Ergui o braço e mostrei a Arturo a direção em que a BMW branca tinha desaparecido, mas, antes que ele desse um passo em direção ao carro, segurei o pulso dele.
—Não vai atrás dela.
Arturo olhou primeiro para a avenida, depois para mim, como se estivesse tentando decidir qual impulso obedecer.

—Valeria, ela te derrubou e te bateu.
—Eu sei.
Minha bochecha ainda ardia, a alça da mochila estava torcida sobre meu ombro e havia poeira na parte de trás da minha roupa por causa da queda.
Eu não precisava que ninguém me explicasse o que tinha acontecido.
Precisava impedir que aquilo virasse outra coisa.
—Me leva para casa.
Ele respirou fundo.
—Só isso?
—Por enquanto.
Arturo entendeu que eu não estava defendendo Renata.
Eu estava escolhendo o que aconteceria a seguir.
Durante dezoito anos, praticamente todas as decisões difíceis da minha vida tinham sido cercadas por homens da família Herrera tentando resolvê-las antes que chegassem até mim.
Eu era a primeira menina depois de nove gerações inteiras de homens.
Meu avô, Seu Ernesto, passou anos pedindo aos meus pais que tentassem ter uma filha, mesmo depois de minha mãe já ter dado à luz oito meninos.
Quando ela disse que não conseguia mais, meu pai concordou imediatamente.
Meu avô pediu uma última vez.
—Se vier outro menino, eu nunca mais insisto.
Eu nasci dessa última tentativa.
Valeria Herrera.
Quando confirmaram que eu era menina, meu avô chorou no corredor da maternidade diante de uma família que parecia ter ocupado o lugar inteiro.
Mais de cem parentes apareceram, entre meus oito irmãos, mais de trinta primos, sete tios e gente que tinha viajado para estar ali.
Depois, Seu Ernesto anunciou que cada médico, enfermeiro e funcionário diretamente envolvido no parto receberia um bônus de um milhão de pesos.
Um milhão.
Na família Herrera, aquilo não foi tratado como extravagância.
Foi tratado como comemoração.
E aquela comemoração nunca terminou completamente.
Aos três anos, pedi um pônei.
Ganhei três.
Aos cinco, reclamei que o escorregador da escola era sem graça.
Pouco tempo depois, meus irmãos tinham montado no jardim uma estrutura tão grande, com torres e pontes, que eu parei de falar no escorregador da escola.
Quando cresci, eles criaram uma escala para me levar e buscar nas aulas.
Havia sempre um irmão, um primo ou alguém da família por perto.
Uma vez, um garoto colocou uma rã na minha mochila.
Um dos meus primos resolveu responder colocando um sapo enorme na mochila dele.
A história circulou rápido.
Depois disso, ninguém na escola precisava ser avisado duas vezes de que mexer comigo significava arrumar problema com gente demais.
Foi assim que cheguei aos dezoito anos acreditando em uma coisa que nunca tinha sido dita em voz alta: eu era intocável.
Não porque fosse mais forte.
Não porque soubesse me defender.
Porque sempre havia alguém entre mim e o perigo.
Até Renata Salazar.
Naquela noite, tudo tinha começado em uma mesa de jantar.
Santiago, meu irmão mais velho e diretor-geral do Grupo Herrera, levou Renata para jantar em casa pela primeira vez com boa parte da família reunida.
Havia mais de vinte pessoas à mesa.
Renata chegou impecável, educada e cuidadosa com cada palavra.
No começo.
Depois começou a falar sobre independência feminina.
Disse que admirava mulheres que construíam a própria carreira, compravam a própria casa e não precisavam do sobrenome da família para viver bem.
Nada daquilo teria me incomodado se ela não tivesse começado a olhar para mim depois de cada frase.
—Valeria, você está no último ano da escola, não está? Em qual universidade pretende entrar?
—Ainda não decidi.
Ela soltou uma risada leve.
—Morar longe da família faz bem para uma mulher. Obriga a amadurecer.
Eu já tinha percebido o rumo da conversa.
—Por que você está tentando me dar uma lição sem me conhecer?
Santiago tentou encerrar aquilo.
—Se Valeria não quiser se casar, ela não se casa. Se quiser ficar perto da família, fica. Podemos cuidar dela a vida inteira.
Aquilo deveria ter encerrado o assunto.
Renata insistiu.
