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O Pai Dele Atravessou O Salão Inteiro Para Falar Comigo-silas

Nico Rossi deixou a taça sobre uma mesa lateral e começou a avançar pelo salão sem desviar o caminho, enquanto os convidados que tentavam falar com ele percebiam, um a um, que seu destino era justamente eu.

Do outro lado do salão, Liam também percebeu.

Vi quando ele endireitou as costas na cadeira e acompanhou o pai com os olhos, primeiro confuso, depois desconfortável.

Image

Amber continuava agarrada ao braço dele, mas seu sorriso já não parecia tão seguro quanto quando eu a encontrara usando meu roupão na noite anterior.

Eu tinha imaginado aquela cena durante todo o caminho até o evento.

Na minha cabeça, eu me aproximaria de Nico Rossi, faria algum comentário inteligente, conseguiria convencê-lo a conversar comigo por alguns minutos e, se tivesse muita sorte, Liam notaria.

Mas Nico estava fazendo exatamente o contrário.

Era ele quem vinha até mim.

E quanto mais perto chegava, mais pessoas acompanhavam seu movimento com curiosidade.

Maya, ao meu lado, apertou meu braço.

— Você não me disse que ele conhecia você desse jeito.

— Ele não conhece.

— Então por que parece que atravessaria uma parede para chegar aqui?

— Maya.

— Estou só perguntando.

Eu mal consegui responder antes que Nico parasse diante de nós.

Ele estava impecável, mas não havia nada de exagerado em sua presença.

Era o tipo de homem que não precisava falar alto para ser notado.

Seis meses antes, no jantar em que eu o conhecera, tínhamos conversado por poucos minutos enquanto Liam atendia uma ligação e Valentina discutia com alguém sobre a disposição da mesa.

Eu me lembrava de Nico porque ele fora uma das únicas pessoas daquela família que me fizera uma pergunta e realmente esperara pela resposta.

Naquela época, aquilo parecera apenas educação.

Agora, eu não tinha tanta certeza.

— Luna — disse ele.

Meu plano inteiro quase desapareceu quando ouvi meu nome na voz dele.

— Senhor Rossi.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Nico, por favor. Já tivemos essa conversa.

Maya virou o rosto para esconder um sorriso.

— Claro. Nico.

Ele olhou para mim por mais um instante, como se tentasse decidir se devia fazer a pergunta que estava pensando.

Então perguntou:

— Você está bem?

Não era o que eu esperava.

Eu esperava um elogio ao vestido.

Uma conversa educada.

Talvez alguma oportunidade de conduzir a situação na direção que eu havia planejado.

Mas ele tinha olhado diretamente para o meu rosto e perguntado se eu estava bem.

E aquilo me atingiu com uma força ridícula depois de uma noite inteira em que duas pessoas que diziam me amar tinham transformado minha dor em motivo de diversão.

— Estou ótima — respondi rápido demais.

Nico não pareceu convencido.

— Entendi.

Maya estendeu a mão.

— Maya. Melhor amiga e, aparentemente, acompanhante responsável por impedir decisões questionáveis.

— Péssimo trabalho — murmurei.

Nico apertou a mão dela e sorriu de leve.

— Prazer.

Antes que Maya pudesse responder, ouvi a voz que eu vinha tentando ignorar desde que entrara.

— Pai?

Liam estava atrás de Nico.

Amber vinha com ele.

Valentina permaneceu alguns passos mais distante, observando tudo com uma atenção desconfortavelmente precisa.

Liam olhou primeiro para mim, depois para o pai.

— O que está acontecendo?

Nico virou apenas o suficiente para encará-lo.

— Estou conversando com Luna.

— Eu consigo ver isso.

— Então sua pergunta parece desnecessária.

Maya abaixou os olhos para a própria taça.

Eu conhecia aquele movimento.

Era o que ela fazia quando estava a dois segundos de rir numa situação em que não devia.

Liam ignorou a resposta do pai e voltou-se para mim.

— Você pode falar comigo um minuto?

— Não.

A palavra saiu antes que eu pudesse pensar.

Curta.

