpa.

Ainda não.

Na manhã seguinte, a família Oliveira se reuniu de novo.

Dona Teresa arrumou a sala com cuidado excessivo.

Seu Ernesto não comentou nada, mas observava o filho como se já tivesse entendido que havia uma tempestade chegando.

Tio Marcelo chegou cedo.

— Hoje eu vou ficar quieto — prometeu.

Ninguém acreditou.

Renata apareceu às 11h05.

Estava impecável.

Vestido claro, cabelo escovado, maquiagem discreta.

Ao lado dela, um casal elegante entrou sorrindo.

O homem usava camisa social e relógio vistoso.

A mulher carregava uma bolsa estruturada e olhava ao redor com curiosidade treinada.

— Daniel — disse Renata, segurando o braço dele. — Esses são meus pais.

Dona Teresa levou a mão ao peito.

Seu Ernesto não se levantou.

Tio Marcelo esqueceu a promessa imediatamente.

— Ué — disse ele. — Pensei que eles não vinham.

Renata riu de leve.

— Muita coisa muda quando existe amor envolvido.

Foi uma frase bonita.

Bonita demais.

Daniel olhou para o casal.

O homem apertou sua mão com firmeza exagerada.

— Prazer, meu filho.

Meu filho.

A expressão fez Daniel sentir náusea.

A mulher abraçou Dona Teresa com uma intimidade que não tinha direito de usar.

Renata conduziu todos para a sala como se estivesse apresentando uma peça de teatro.

E talvez estivesse.

Daniel esperou.

Serviram café.

Serviram pão, bolo, suco.

A conversa começou artificial.

O falso pai contou uma infância de Renata que parecia montada com frases genéricas.

Disse que ela sempre foi independente.

Disse que eles tinham se afastado por orgulho dos dois lados.

Disse que agora queriam recomeçar.

Renata assentia no momento certo.

A falsa mãe completava com lágrimas calculadas.

Dona Teresa chorou também.

E foi isso que quase fez Daniel perder o controle.

A mãe dele estava sendo tocada por uma mentira no lugar mais sensível: a esperança de uma família se juntar antes do casamento.

Seu Ernesto percebeu.

Olhou para Daniel.

Não disse nada.

Mas o silêncio entre pai e filho falou com clareza.

Agora.

Daniel colocou a xícara na mesa.

— Que bom que vocês vieram — disse ele. — Eu também convidei mais duas pessoas.

Renata virou o rosto devagar.

A falsa mãe parou com a xícara no ar.

O falso pai manteve o sorriso por meio segundo.

A campainha tocou.

Na sala, tudo congelou.

O ventilador girava.

O café esfriava.

Um guardanapo escorregou do colo de Dona Teresa e caiu no chão.

Tio Marcelo, que sempre tinha resposta para tudo, ficou mudo.

Daniel foi até a porta.

Quando abriu, Paulo e Marta estavam do outro lado.

Marta segurava a mesma pasta transparente.

Paulo tinha os olhos vermelhos, mas estava firme.

Renata se levantou tão rápido que a cadeira arrastou no piso.

— O que eles estão fazendo aqui?

A frase saiu antes que ela conseguisse fingir surpresa.

E esse foi o primeiro erro.

O falso casal olhou para Renata.

Dona Teresa olhou para Daniel.

Seu Ernesto baixou a cabeça, como quem confirma uma tristeza que já esperava.

Paulo entrou um passo.

— Nós viemos ver nossa filha casar — disse ele.

Marta não conseguiu falar.

A pasta tremia contra o peito dela.

Renata riu.

Foi uma risada curta, sem alegria.

— Daniel, você não sabe o que está fazendo.

— Sei — respondeu ele. — Pela primeira vez desde que começamos a planejar esse casamento, acho que sei.

O falso pai tentou se levantar.

— Talvez seja melhor a gente ir.

— Senta — disse seu Ernesto.

Não gritou.

Não precisou.

Havia pessoas que mandavam pelo volume.

Seu Ernesto mandava pelo peso.

O homem sentou.

Daniel pegou o celular e colocou sobre a mesa.

Abriu a foto do orçamento.

Depois abriu a conversa recebida do número desconhecido.

A mensagem estava lá.

“Seu papel é simples: diga que é o pai dela e não mencione…”

A continuação tinha chegado minutos depois.

“…o registro antigo, a denúncia arquivada, nem o endereço do interior. Ela disse que isso destruiria o casamento.”

A falsa mãe levou a mão à boca.

O falso pai fechou os olhos.

Renata não chorou.

Isso foi o que mais assustou Daniel.

Ela apenas ficou olhando para a tela, calculando qual versão ainda poderia salvar.

— Eu ia contar depois — disse ela.

Marta deu um passo para frente.

— Depois do casamento?

Renata virou para a mãe como se a palavra “mãe” fosse uma ofensa.

— Você não tem direito de falar comigo assim.

Paulo tremeu.

Daniel pensou que ele fosse gritar.

Mas o homem apenas tirou uma foto antiga da pasta.

Renata criança, com uniforme de escola, segurando um desenho.

Atrás, Paulo e Marta sorriam cansados.

— Nós erramos em muita coisa — disse Paulo. — Talvez tenhamos sido duros. Talvez não tenhamos entendido você. Mas nunca deixamos de ser seus pais.

Renata olhou para a foto.

Por um segundo, a máscara falhou.

Não foi arrependimento.

Foi pânico.

Ela entendeu que documentos podiam ser explicados, mensagens podiam ser distorcidas, mas uma foto antiga numa sala cheia tinha uma força difícil de controlar.