—Eu só acho mais admirável uma mulher que constrói tudo sozinha do que certas princesinhas que passam a vida dependendo do sobrenome da família.
A palavra ficou ali.
Princesinhas.
Não era uma opinião genérica.
Era para mim.
Perguntei:
—Você é uma dessas mulheres independentes?
Renata não respondeu.
E eu me lembrei do que Diego, outro dos meus irmãos, tinha comentado dias antes.
A empresa da família Salazar estava passando por dificuldades e vinha tentando conseguir um projeto com o Grupo Herrera.
Então perguntei na frente de todos.
Diego confirmou.
Renata empalideceu.
—Isso não tem nada a ver com Santiago e comigo.
—Talvez não — respondi. — Mas você veio jantar na casa da família do seu namorado, insultou a irmã dele e, ao mesmo tempo, sua família está tentando fechar um contrato com a empresa dele.
Olhei para meu avô.
—Vô, eu não gosto dela. Acho que as intenções dela com Santiago não são limpas.
Andrés concordou comigo.
Diego também.
Depois outros irmãos falaram.
Minha mãe falou.
Meu avô colocou os talheres sobre a mesa e olhou para Santiago.
—Você tem três dias para resolver isso.
Santiago se levantou.
—Não preciso de três dias.
Ele encarou Renata.
—Vai embora. O projeto entre as empresas não será discutido. E, sobre nós, acabou.
Foi rápido.
Talvez rápido demais para Renata aceitar.
Santiago a acompanhou até a saída enquanto ela tentava explicar que todos tinham entendido errado, que estava apenas falando sobre independência e que jamais tivera intenção de me atacar.
Eu acreditei que terminaria ali.
Horas depois, descobri que não.
Na saída da escola, a BMW branca surgiu bruscamente diante de mim.
Renata desceu já gritando.
—Quem você pensa que é para acabar com a minha vida?
Eu tentei passar por ela.
Renata correu atrás de mim, agarrou a alça da minha mochila e puxou com tanta força que perdi o equilíbrio e caí.
Antes que eu me levantasse, ela arregaçou as mangas.
—Sua pirralha intrometida! Isso é para você aprender a fechar essa boca!
O tapa veio com tanta força que por alguns segundos ouvi apenas um zumbido.
Ela se inclinou sobre mim.
—Considere isso um aviso. Se voltar a se meter nos meus assuntos, da próxima vez vai ser pior.
Depois entrou no carro e foi embora.
Foi pior do que a dor.
Pela primeira vez, alguém tinha atravessado todas as camadas de proteção que minha família construiu ao meu redor e me mostrado que elas não eram uma parede de verdade.
E agora Arturo estava diante de mim, claramente disposto a transformar a avenida inteira em uma perseguição.
—Casa — repeti.
Ele abriu a porta do carro para mim.
No caminho, meu celular não parou de vibrar.
Santiago.
Diego.
Andrés.
Minha mãe.
Outros irmãos.
Primos.
Eu respondi apenas a uma mensagem no grupo da família.
Estou com Arturo. Estou indo para casa. Ninguém vai atrás dela.
A resposta veio quase imediatamente.
Santiago escreveu:
Precisamos conversar quando você chegar.
Eu queria dizer que não precisava conversar.
Eu queria dizer que queria ficar sozinha.
Eu queria dizer que tudo estava bem.
Nada disso era verdade.
Quando entramos em casa, percebi que meu pedido para ninguém perseguir Renata tinha sido obedecido, mas não tinha diminuído a tensão.
Minha mãe veio primeiro.
Ela tocou meu rosto com a ponta dos dedos e parou antes de encostar exatamente onde doía.
—Foi ela?
—Foi.
Meu pai estava logo atrás.
Seu Ernesto permaneceu alguns passos distante.
Eu conhecia meu avô o suficiente para saber que aquele afastamento era esforço, não frieza.
Santiago chegou poucos minutos depois.
Ele entrou, me viu e parou.
Santiago não perguntou quem tinha feito aquilo.
Santiago já sabia.
Santiago olhou para Arturo.
Santiago então olhou para mim.
—Eu trouxe essa mulher para dentro desta casa.
—Você não mandou ela me bater.
—Mas eu trouxe.
—E terminou com ela.
—Depois de ela atacar você no jantar.
—Com palavras.
Ele apontou para meu rosto sem tocar.
—E agora isso.