Limpa.

Amber soltou uma risadinha.

— Nossa, Luna. Não precisa fazer uma cena.

Virei para ela.

O vestido elegante, o cabelo perfeitamente arrumado e a postura confiante não conseguiam apagar a imagem dela dentro do meu quarto usando meu roupão.

— Eu não estou fazendo cena nenhuma.

Amber abriu a boca, mas Liam interrompeu.

— Isso é entre mim e a Luna.

— Era — respondi.

Ele cerrou o maxilar.

— Você não pode simplesmente aparecer aqui depois de me expulsar e agir como se nada tivesse acontecido.

Por alguns segundos, fiquei realmente sem resposta.

Não porque ele tivesse razão.

Porque eu não conseguia acreditar na facilidade com que Liam acabara de reorganizar a história até parecer a pessoa prejudicada.

Maya não teve a mesma dificuldade.

— Ela encontrou você na cama dela com a irmã dela.

Liam olhou ao redor imediatamente.

Algumas pessoas próximas fingiram interesse nas próprias conversas.

Foi tarde demais.

Amber ficou tensa.

— Maya.

— O quê? A parte constrangedora foi vocês fazerem isso. Eu só descrevi.

Nico não falou nada.

Mas quando olhei para ele, toda a leveza havia desaparecido de seu rosto.

Liam percebeu também.

— Pai, não é o que parece.

Nico virou-se completamente para o filho.

— Qual parte?

Liam hesitou.

— É complicado.

— Você estava na cama de Luna com a irmã dela?

Amber cruzou os braços.

Liam passou a mão pelo cabelo.

— Sim, mas…

— Então essa parte parece bastante simples.

Eu deveria ter me sentido vitoriosa.

Era exatamente para isso que eu havia ido ao baile.

Eu queria que Liam fosse confrontado.

Queria que Amber perdesse aquele sorriso.

Queria que alguém da família Rossi percebesse que eu não era a mulher sem graça e previsível que eles podiam descartar sem consequência.

Mas ouvindo Liam tentar se explicar diante do próprio pai, percebi algo que não tinha previsto.

Eu não queria passar a noite falando sobre ele.

Eu estava cansada de permitir que Liam ocupasse cada pensamento meu.

Nico olhou para mim.

— Você quer ficar aqui?

A pergunta me surpreendeu outra vez.

Não era “quer que eu resolva?”.

Não era “quer que eu fale com ele?”.

Era sobre o que eu queria fazer.

Olhei para Liam.

Depois para Amber.

Então para o salão.

Eu tinha comprado aquele ingresso semanas antes porque o evento apoiava uma causa que eu conhecia havia muito mais tempo do que conhecia Liam.

Ele não tinha o direito de transformar mais uma coisa em território dele.

— Quero.

Nico assentiu.

— Então fique.

Liam soltou uma risada curta e incrédula.

— Pai, sério?

— Muito.

— Você nem sabe o que aconteceu.

— Acabei de perguntar.

— Você está acreditando nela sem me ouvir.

Nico o encarou.

— Você acabou de confirmar a parte essencial.

Amber deu um passo à frente.

— Com todo respeito, senhor Rossi, Luna está tentando transformar isso numa vingança porque o relacionamento acabou.

Foi minha vez de rir.

— Amber, eu encontrei você na minha cama ontem à noite.

Ela sustentou meu olhar.

— E mesmo assim você veio até aqui vestida desse jeito e foi direto atrás do pai dele. Isso não é coincidência.

Aquilo acertou exatamente onde deveria.

Porque ela tinha razão sobre uma coisa.

Eu tinha ido ali com uma intenção.

Meu vestido, minha entrada e até minha disposição de falar com Nico tinham começado como uma tentativa de ferir Liam de volta.

Nico percebeu meu silêncio.

— Ela está certa?

Eu poderia mentir.

Maya me olhou sem interferir.

Liam parecia quase satisfeito, como se finalmente tivesse encontrado a maneira de recuperar algum controle.

Então eu respirei fundo.

— Em parte.

Amber sorriu.

— Eu sabia.

Ignorei-a.