Dona Teresa começou a chorar.

— Renata… por quê?

A pergunta da mãe de Daniel atravessou a sala inteira.

Renata olhou para ela.

Depois para Daniel.

— Porque vocês nunca iam entender.

— Entender o quê? — perguntou Daniel.

Ela respirou fundo.

— Que eu não queria entrar nessa família como uma coitada do interior que os pais abandonaram. Eu queria entrar inteira. Nova. Sem passado.

Marta cambaleou como se tivesse levado um empurrão.

Paulo segurou o braço dela.

O falso pai sussurrou:

— Ela disse que era só uma encenação para evitar constrangimento.

A falsa mãe começou a chorar de verdade.

— Disse que os pais eram abusivos, que não podiam aparecer, que ela só precisava de alguém para encerrar a história.

Daniel sentiu algo dentro dele se partir num lugar silencioso.

Ele não estava apenas ouvindo uma mentira.

Estava entendendo que tinha sido escolhido como palco.

O casamento, os convites, o sobrenome, a versão da infância, tudo tinha sido montado como cenário.

Ele perguntou:

— Você ia deixá-los sentados na primeira fila?

Renata não respondeu.

Esse silêncio respondeu.

Tio Marcelo passou as duas mãos pelo rosto.

— Meu Deus do céu.

Seu Ernesto se levantou.

— O casamento está suspenso.

Renata virou para ele com os olhos acesos.

— O senhor não decide isso.

— Não — disse Daniel. — Eu decido.

Ela o encarou.

Pela primeira vez, parecia não reconhecê-lo.

Talvez porque Daniel finalmente estivesse fazendo algo que não cabia no roteiro dela.

— Você vai acabar com tudo por causa deles? — perguntou Renata.

Daniel olhou para Paulo e Marta.

Depois para os pais.

Depois para a aliança na própria mão.

Aquele aro pequeno pesava como uma sentença.

— Não — respondeu. — Eu vou acabar com tudo por causa do que você fez com todos nós.

Renata respirou pela boca.

O falso casal se levantou, sem saber se pedia desculpas ou fugia.

Marta abriu a pasta e colocou sobre a mesa a certidão, as mensagens, a foto e o orçamento.

Não fez discurso.

Às vezes, a verdade não precisa levantar a voz.

Só precisa estar presente.

Daniel tirou a aliança devagar.

O som do metal tocando a mesa foi pequeno.

Mesmo assim, pareceu atravessar a sala inteira.

Renata olhou para o anel.

Só então seus olhos encheram de lágrimas.

Daniel não soube se eram lágrimas por ele, pelos pais ou pelo plano perdido.

Talvez nunca soubesse.

— Daniel — ela disse. — Por favor.

Ele esperou.

Aquela era a parte em que ela poderia dizer a verdade sem se defender.

Poderia pedir perdão a Paulo.

Poderia olhar para Marta.

Poderia admitir que tinha transformado a própria família em peça descartável para parecer alguém que não era.

Mas Renata olhou apenas para ele.

— Você prometeu que ficaria do meu lado.

Daniel sentiu a frase bater fundo.

Sim, ele tinha prometido.

Mas ficar ao lado de alguém não significa ajoelhar diante de toda mentira que essa pessoa constrói.

— Eu prometi casar com a mulher que achei que conhecia — disse ele. — Não com uma história fabricada.

Marta chorou de novo.

Paulo olhou para a filha com uma tristeza tão antiga que nem parecia surpresa.

Dona Teresa se levantou e foi até Marta.

Não disse nada.

Apenas segurou a mão dela.

A mesa que antes tinha ensinado todo mundo a desviar os olhos agora obrigava cada pessoa a enxergar.

Era a mesma sala.

O mesmo café.

O mesmo ventilador.

Mas nada ali continuava igual.

Dias depois, Daniel cancelou o salão, avisou os convidados e devolveu presentes.

Alguns fizeram perguntas.

Outros inventaram respostas.

Ele não contou a história inteira para todos.

Nem precisava.

Certas humilhações não devem virar entretenimento para quem só quer fofoca.

Paulo e Marta voltaram para casa naquela tarde sem reconquistar a filha.

Mas voltaram sabendo que, pelo menos uma vez, alguém tinha visto a versão deles antes que ela fosse enterrada por outra mentira.

Renata mandou mensagens por semanas.

Umas frias.

Umas chorosas.

Umas acusatórias.

Daniel respondeu apenas uma.

“Eu espero que um dia você conte a verdade. Não para mim. Para você.”

Depois bloqueou.

Meses mais tarde, ele encontrou a caixinha da aliança no fundo de uma gaveta.

Abriu.

O anel ainda brilhava, indiferente ao que tinha significado.

Daniel pensou naquele primeiro almoço, no silêncio caindo sobre a mesa como tampa de panela quente, no arroz esfriando, no ventilador girando, em todo mundo desviando o olhar.

Pensou também no portão baixo, na mangueira caída, na água escorrendo pela calçada e no pai de Renata chorando antes mesmo de saber se podia confiar nele.

Foi ali que Daniel entendeu o que mais doía.

Ele não tinha perdido apenas uma noiva.

Tinha perdido a versão da vida em que amor bastava para explicar todas as sombras.

Mas também tinha ganhado uma verdade dura.

Quando alguém exige que você nunca procure o passado dela, talvez não esteja protegendo uma ferida.

Talvez esteja protegendo uma mentira.

E a verdade, quando finalmente bate à porta, não pede licença para entrar.

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