Eu conhecia aquela expressão.
Era culpa.
E culpa, naquela família, quase sempre virava ação antes de virar conversa.
—Santiago, olha para mim.
Ele olhou.
—Não transforma isso numa guerra entre famílias.
Diego, encostado perto da sala, soltou o ar devagar.
Arturo cruzou os braços.
Meu avô continuou calado.
—Ela te bateu — Santiago disse.
—Eu sei o que ela fez.
—E te ameaçou.
—Eu ouvi a ameaça melhor do que todo mundo.
Ele apertou a mandíbula.
—Então o que você quer que eu faça?
Essa pergunta mudou alguma coisa.
Não porque Santiago estivesse me dando permissão.
Porque, pela primeira vez desde que eu tinha chegado, alguém não estava anunciando o que faria por mim.
Estava perguntando o que eu queria.
—Quero que você mantenha a decisão que tomou antes disso.
—Sobre Renata?
—Sobre tudo.
—O relacionamento acabou.
—E o projeto?
—Não será discutido.
—Então não use o que ela fez comigo como desculpa para inventar outra punição.
Arturo virou o rosto para mim.
—Você está falando sério?
—Estou.
—Valeria…
—Não.
Ele parou.
—Eu não estou perdoando Renata. Estou dizendo que ninguém vai fazer uma loucura em meu nome.
Meu avô finalmente se aproximou.
—E se ela tentar chegar perto de você outra vez?
Olhei para ele.
—Aí vocês me ajudam.
A frase pareceu surpreendê-lo mais do que deveria.
Passei a vida inteira sendo protegida antes mesmo de pedir ajuda.
Naquele momento, eu estava estabelecendo uma diferença que nunca tinha precisado explicar: ajudar não era decidir por mim.
Meu celular vibrou outra vez.
Desta vez era Santiago quem estava olhando para a própria tela.
Ele me mostrou o nome antes de atender.
Renata.
O aparelho já tinha registrado várias chamadas dela desde o jantar.
Santiago perguntou:
—Quer que eu ignore?
Pensei alguns segundos.
—Atende.
—No viva-voz?
—Sim.
Ele colocou o celular sobre a mesa.
—Renata.
A voz dela veio rápida.
—Santiago, você precisa me ouvir antes que sua família transforme isso em uma coisa absurda.
Eu fiquei parada ao lado da mesa.
Ela não sabia que eu estava ali.
—Que coisa absurda? — ele perguntou.
—Sua irmã provocou tudo isso desde o jantar.
Arturo deu um passo à frente, mas eu levantei a mão.
Ele parou.
Renata continuou.
—Ela me humilhou na frente de todo mundo, acabou com o projeto da minha família e fez você terminar comigo como se eu fosse uma golpista.
Santiago respondeu sem elevar a voz.
—Valeria não terminou nosso relacionamento.
—Ela fez você terminar!
—Não. Eu fiz isso.
Houve uma pausa curta do outro lado.
Então Renata disse:
—Eu só fui falar com ela porque ela precisava entender que não pode destruir a vida dos outros e sair andando como se nada tivesse acontecido.
Minha mãe fechou os olhos por um instante.
Santiago olhou para mim.
Eu me aproximei do celular.
—Falar comigo?
Renata ficou muda.
—Sou eu — disse.
A resposta veio mais baixa.
—Valeria.
—Você puxou minha mochila, me derrubou, me deu um tapa e disse que da próxima vez seria pior.
—Você está exagerando.
—Qual parte?
Ela não respondeu.
—A parte em que você foi até minha escola? A parte em que me puxou? A parte em que me bateu? Ou a ameaça?
—Eu estava nervosa.
—Isso não responde.
Renata mudou de estratégia.
—Você não sabe o que sua família fez comigo hoje.
—Santiago terminou com você porque quis.
—Porque você envenenou todo mundo contra mim.
—Você me chamou de princesinha na frente deles enquanto sua empresa tentava conseguir um projeto com a empresa dele.
—Eu não fui jantar por causa de contrato nenhum.
—Então o contrato não deveria ser o motivo de você dizer que sua vida acabou.
Silêncio do outro lado.
Não precisei acrescentar nada.
A própria sequência dos acontecimentos tinha chegado onde qualquer discurso meu chegaria.
Renata tinha passado a noite insistindo que o contrato não tinha relação com Santiago.