— Eu vim pensando que seria engraçado aparecer ao lado de alguém que deixasse Liam inseguro.

Nico inclinou levemente a cabeça.

— E escolheu o pai dele.

— Quando você diz assim, parece pior.

Maya murmurou:

— Não existe uma forma de dizer isso que pareça normal.

Apesar de tudo, Nico soltou uma risada.

Até eu ri.

Por dois segundos, a pressão no meu peito diminuiu.

Liam não achou graça.

— Isso é ridículo.

— Era ridículo — respondi. — Eu estava furiosa. Ainda estou. Mas eu não preciso mais fazer isso.

Olhei para Nico.

— Desculpe por ter pensado em usar você para provocar seu filho.

Ele ficou me observando.

— Pelo menos você admitiu antes de tentar.

— É uma barra muito baixa.

— Meu dia tem apresentado padrões preocupantes.

Maya tossiu para esconder outra risada.

Liam avançou meio passo.

— Você está flertando com ela?

Nico virou o rosto lentamente.

— Você realmente quer discutir comportamento romântico inadequado comigo hoje?

Dessa vez Maya não conseguiu se controlar.

Amber fechou a expressão.

Liam ficou vermelho.

E eu percebi que aquela era a primeira vez, desde o quarto, em que estava respirando sem sentir um peso esmagando meu peito.

Nico fez um gesto discreto em direção ao outro lado do salão.

— Estão começando o jantar. Se você quiser, há lugares vazios na minha mesa.

Meu olhar encontrou o de Liam.

Ele pareceu entender a dimensão daquilo antes mesmo que eu respondesse.

Não se tratava de romance.

Não ainda.

Talvez nunca.

Era algo muito mais simples e, por isso, muito mais difícil para ele aceitar.

Nico não estava me tratando como uma extensão do filho.

Estava me tratando como uma pessoa que podia escolher onde sentar.

— Eu gostaria — respondi.

E caminhei ao lado dele.

Maya veio comigo.

Atrás de nós, ouvi Amber dizer alguma coisa para Liam, mas não consegui distinguir as palavras.

Não virei.

Durante o jantar, Nico não fez perguntas invasivas.

Falamos sobre trabalho, sobre o evento e sobre coisas suficientemente comuns para que meu corpo parasse de esperar o próximo ataque.

Maya participou da conversa e, depois de alguns minutos, parou de me lançar aqueles olhares de alerta que diziam que ela ainda estava pronta para me arrastar para fora dali se necessário.

Valentina se juntou à mesa pouco depois.

Ela me cumprimentou com educação, mas estudou o filho do outro lado do salão por vários segundos antes de se sentar.

Liam e Amber tinham escolhido outra mesa.

Isso não os impediu de olhar na nossa direção repetidamente.

Em determinado momento, Valentina pousou os talheres.

— Luna, sinto muito pelo que aconteceu.

A simplicidade da frase me pegou desprevenida.

— Obrigada.

— Não vou pedir que você me conte detalhes. Mas Liam é meu filho e continua responsável pelas próprias escolhas.

Nico não disse nada.

Nem precisava.

Liam, a alguns metros dali, parecia cada vez mais agitado.

Quando a música começou depois do jantar e os convidados voltaram a circular, eu me levantei para buscar água.

Ele me alcançou antes da mesa de bebidas.

— Está satisfeita agora?

Parei.

— Com o quê?

— Com isso tudo.

— Liam, eu praticamente não fiz nada.

— Você colocou minha família contra mim.

— Eu não contei nada até você vir atrás de mim.

— Maya contou.

— Porque você tentou agir como se eu fosse a culpada.

Ele passou a mão no rosto.

— Eu cometi um erro.

Olhei para ele.

— Um erro?

— Você sabe o que quero dizer.

— Não, eu não sei. Você tropeçou e caiu na minha cama com a Amber?

Ele fechou os olhos por um instante.

— Nós já estávamos mal fazia meses.

— Então você terminava comigo.

— Eu tentei conversar.