Horas depois, estava me culpando por destruir a vida dela porque o projeto havia desaparecido junto com o relacionamento.
Santiago percebeu também.
—Renata, escuta com atenção — ele disse. — Meu relacionamento com você acabou na nossa casa, antes de qualquer coisa que aconteceu na escola. A decisão sobre o projeto também foi tomada ali. O que você fez depois não vai mudar nenhuma das duas.
—Santiago, eu estava desesperada.
—E foi atrás da minha irmã.
—Eu perdi a cabeça.
—E foi atrás da minha irmã.
—Eu só queria assustar ela.
Santiago não respondeu imediatamente.
Eu também não.
A frase bastava.
Renata percebeu tarde demais o que tinha acabado de admitir e começou a voltar atrás.
—Não desse jeito. Você está distorcendo o que eu quis dizer.
Eu me inclinei um pouco mais perto do celular.
—Renata, eu não vou discutir com você.
—Você arruinou tudo.
—Não. Eu fiz uma pergunta no jantar. O resto você escolheu.
Ela tentou falar por cima de mim.
—Você sempre teve tudo. Você não faz ideia do que significa ver sua família perdendo…
—Pode ser.
Ela parou.
—O quê?
—Pode ser que eu não saiba como é a sua vida. Mas isso não transforma meu rosto em lugar para você descontar o que está acontecendo nela.
Minha própria voz me surpreendeu.
Não saiu alta.
Saiu firme.
Santiago pegou o celular da mesa.
—Não ligue para Valeria. Não vá à escola dela. Não apareça nesta casa. Se houver qualquer assunto estritamente necessário sobre a empresa, não será tratado por mim através de você.
Renata tentou chamá-lo pelo nome.
Ele desligou.
Ninguém comemorou.
Ninguém bateu palma.
Arturo foi o primeiro a se mexer.
Ele puxou uma cadeira para mim.
—Senta pelo menos.
Eu sentei.
Minha mãe trouxe água.
Meu pai ficou ao meu lado.
Meu avô se acomodou na cadeira em frente e passou alguns segundos olhando para a alça torcida da minha mochila.
Foi ele quem falou:
—Passei a vida querendo ter uma neta para poder cuidar dela.
Eu sorri de leve.
—Eu sei, vô.
—Talvez a gente tenha exagerado.
Arturo soltou uma risada curta, sem humor.
—Talvez?
Seu Ernesto ignorou.
—Quando você nasceu, eu pensei que proteger significava garantir que nada ruim chegasse até você.
Ele apontou para minha mochila.
—Hoje chegou.
Aquela frase doeu de um jeito diferente.
Meu avô tinha passado dezoito anos acreditando que dinheiro, parentes, carros esperando na saída da escola e irmãos atentos poderiam impedir qualquer pessoa de me atingir.
Eu também tinha acreditado.
—Eu não quero que vocês parem de se importar comigo — falei.
—Nunca — minha mãe respondeu.
—Mas eu também não quero ser a princesinha que todo mundo carrega de um lado para o outro como se eu fosse quebrar.
Diego apoiou as mãos no encosto de uma cadeira.
—Foi exatamente essa palavra que ela usou.
—Eu sei.
Puxei a mochila do ombro e coloquei sobre a mesa.
A alça estava esticada onde Renata tinha agarrado.
—Talvez seja por isso que doeu tanto ouvir.
Santiago franziu a testa.
—Porque você acreditou nela?
—Não.
Passei os dedos pela costura da alça.
—Porque existe uma parte verdadeira no meio da crueldade dela. Eu fui criada sabendo que sempre teria alguém para resolver tudo. E eu gostei disso muitas vezes.
Meu pai abriu a boca, mas eu continuei.
—Isso não dá a ela o direito de me humilhar. Muito menos de me bater. Só significa que eu preciso decidir quem vou ser sem esperar que alguém decida por mim.
Santiago puxou a cadeira ao meu lado.
—Então começa agora.
Olhei para ele.
—Como?
—Você disse no jantar que ainda não escolheu universidade.
—Ainda não escolhi.
—Quando escolher, não vou escolher por você.
Diego levantou uma sobrancelha.
—Isso vale para todos nós?
—Vale — respondi.
Arturo apontou para si mesmo.
—Inclusive primos?
—Principalmente primos.
Dessa vez eu ri.
Foi pequeno, mas verdadeiro.
O resto da noite não virou reunião de vingança.