— Não. Você reclamou que eu trabalhava demais, que gostava de planejar as coisas, que não queria sair numa quarta-feira até três da manhã. Isso não é terminar um relacionamento.

Liam abaixou a voz.

— Você ficou diferente.

E ali estava.

A justificativa que eu sabia que viria.

A tentativa de transformar sua escolha em consequência de alguma falha minha.

Eu pensei na frase de Amber.

Previsível.

Segura.

Ela dizia aquilo como insulto.

Talvez eu tivesse passado tempo demais aceitando a definição dos outros para essas palavras.

— Você tem razão — respondi.

Liam pareceu surpresendido.

— Tenho?

— Eu fiquei diferente. Eu parei de organizar minha vida inteira em torno do que você queria. E aparentemente foi quando você decidiu procurar minha irmã.

— Não foi assim.

— Não importa mais como você quer chamar.

Ele olhou por cima do meu ombro.

Nico estava a certa distância conversando com dois convidados.

— Você acha que ele realmente está interessado em você?

Finalmente entendi.

Era aquilo que estava corroendo Liam.

Não o fato de ter me machucado.

Nem a possibilidade de me perder.

Era imaginar que alguém que ele respeitava pudesse me enxergar de maneira que ele havia parado de enxergar.

— Eu não sei — respondi. — E, pela primeira vez, não preciso saber hoje.

Tentei passar por ele.

Liam segurou meu braço por reflexo.

Soltou imediatamente quando percebeu o que havia feito.

— Luna, espera.

Nico já estava olhando na nossa direção.

Não veio correndo.

Não precisava.

Meu próprio olhar foi suficiente para Liam recuar.

— Não toque em mim novamente — falei.

— Eu só queria conversar.

— Nós conversamos.

Dessa vez, fui embora.

Quando voltei para a mesa, Nico não perguntou o que Liam tinha dito.

Apenas colocou um copo de água diante de mim.

— Obrigada.

— De nada.

Fiquei observando o copo por alguns segundos.

— Você sempre sabe quando não perguntar alguma coisa?

— Não. Aprendi errando.

— Liam puxou isso de você?

Nico soltou o ar pelo nariz, quase rindo.

— Espero que não.

Foi a primeira conversa realmente sincera que tivemos naquela noite.

Nico contou apenas o suficiente para eu entender que ele e Liam tinham uma relação complicada havia anos, marcada por expectativas que nenhum dos dois sabia expressar sem transformar tudo numa disputa.

Mas ele não tentou me recrutar para o lado dele.

Isso importou.

Eu também não contei detalhes desnecessários sobre meu relacionamento.

Eu não queria construir qualquer conexão com Nico a partir do fracasso de Liam.

Se existisse alguma coisa entre nós, mesmo que fosse apenas uma amizade improvável, eu queria que tivesse outro começo.

Mais tarde, quando uma música mais lenta começou, Nico estendeu a mão.

— Quer dançar?

Olhei para a mão dele.

Depois para seu rosto.

— Isso vai causar um problema.

— Provavelmente.

— Você sabe que foi exatamente por isso que eu pensei em vir aqui.

— Eu sei.

— E mesmo assim está perguntando?

— Estou perguntando porque quero dançar com você. O motivo pelo qual você aceita é problema seu.

Aquilo me fez sorrir.

Eu coloquei minha mão na dele.

— Então sim.

Não precisei olhar para Liam para saber que ele estava vendo.

Eu também não precisei olhar para Amber.

Pela primeira vez naquela noite, a reação deles deixou de ser o centro da cena para mim.

Nico e eu dançamos sem espetáculo.

Conversamos.

Rimos duas vezes.

Em algum momento, percebi Maya observando da mesa com uma expressão satisfeita demais.

Quando a música terminou, Nico soltou minha mão sem prolongar o momento para exibir qualquer coisa a quem estivesse olhando.

Esse detalhe foi o que mais me marcou.

Liam teria transformado aquilo numa performance.

Nico simplesmente perguntou se eu queria voltar para a mesa.

— Quero pegar um pouco de ar primeiro.

— Posso acompanhar?

Pensei por um segundo.

— Pode.

Fomos até uma área mais tranquila do hotel, longe do salão principal, onde finalmente consegui ouvir minha própria respiração sem música, talheres ou conversas em volta.

— Posso perguntar uma coisa? — disse Nico.

— Depende.

— Por que meu filho?

Eu ri, surpresa.

— Essa pergunta veio três anos atrasada.

— Ainda assim.

Pensei antes de responder.

— No começo, Liam era espontâneo de um jeito que eu não era. Ele me fazia sair da rotina. Eu achava que nós nos equilibrávamos.

— E depois?

— Depois ele começou a tratar tudo que era diferente nele como liberdade e tudo que era diferente em mim como defeito.

Nico abaixou os olhos por um instante.

— Entendo.

— Agora é minha vez. Por que atravessou o salão quando me viu?

Ele demorou um pouco mais para responder.

— Porque no jantar em que nos conhecemos, você passou quase vinte minutos conversando com minha mãe quando percebeu que ela estava desconfortável, enquanto todo mundo continuava ocupado tentando impressionar as pessoas certas.

Eu franzi a testa.

— Sua mãe?

— Minha mãe. Avó do Liam. Você provavelmente nem lembra.

Eu lembrava vagamente de uma senhora que ficara sozinha enquanto os demais circulavam.

— Eu só conversei com ela.

— Exatamente.

Nico deu um pequeno sorriso.

— E hoje, quando vi você entrando sozinha e depois vi a cara do Liam, imaginei que alguma coisa tivesse acontecido.

Eu balancei a cabeça.

— Você atravessou um salão lotado por causa de uma conversa de vinte minutos seis meses atrás?

— Eu tenho boa memória.

— Isso é perigosamente charmoso.

— Vou considerar um elogio.

Foi aí que percebi que o plano idiota que eu tinha criado naquela manhã já não existia.

Eu não estava fingindo interesse em Nico para provocar Liam.

Eu estava genuinamente interessada em descobrir quem era aquele homem quando não estava sendo definido apenas como pai do meu ex-namorado.

E isso era muito mais assustador.

Voltamos ao salão pouco depois.

Amber estava perto da saída, sozinha.

Quando passei por ela, chamou meu nome.

Parei.

Nico continuou alguns passos e esperou à distância, deixando a decisão comigo.

Amber cruzou os braços.

— Você acha que ganhou alguma coisa hoje?

Eu quase respondi da maneira que ela esperava.

Quase disse que sim.

Que tinha conseguido humilhar Liam.

Que agora era ela quem precisava suportar os olhares.

Mas aquilo teria significado continuar participando da mesma competição que nos trouxera até ali.

— Não — respondi. — Eu perdi um namorado e descobri quem minha irmã escolheu ser comigo. Isso não parece vitória.

Ela ficou em silêncio.

— Mas eu também parei de tentar convencer vocês dois de que eu merecia respeito. Então talvez essa parte tenha sido boa.

Amber desviou os olhos.

Por um momento, a arrogância desapareceu e eu vi algo mais difícil de interpretar.

Culpa, talvez.

Ou apenas desconforto.

Eu não precisava descobrir naquela noite.

— Luna…

— Não agora.

Ela assentiu.

Foi pouco.

Mas foi a primeira vez desde que eu a encontrara no meu quarto que Amber aceitou um limite sem transformá-lo numa provocação.

Eu continuei andando.

Nico esperava perto da porta.

— Tudo bem?

— Vai ficar.

Quando o evento terminou, Maya já estava pedindo um carro no celular.

Nico se ofereceu para garantir que chegássemos bem, mas eu recusei a carona.

Eu precisava terminar aquela noite sem depender de ninguém para completar a cena.

Antes de irmos embora, ele pediu meu número.

Dessa vez, não havia Liam por perto.

Não havia Amber.

Não havia plateia.

— Você tem certeza? — perguntei.

— Não costumo pedir números por acidente.

Sorri e entreguei meu celular para que ele digitasse o contato.

Quando me devolveu o aparelho, seu nome estava ali.

Nico.

Nada de “pai do Liam”.

Nada de sobrenome carregado de significado.