Santiago manteve o término.
A discussão sobre o projeto da família Salazar permaneceu encerrada, exatamente como ele havia decidido no jantar.
E ninguém saiu de casa atrás de Renata.
Para alguns dos meus irmãos, essa última parte foi provavelmente a mais difícil.
Nos dias seguintes, percebi que a mudança não seria grandiosa.
Seria incômoda.
Um dos meus irmãos me perguntou que horas precisava me buscar na escola.
Eu disse que avisaria se precisasse.
Ele fez uma expressão estranha.
—Então eu não vou?
—Hoje não.
—Tem certeza?
—Tenho.
Ele ficou alguns segundos parado.
—Tá bom.
Aquilo parecia ridículo para qualquer pessoa de fora.
Para nós, era quase revolucionário.
A escala que meus irmãos mantinham havia anos não desapareceu, mas deixou de ser uma ordem silenciosa em torno da minha vida.
Virou opção.
Ajuda quando eu pedisse.
Presença quando fosse necessária.
Não vigilância automática.
Santiago também mudou.
Durante alguns dias, ele tentou pedir desculpas toda vez que me encontrava.
Na terceira vez, eu cortei.
—Chega.
—Eu só…
—Você não é responsável pelo tapa.
—Eu deveria ter percebido quem ela era antes.
—Talvez.
Ele fez uma careta.
—Obrigado.
—Mas você percebeu no jantar e tomou sua decisão.
Santiago assentiu.
—E você?
—O que tem eu?
—Você percebeu antes de mim.
—Porque ela resolveu me provocar.
—Mesmo assim.
Eu dei de ombros.
—Então da próxima vez escuta sua irmã mais nova antes de levar alguém para jantar com vinte Herreras.
Ele riu.
—Combinado.
Renata não voltou à escola.
Não apareceu em casa.
Também não conseguiu transformar o telefonema daquela noite em uma reconciliação com Santiago.
Ele não voltou atrás.
E, para mim, essa foi a consequência que importou: ninguém precisou inventar um castigo espetacular para que as escolhas dela tivessem peso.
Ela tinha insultado a família que pretendia impressionar.
Tinha revelado que o projeto empresarial significava muito mais para ela do que admitira.
Tinha perdido o relacionamento quando Santiago decidiu que não confiava mais nela.
Depois, em vez de aceitar aquela consequência, tinha ido atrás de mim e transformado raiva em agressão.
Cada passo tinha sido escolha dela.
Eu parei de carregar a culpa por ter sido a pessoa que apontou a contradição no jantar.
Algumas semanas depois, encontrei a mochila daquele dia no canto do meu quarto.
Minha mãe tinha perguntado várias vezes se eu queria uma nova.
Santiago tinha oferecido comprar outra.
Diego disse que aquela alça nunca mais ficaria boa.
Naturalmente, três pessoas diferentes tinham soluções para um problema que era meu.
Dessa vez, levei a mochila para consertar.
Quando voltou, a costura nova ficou visível.
Não tentei esconder.
Na manhã seguinte, coloquei meus cadernos dentro dela e desci para tomar café.
Arturo estava na casa conversando com um dos meus irmãos e olhou para a mochila.
—Você ainda usa essa?
—Uso.
—Depois de tudo?
Ajustei a alça no ombro.
—Por causa de tudo.
Ele não discutiu.
Na saída, perguntou:
—Quer carona?
Antes, alguém já teria pegado a chave.
Antes, meu caminho teria sido decidido antes de eu responder.
Dessa vez, ele apenas esperou.
Olhei para o carro, depois para o portão.
—Hoje eu quero.
Arturo pegou a chave.
—Então vamos.
E foi assim que a palavra que Renata usou para me diminuir perdeu força.
Eu continuava sendo a única menina depois de nove gerações.
Continuava tendo oito irmãos, dezenas de primos e um avô capaz de transformar meu nascimento em uma celebração para mais de cem parentes.
Continuava amada de um jeito exagerado.
Mas já não precisava confundir amor com alguém decidir tudo por mim.
Quando entrei no carro com a mochila consertada no ombro, Arturo não abriu a porta por obrigação, não perguntou se eu tinha medo e não prometeu que ninguém jamais me machucaria de novo.
Ele só esperou que eu entrasse porque eu tinha escolhido ir com ele.
A diferença parecia pequena.
Para mim, não era.