Apenas Nico.

Na calçada, Maya ficou em silêncio por quase sete segundos.

Foi um recorde.

— Pode falar — eu disse.

— Eu só quero registrar que, nesta manhã, você disse que iria “pegar emprestado o pai do Liam”.

Cobri o rosto com as mãos.

— Nunca repita essa frase.

— E terminou a noite com o número dele.

— Maya.

— Estou apenas documentando os fatos.

Eu comecei a rir.

Não aquele riso desesperado da madrugada anterior.

Era um riso cansado, estranho e completamente meu.

Nas semanas seguintes, Liam tentou falar comigo algumas vezes.

Primeiro pediu desculpas.

Depois tentou explicar.

Depois ficou irritado quando percebeu que sua explicação não mudava minha decisão.

Eu devolvi as poucas coisas que ainda estavam comigo e pedi que Maya estivesse no apartamento quando ele buscasse o restante.

Não fiz discurso.

Não mostrei a fotografia que havia tirado naquela noite para ninguém além de Maya.

Eu não precisava distribuí-la para provar o que tinha acontecido.

Ela permanecia no meu celular como registro de um momento que eu não queria repetir, não como arma para prolongá-lo.

Amber mandou uma mensagem três semanas depois.

Não pediu perdão de forma perfeita.

Não tentou justificar tudo também.

Escreveu que sabia ter atravessado uma linha que talvez jamais pudesse desfazer e que entenderia se eu não quisesse contato.

Eu respondi apenas que precisava de distância.

E mantive essa distância.

Nico, por outro lado, começou com café.

Depois outro café.

Depois um jantar em que nenhum de nós mencionou Liam durante quase duas horas.

Foi nessa noite que percebi que havia algo real crescendo entre nós.

Não porque ele fosse mais velho.

Não porque fosse mais rico.

Não porque sua presença pudesse ferir o ego de alguém.

Mas porque ele ouvia.

Porque não ria das partes organizadas da minha personalidade.

Porque quando eu dizia que precisava ir embora cedo, ele não transformava isso numa acusação de falta de espontaneidade.

E porque eu comecei a descobrir que segurança e diversão nunca tinham sido opostos.

Meses depois, quando finalmente decidimos assumir que estávamos nos relacionando, Nico insistiu numa única condição.

— Não quero que isso seja usado contra Liam.

— Nem eu.

— E não quero que ele seja usado contra nós.

— Também não.

Não foi fácil.

Liam ficou furioso quando soube.

Valentina precisou de tempo para entender o que aquilo significaria para a família.

Amber não fazia mais parte da minha vida cotidiana.

Nada se resolveu num grande momento em que todo mundo reconheceu que eu estava certa.

A realidade foi menos elegante e mais lenta.

Algumas relações se ajustaram.

Outras permaneceram quebradas.

E algumas simplesmente ganharam limites que deveriam ter existido desde o começo.

Quase um ano depois daquela terça-feira às 23h23, acordei cedo num sábado e encontrei Nico na cozinha preparando café.

Meu celular estava sobre a bancada.

A fotografia daquela noite ainda existia, escondida numa pasta que eu não abria havia meses.

Peguei o aparelho.

Por um instante, pensei na mulher que tinha tirado aquela foto com as mãos tremendo porque acreditava precisar guardar uma prova de que sua vida acabara de desmoronar.

Então apaguei a imagem.

Não porque o que aconteceu tivesse deixado de importar.

Nem porque eu tivesse perdoado tudo.

Mas porque eu já não precisava carregar aquela cena para lembrar quem eu era.

Nico colocou uma caneca na minha frente.

— Açúcar?

— Você sabe que não.

— Só verificando se você mudou durante a noite.

Eu sorri.

A antiga Luna teria interpretado previsibilidade como uma acusação.

Naquele sábado, peguei a caneca exatamente como gostava, sem açúcar, sentei à mesa e percebi que algumas coisas continuarem iguais não significa estar presa.

Às vezes significa apenas que finalmente ninguém está tentando convencer você de que precisa ser outra pessoa para merecer amor.

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